“Deus tem uma imaginação muito maior
E muito melhor que a nossa!”

(Karen, a Baronesa de Blixen)

Nascida em 17 de abril de 1885, na Dinamarca, Karen Christence, a Baronesa de Blixen, é o maior marco da literatura dinamarquesa depois de Hans Christensen Andersen, tendo escrito sob os pseudônimos Osceola, Isak Dinesen, Tania Blixen e, possivelmente, Pierre Andrézel(o).
De família aristocrática, bastante religiosa e apreciadora da boa literatura, a pequena Tanne, como era chamada, cresceu com seus pais e mais cinco irmãos em uma propriedade em Rungstedlund. Seu pai, o capitão do exército Whihelm Dinesen, vinha de uma tradicional família da aristocracia rural e foi um grande contador de estórias, e autor da obra clássica “Cartas de um caçador”, tendo publicado alguns de seus livros sob o pseudônimo de Bogdanis. Sua mãe, Ingeborg Westenholz, era descendente de uma família burguesa e urbana, e foi a primeira mulher norueguesa a ser eleita para o Parlamento. Lamentavelmente, quando Karen tinha 10 anos, seu pai se enforcou acometido por depressão e pelo medo de enlouquecer devido à sífilis que havia contraído. Sua mãe, graças à ajuda de familiares, especialmente sua mãe, uma de suas irmãs (Bess) e um de seus irmãos (Aage) conseguiu manter a família estruturada, e teve forças para não deixar que o fato abatesse seus filhos, preenchendo-os com estórias, obras literárias e peças de teatro, ensaiadas por ela mesma, e apresentadas pelas crianças.
Apesar dos esforços da mãe, a morte do pai afetara muito Karen uma vez que sempre havia sentido que somente ele a aceitava e a amava como ela era. Sem ele, ela se sentia deslocada, fora do lugar. Sentia muito por não ter passado mais tempo com a família paterna, no campo, desfrutando de um estilo de vida mais divertido e livre. Com eles, ela se sentia mais a vontade. Eles não eram como a família de sua mãe, em que as pessoas eram autoritárias, parecendo nunca se importar com os sentimentos e sim com a aparência; e pontuando tudo o ela deveria e o que não deveria ser e que ela deveria ser diferente do que era; criticando características que ela julgava ser positivas nela. Ela costumava afirmar que todas as habilidades dela haviam sido destruídas pela educação familiar tirana; e que qualquer possibilidade que a permitisse viver, agir e realizar alguma coisa como ela mesma, resultara em nada por nunca poder ser ela mesma. Chegou a comentar, certa vez, que ela, em casa, se via como Lúcifer em revolta contra o Paraíso. Ela amava a todos, porém, se sentia um peixe fora d’ água.
Karen era muito inteligente, alegre, refinada e elegante. Também excêntrica, vaidosa e inquieta. Amava a natureza e os animais. Foi apaixonada pela África. Ela havia estudado na Inglaterra e tinha o hábito de ler os romancistas e poetas ingleses. Dizia que havia descoberto Shakespeare muito cedo, e sentia que a vida seria um imenso vazio se não o tivesse lido. Ademais, admirava os escritores cômicos porque amava o humor, gostava mesmo era de uma boa estória engraçada. Era fã de E. T. A. Hoffman, Hans Andersen, Barbey D’Aurevilly, La Motte Fouqué, Chamisso, Turgueniev, Hemingway, Maupassant, Stendahl, Tchecov, Conrad, Voltaire. No entanto, também lia Edgar Allan Poe, Melville e Racine. Além disso, chegou a estudar Belas Artes, ainda que sem apoio da família, durante um tempo porque pensava em ser pintora bem antes de pensar em ser escritora. Ela também se dedicou ao jornalismo e estava sempre ouvindo música. Declarava ter preferência por músicas antigas e também pelo jazz. Ela confessava que reescrevia muitas vezes suas estórias, e que se considerava a Princesa Sherazade, pois gostava de contar estórias. Para ela, todos os sofrimentos poderiam ser suportados se convertidos em uma estória para contar. Na África, onde a chamavam de Tania e de Leoa, ela vivia contando estórias de todos os tipos para os nativos, que em sua visão são mais sensíveis para ouvi-las, tanto que sempre ficavam ansiosos para ouvir o final, o que não acontecia com os europeus que facilmente ficavam entediados e até dormiam! Sua forte personalidade foi considerada controversa já que em temas políticos e de gênero ela oscilava em suas opiniões. Era Baronesa e gostava de ostentar este título, porém se posicionou a favor de algumas ideias socialistas. Era feminista, contudo, posicionava-se contra alguns pensamentos feministas; o que para uns nada mais representava sensatez e lucidez. Traços de uma mulher muito equilibrada e nada extremista.
Karen escreveu poemas quando criança assinando como Osceola – nome de um dos cães de caça de seu pai, que por sua vez era homenagem a um nativo com quem seu pai havia convivido em uma viagem em que permaneceu em companhia de uma tribo. Algum tempo depois, ela publicou um primeiro conto, “Os eremitas”. Aos 18 anos começou a escrever para se distrair publicando seus contos em jornais e revistas literárias na Dinamarca, e aos 19 anos escreveu a que seria a sua peça teatral mais significativa: A Vingança da Verdade. Aos 22 começou a publicar pequenas estórias. O curioso é que Karen sempre escrevia primeiro em inglês para somente depois traduzir para o dinamarquês, ainda assim teve os manuscritos de Sete Contos Góticos rejeitados tanto por editores da Dinamarca quanto da Inglaterra. Certa vez, decidiu enviar tais manuscritos a editores dos Estados Unidos sob o pseudônimo de Isak Dinesen, onde foram publicados imediatamente, e se tornaram um “best seller”. No entanto, a maior parte de seus livros foi publicado postumamente. Ela foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura, mas perdeu para Hemingway que, na ocasião, protestou dizendo que o prêmio deveria ter sido dado a Dinesen. Ela conheceu Arthur Miller, E. E. Cummings e Pearl Buck que declararam admirar suas habilidades como escritora. Karen era mesmo excepcional. E era reconhecida por isso. Tanto que foi única mulher a já ter sido convidada para beber no Muthaiga Club, um bar somente para homens; e também veio a ser homenageada por cientistas que batizaram o asteróide 3318 de Blixen em sua homenagem.
Karen era apaixonada por um de seus primos suecos, o Barão Hans von Blixen, que não lhe correspondia. Ainda assim, ela ficou alimentando esse amor platônico por anos a fio e, por isso, recusou muitos pedidos de casamento que recebeu. Hans tinha um irmão gêmeo, Bhor, também Barão, e que era muito diferente dele. Bror tinha o espírito aventureiro e muita vontade de ser livre. Em certa ocasião em que a família se reuniu para um evento, Bror resolveu propor a Karen que se casassem, pois assim se afastariam da família e seriam independentes. Ele a convenceu do quanto o acordo seria interessante para ambos. Karen aceitou o arranjo matrimonial proposto pelo primo, pois tinha muita vontade de viver bem longe daquele cotidiano familiar. A família dos jovens não era a favor por serem primos, mas como eles estavam determinados, a ideia acabou sendo aceita e foram enfim, patrocinados financeiramente pelos familiares. E, eles, ficaram noivos e foram para a África Oriental, onde compraram uma fazenda.
Aos 28 anos, Karen se casou com seu primo, o Barão sueco Bror von Blixen-Finecke, que a tornou Baronesa, em uma cerimônia bem simples em Mombasa, África, tendo como padrinho o Príncipe Guilherme da Suécia. Entretanto, Karen parece não ter entendido bem o plano estratégico de seu primo. Ele queria casar para ser livre e não para estar casado. Ele queria estar longe dos pais para fazer o que bem quisesse. Era isso e só. Os primos foram viver no Quênia, onde iniciaram uma plantação de café. Porém, Bror passava meses fora de casa, em safáris e campanhas militares, bebendo e em companhia de outras mulheres. Ele lhe foi infiel inúmeras vezes e lhe transmitiu sífilis. Como eram primos, nunca deixaram de ser amigos, e após algumas conversas decidiram se separar amigavelmente. Bror não se importou porque havia conseguido o que desejava: ser um homem livre e viver bem longe do controle de sua família. O episódio contrariou a família porque não queriam uma mulher divorciada em sua linhagem. Porém, nenhum dos dois estava interessado em continuar. Eles se separam e depois se divorciaram. No ano seguinte ao divórcio, Bror se casou novamente, e ela ficou sozinha na fazenda, em companhia somente do amigo Denys, que conheceu no período entre a separação e o divórcio.
O piloto do exercito inglês Denys Finch-Hatton foi o grande amor de sua vida. Filho de almirante, o jovem rebelde havia ido para África aos 24 anos para atuar como explorador, caçador e organizador de safáris, tendo sido guia do Príncipe de Gales. Tentou ser piloto de guerra, mas um acidente no pé o afastou da Aeronáutica. E, em 1930, Denys comprou um pequeno aeroplano Gypsy Moth. Os treze anos passados ao lado de Denys foram como um conto de fadas preenchido por safáris, jantares elegantes, leituras de clássicos e conversas sofisticadas, com degustação de vinhos ao som, especialmente, de Mozart. Todavia, Karen se sentia frustrada por ele nunca ter desejado se casar. Ela queria ser esposa e ter um esposo oficialmente. No entanto, Denys não era favorável à cerimônia matrimonial. Teria dito, inclusive, e por mais de uma vez que eles deviam ser livres como a África Ela engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês, provavelmente em conseqüência da saúde frágil. A relação terminou com a morte de Denys devido à queda de seu próprio avião, em 1931, que estranhamente caiu no local onde eles haviam decidido que seriam enterrados quando morressem.
Após a morte de Denys, Karen volta à Dinamarca, e com saudades da África e de Denys piora da doença. Passa a maior parte do tempo reunindo e reescrevendo as várias estórias que havia rascunhado por anos e decide publicar. Nessa mesma época, sua casa na Suécia tornou-se um abrigo para os judeus dinamarqueses que necessitavam refúgio e ela, acabou sendo em parte, responsável pelo resgate de mais de sete mil pessoas.
Anos depois, aos 65 anos, Karen surpreendeu a todos quando trouxe para viver com ela, em sua casa, um poeta dinamarquês de 30 anos: Thorkild Bjornvig. A idade não foi o fator que mais escandalizou a sociedade e sim o fato de ele ser casado e ter um filho. Ao que consta, e ao que ele mesmo registrou em seu romance O Pacto, sobre seu relacionamento com Karen, ele ficou extasiado com ela, com sua inteligência e brilhantismo, e a considerava sua mestre literária, por isso decidiu ir viver com ela, que, por sua vez, ficou obcecada por ele ao ponto de não permitir que ele saísse da casa durante três anos. Ele perdeu família e amigos e a esposa tentou o suicídio, porém, consta que ele teria dito que seria o escravo dela, e ela que o levaria ao topo do mundo literário, e que juntos entrariam para a história da literatura mundial. No entanto, o jovem não agüentou por muito tempo o fato de Karen controlar-lhe todos os passos e decidiu romper com ela.
Pouco depois, a saúde da Baronesa piorou muito e teve um terço do estômago removido em virtude de uma úlcera, provavelmente causada pelo arsênico que tomava para combater a sífilis. Impossibilitada de se alimentar normalmente, morreu aos 77 anos de idade em uma das propriedades da família na Dinamarca pesando 35 quilos, visivelmente com anorexia.
Karen deixou uma obra riquíssima repleta de cultura nórdica e também africana. Seus livros são cheios de mistérios, símbolos, fábulas, meditações filosóficas, humor, poesia e erotismo. Ela afirmou que alguns livros a inspiravam e citava a Bíblia, as mil e uma noites, os livros de Homero, as sagas nórdicas e os contos de fadas Hans Christensen Andersen.
Sua obra biográfica “A Fazenda Africana” tornou-se um clássico do cinema sob o título “Entre Dois Amores”.

Obras:
Sete contos góticos (1934)
A Fazenda Africana (1937)
Contos de Inverno (1942)
Anedotas do destino: A festa de Babette e outras histórias do destino (1958)
Sombras na pradaria (1960)
História imortal (1985)
Ehrengarda, a ninfa do lago (1988)
Novos contos de Inverno (1989)
As cariátides (1989)

Crédito da imagem: BBC.UK

Referencias:
Beard, Peter (org.) 990 . Kamantés Tales form Out of Africa. Edited by Jaqueline Bouvier Onassis. San Francisco: Chronicle Books.
Dinesen, Isak. 1993 . Sombras na relva. Rio de Janeiro: editora 34, trad. M.Luiza Newland.
Saint Pern , Dominique de. Baronne Blixen. Stock. 2015.
Thurman, Judith. s/d. A vida de Isak Dinesen (Karen Blixen). São Paulo: Record, trad. Aulyde S. Rodrigues

Isak Dinesen – http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/IsakDinesen.htm
A Baronesa Blixen. https://www.publico.pt/noti…/jornal/a-baronesa-blixen-151665
A leoa Blixen -. https://www.labrys.net.br/…/aventura/karen/a_leoa_blixen.htm
http://www.vanguardia.com.mx/…/una-biografia-novelada-descu…

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