No jornal “Público” de hoje, edição digital, saiu publicado um artigo sobre as expectativas  de estudantes e de suas famílias sobre o ensino superior, isto é, se compensa frequentar a faculdade ou a universidade. Para quem não conhece, o “Público” é um jornal português muito popular, com grande número de leitores. Com o título “Alunos e famílias não acreditam que estudar compense”, a matéria trata de uma pesquisa feita em Portugal sobre o assunto, coordenada pela professora Diana Aguiar Vieira, que é investigadora e pró-presidente do Instituto Politécnico do Porto.

Segundo o estudo, que foi encomendado pela Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES), tanto os alunos como suas famílias preferem concluir um curso técnico profissionalizante e ingressar no mercado de trabalho a ter que pagar as mensalidades (propinas) e esperar pelos frutos a médio e longo prazo. Chega a ser desanimador. As conclusões do estudo atribuem o desinteresse à falta de informação, pois outras pesquisas confirmam que ter um curso superior aumenta em 69% o salário percebido em Portugal, maior que os 54% da União Européia.  No Brasil os números são muito superiores aos de Portugal, pois um profissional formado em faculdade ganha cerca de 140% a mais que outro, apenas com o ensino médio.

Fico me perguntando se diante desses números e se de fato informássemos ao alunos e suas famílias as maravilhas de se fazer uma universidade – pois além do argumento imbatível dos números, há diversos financiamentos em Portugal e no Brasil que a população em geral desconhece – se ainda assim haveria estímulo suficiente para que os jovens investissem de quatro a seis anos de suas agitadas vidas em bancos escolares; e pais e parentes gastassem um mínimo que fosse para ver seus filhos “professores” ou “doutores”. Parece que a pesquisa foi feita muito seriamente, mas as conclusões apontam para uma leitura equivocada.

Já há muito tempo a Universidade vem perdendo prestígio por sua própria responsabilidade, incapaz de atrair os estudantes pelos motivos certos. Há alguns anos, meu amigo Antônio Cândido Martins, diretor do departamento de Filosofia da Universidade Católica de Braga, reclamou que estava perdendo alunos dos cursos de Filosofia, Letras, Teologia, Economia, Ciências Sociais, História e outros para áreas “práticas”: Engenharia, Jornalismo, Mídia, Análise de Sistemas e tudo o que se refere a informática e logística. Culpa de quem? Da própria universidade, que se vendeu como preparadora de profissionais qualificados, e não de pessoas qualificadas. Da Universidade que abriu mão da generalidade para abraçar a especificidade, desistiu do pensar para fazer, adotando o fazer e para depois pensar.  Tornou-se a justificativa teórica para a práxis que prescinde do ensino superior para se estabelecer com competência. Ao mesmo tempo, o conhecimento deixou de ser fonte de prazer e elevação cultural e espiritual e passou a ser algo que “compensa ou não compensa”.

Essa é uma razão que está mais na base da Universidade atual, mas agravada por elementos que compõem  uma instituição semelhante à do ensino profissional, só que com mais leituras chatas e professores arrogantes. Estas últimas observações são dos alunos com os quais sempre converso sobre o tema , quero deixar claro, não é uma visão pessoal.

A perspectiva do “Compensa ou não compensa”, aliás, nem deveria ser pauta ou objeto de pesquisa. Dar continuidade aos estudos é o caminho natural de todo ser humano, que nunca deve parar de estudar. Fico perplexa ao conversar com jovens atendentes de bares, restaurantes, lojas, pergunto se estão fazendo faculdade e eles respondem: “Não, já terminei meus estudos”. Ninguém terminou os estudos, porque a Educação é o processo mais perene do ser humano: começamos a aprender quando nascemos e nosso último aprendizado se dará com o último suspiro. Não é questão poética, mas pedagógica, da forma como devemos educar nossos filhos e alunos. Começa por nós mesmos.

Se a Universidade promove a diplomação como recurso de progresso profissional e econômico, e essa até pode ser uma boa estratégia de Marketing, a resposta do mercado muitas vezes pode contradizer o mundo acadêmico: no Brasil, metade dos bacharelados recebe menos de 3 mil reais por mês, e esse número sobe quando se trata da licenciatura isto é, 88% daqueles que optaram por dar aulas ou pesquisar  estão abaixo dessa linha salarial. Isso comprova que ninguém vai ficar milionário depois da faculdade. Muito menos sendo professor.

Sabendo de tudo o que envolve a educação superior, o que eu diria para meus filhos nesse sentido? Primeiro, aos 18 ou 20 anos o jovem ainda se sente inseguro para tomar decisões profissionais e mesmo pessoais que acarretarão responsabilidades que muitas vezes ele pode não poder cumprir. A idéia de cursar uma Universidade deve ser o passo natural  que se deve dar no final do ensino médio ou profissionalizante, não porque se vai ganhar mais dinheiro, mas porque a Universidade, a rigor,  proporciona mais conhecimento. E esse conhecimento proporcionará mais crescimento interior, mais elevação cultural e até espiritual, porque não é só na igreja ou no templo que exercemos nossa espiritualidade, mas no dia a dia, na prática cotidiana do bem pensar, do bem ler e do bem fazer. Na busca da Verdade, do Bem e do Belo. No aperfeiçoamento constante. Será que já ouvimos falar desses fundamentos em algum lugar?

Muito tem se falado sobre qualidade de vida, desapego de bens materiais, vida simples e feliz, mas por que essa prática está tão ligada ao ecologismo de fachada e ao fanatismo vegetariano? Porque falta conhecimento. Falta a ação e a afirmação da Universidade como tal, cuja etimologia é justamente o Universal, permitir que o Universo esteja dentro de cada um de nós. Que se promova mais que a discussão tosca de que fazer ensino superior compense ou não, porque no mundo que queremos construir, estudar sempre valerá a pena.

Todas as fontes desse artigo podem ser conferidas nos links abaixo.

 

https://www.publico.pt/2018/03/06/sociedade/noticia/portugueses-nao-conhecem-o-ensino-superior-1804927

https://www.rtp.pt/noticias/educacao/estudo-revela-que-tirar-curso-superior-compensa_n1040666

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2017-10-18/ensino-superior-salario-baixo.html

https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/09/12/trabalhador-com-nivel-superior-ganha-140-a-mais-mostra-estudo.htm

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