Um dos pontos mais controversos em Língua Portuguesa é a Concordância. Nominal ou verbal, ela sempre dá trabalho a estudantes, professores, jornalistas, escritores ou outras pessoas que escrevem ocupados com a norma culta, ou com a linguagem padrão que nos faz membros de uma mesma comunidade – a dos falantes da Língua Portuguesa. Pois bem, vou voltar ao ponto da concordância, ao abordar algo que tem me incomodado muito. Ninguém precisa ficar preocupado com essa questão aqui, porque vou tratar do assunto de modo raso, só apontando a concordância do artigo definido “o” ou “a” com o substantivo a que ele se refere.

Assim como diz a letra da música de Roberto Carlos, “Todos estão surdos”, às vezes acho que as pessoas estão incapacitadas para ouvir, talvez porque haja muito lixo que entra pelos nossos ouvidos ultimamente, na forma de música  ruim ou de bobagens faladas por jornalistas, publicitários e políticos, amplificadas pelos veículos de comunicação. No caso musical, a maior parte das pessoas não consegue ouvir verticalmente, isto é, escutar a harmonia que está atrás da melodia e a apoia, o que faz toda a diferença no efeito. Também os discursos enganadores e mal-escritos passam despercebidos por grande parte do público, pouco transparentes que são suas entrelinhas e intenções. Muitos parecem não ouvir nem os erros gritantes de concordância nominal, a partir do artigo. Será que não dói ao ouvido “Os pessoal fundaram as cidade que nós mora”? Esse modo de concordância, ou de discordância entre os termos da oração, comum em se tratando de variedade linguística utilizada por pessoas de pouco letramento, é aceitável como dialeto regional, mas inadmissível na publicidade e no jornalismo, que se apresentam na mídia para um grande público. Parece que os publicitários inventaram uma “A Casas Bahia”. Que negócio estranho é esse, colega? Não seria mais razoável e elegante “A Casa Bahia”, ou “As Casas Bahia”? Os “publicitários linguistas” de plantão inventaram mais uma moda?

Será que a intenção foi dar uma dimensão mais singular a este estabelecimento comercial que tem inúmeras lojas, ou resolveram economizar os “s” para testar os ouvidos do consumidor? Provavelmente provém da ideia errada de que “Casas” é uma marca, então, não precisa obedecer às regras gramaticais, como no caso de “Maizena”, marca da genérica maisena (mais – milho/ ena – amido). A invenção na concordância nominal não é novidade na publicidade. Quem não se lembra do jingle natalino: “Na Pernambucanas – em todos os lares, a Paz seja total, e mais os nossos votos de um feliz Natal”. Francamente, as Pernambucanas não precisam desse expediente para chamar atenção. Estão presentes até em Quixeramobim!

Depois pensei que cantar os “esses” requer muita musicalidade para não tornar o som da música parecida com uma cobra sibilando no deserto. Foi o caso do comercial da Casa das Alianças, em que o jingle resolveu economizar os esses e virou a piada da “Casa das aliança”. A agência resolveu consertar. Virou “Casa das Aliançasssssss”!

Pessoalmente, defendo a forma “As Casas Bahia”, ou “As Pernambucanas”. Confere às lojas uma dimensão variada, com presença em diversos bairros, cidades e estados, de fácil acesso. É simples também entender a concordância, mais melódica e prática para concordar com o verbo: “As Casas Bahia oferecem o que há de melhor”, por exemplo, em vez de “A Casa Bahia oferece…”. A frase dá a entender que só há uma loja a prestar o serviço. Contudo, do modo como está, com erro de concordância, soa ainda pior: “A Casas Bahia oferecem…”. Péssimo, uma vez que somos sempre levados a concordar a partir do artigo, que está distante do verbo, mas determina o substantivo. Isto é, ficamos na memória com o singular do artigo “a”, embora o substantivo “casas” esteja no plural.

O que justifica o uso indevido do artigo no singular referindo-se a substantivo no plural pode ser decorrente do despreparo ou da arrogância de publicitários que menosprezam seu público, ao considerarem que o singular simplifica o entendimento, quando, na verdade, essa forma refere-se a universo muito mais geral que o plural. Explico.

O que você, leitor, acha mais abrangente: “Os Homens” ou “O Homem”? “As Felicidades” ou ” A Felicidade”? “As Verdades” ou “A Verdade”? Vejamos, em uma rápida consideração:

Os Homens = A totalidade dos homens sobre a Terra, a Humanidade como nós a conhecemos em nosso escopo de conhecimento. “Os Homens são mortais”.
O Homem = A Humanidade passada, presente e futura, os homens em caráter universal e sua essência mortal. Os homens que conhecemos e os que nunca conheceremos. “O Homem é mortal”
As Felicidades = Votos de felicitação por uma ocasião natalícia, festiva, preenchida com desejos transitórios de saúde, sucesso, prosperidade.
A Felicidade = Para alguns, o sentido da própria vida humana. Categoria abstrata e fonte de prazer e alegria inesgotáveis. Para outros, uma utopia ou um estado de perfeita harmonia interior.
As Verdades = Opiniões ou fatos relativos a contextos diferentes entre si, assim como a seres diferentes entre si, que guardam, cada um, suas razões e especificidades. A verdade de x é diferente da verdade de y pois estão em contextos, épocas, realidades sociais, econômicas, políticas completamente diferentes, e igualá-los ou compará-los é incabível. Em teatro, tratamos da “verdade da personagem”: suas razões de pensar, agir e falar para que o ator possa compor e interpretar seu papel.
A Verdade = Categoria atemporal, símbolo da ética, da perfeição, do belo, do bem. Para alguns, é Deus: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

Portanto, tomar o santo artigo singular em vão vai além de transgredir uma norma da língua padrão. É um pecado que pode ser perdoado, mas merece confissão! Poderia ser até mandamento: “Não tome o santo artigo singular em vão! Não transforme substantivo concreto em abstrato indevidamente, porque só merece ser singular o que se refere não a um particular evento ou experiência, mas o que designa uma categoria universal, simbólica”. Os publicitários e as agências contratadas pela família Klein já foram bem mais espertos, criativos e competentes, além de mais simpáticos e menos pretensiosos. Livres das amarras dos artigos definidos, eram fruto também de uma época em que o comércio vendia produtos, e não dívidas, ao som de uma melodia singela, cantada por um bonequinho com chapéu de cangaceiro: “Casas Bahia, dedicação total a você!”