No dia do trabalhador nossa homenagem vai para os profissionais empreendedores que atuam no jornalismo, inclusive os próprios jornalistas, que vêm mudando profundamente a história da comunicação social mundial por meio de suas atuações na Mídia Independente.

Mídia independente é uma das nomenclaturas que recebe a mídia que não está a serviço dos chamados “oligopólios”, ou seja, meios de comunicação concentrados na mão de poucas pessoas (geralmente famílias) que decidem o que noticiar e o que não noticiar, e de que forma levar à público as informações: total ou parcial e até mesmo com ou sem ética e transparência. Logo, a Mídia Independente não está sob a influência de grandes grupos nem é atrelada à financiamentos de partidos políticos, instituições governamentais, celebridades ou entidades religiosas tampouco de anunciantes, que normalmente são grandes conglomerados empresariais.

Muitas vezes confundida com a mídia alternativa e a mídia paralela, a Independente prima por cobrir acontecimentos populares, nacionais ou internacionais e não distorcer fatos. Uma mídia do povo para o povo, mantendo qualidade e buscando atender os interesses coletivos. A principal finalidade é permitir que o espectador tenha uma visão ampla e seja capaz de analisar os dados sem interferência de opiniões tendenciosas.

A Mídia Independente tem suporte no CMI – Centro de Mídia Independente, que é uma rede internacional formada por produtores de informação por meio da qual qualquer pessoa pode se juntar a eles e/ou contribuir, e mantém um banco de notícias disponível para distribuição e reprodução livre em quaisquer meios e também um site na internet: CMI.

CMI desenvolve vários projetos e se auto-declara livre e independente de interesses governamentais e empresariais. Ainda, a rede acolhe os excluídos da mídia, oferecendo-lhes capacitação para produção de seus próprios meios de comunicação, geralmente com a utilização da internet. Além do site, CMI possui rádio, vídeo e jornalismo impresso além de um espaço para fotografias. Há produção de documentários e vídeos-reportagens que são disponibilizados gratuitamente no site em regime de copyleft.

Talvez o maior exemplo da mídia independente seja o Mediapart um jornal online, criado por Edwy Plenel, ex-diretor de redação do jornal francês Le Monde, em 2008. Recentemente, o jornal, que conta com aproximadamente 35 jornalistas, lançou publicidade própria em que dizia: “A quem pertence o seu jornal? Quem o possui: Os que anunciam nele? Os que defendem seus interesses? Os que o lêem? Mediapart: somente nossos leitores podem nos comprar”. Esse fator explorado na publicidade do Mediapart é demasiado relevante uma vez que deixa explícito que quem detém o poder é o leitor, ou seja, o cidadão comum.

Assim a Mídia Independente cresce em uma velocidade fabulosa e seu poder assusta a mídia tradicional, que tem se digladiado a fim de não perder mais audiência. O poder da mídia independente representa de certa forma o poder do povo no sentido em que ao povo é de fato oferecido o direito de escolha. Talvez por esta razão é que países cujos governantes tendam à ditadura considerem a Mídia Independente como uma grande inimiga e, por este motivo, buscam criar e elaborar leis para criminalizar blogs, vlogs, rádios comunitárias e jornais digitais. Uma tentativa de desmoralizar e abalar a credibilidade da Mídia Independente é a criação de boatos e notícias falsas, o infame fake news, uma ação cruel que visa plantar principalmente no leitor as idéias de que a Mídia Independente é anônima e mentirosa.

O grande temor da mídia convencional é justamente o fato de a Mídia Independente se mostrar a plataforma ideal em que os profissionais, livres e empreendedores, entregam conhecimento de modo que sem amarras eles podem apontar para um retrato sem maquiagens da situação, do local ou do país. Essa atuação é de uma significância estrondosa, pois mais do que levar assuntos a Mídia Independente leva verdades, um panorama completo, real e sem manobras ou distorções.

Em 2008, aconteceu em São Paulo o I Fórum de Mídia Livre que reuniu 42 profissionais da área como jornalistas e professores cujo objetivo foi debater a qualidade dos noticiários nos jornais, nas revistas, nas televisões, nas rádios e nos sites bem como analisar a influência da política e dos grupos de interesse que fomentam fofocas e futilidades, manipulando e menosprezando assuntos de importância nacional e até internacional bem como idiotizando e emburrecendo a população. Os fóruns têm acontecido anualmente e não ficam apenas no âmbito do Brasil mas também de toda a América Latina. Além dos fóruns nacionais, o Fórum Mundial de Mídia Livre já atua reunindo os seguintes países: Argentina, França, Itália, Alemanha, Moçambique, Senegal e Marrocos. E, foi nele que se iniciou a elaboração da Carta Mundial de Mídia Livre.O 6th World Forum of Free Media que aconteceu em Montreal, Canadá, em março passado esteve presente no World Social Forum 2018, evento que aconteceu também em março no Brasil, na cidade de Salvador, Bahia.

Recentemente ainda, mais um avanço em favor da Mídia Independente foi o Relatório Ponto de Inflexão realizado pela SembraMedia uma agência que oferece apoio a profissionais empreendedores no campo das comunicações sociais, e que avaliou o impacto das organizações de jornalismo digital em quatro países da América Latina: Argentina, Brasil, Colômbia e México, sendo considerado um dos mais completos relatórios na área. A publicação do importante relatório foi feita em parceria com Omidyar Network e apontou para três pontos cruciais para a Mídia Independente: profissionalização – parceria e proteção está disponível por inteiro para download público nos idiomas, inglês, espanhol e português no site da SembraMedia.

O que falta é certamente o apoio e incentivo aos comunicadores independentes já que em muitos países, especialmente das Américas Central e do Sul, as pessoas não estão habituadas a atividades independentes e tanto a autonomia quanto a liberdade apavoram já que estão acostumadas à escravidão e à censura, são pessoas que vivem uma vida em que estão completamente acorrentadas e atadas a praticas assistencialistas. O pior? A manipulação é tanta que a escravidão tornou-se um hábito difícil de se desvencilhar e, na maior parte das vezes, os cidadãos sequer se dão conta do nível de escravidão em que estão inseridos não percebendo que a partir do momento em que necessita de terceiros para executar as mais simples atividades cotidianas e não se faz quase nada sem assistência e auxílio de outrem todos os dias tem-se implantado um sistema de escravidão altamente maléfico.

De acordo com o jornalista Paul Radu, do OCCRP (Organized Crime and Corruption Reporting Project) há três caminhos possíveis para a Mídia Independente:

I. Usar de maneira eficiente as bases de dados com alto impacto na vida dos cidadãos;

II. Conquistar a confiança do público e conectar-se com ele de modo que ele, o público, doe recursos para o sustento das boas produções jornalísticas;

III. Cooperação internacional para o financiamento das produções da Mídia Independente.

O grande diferencial da Mídia Independente:

Espectador é livre! O cidadão é livre para escolher o que deseja assistir, a que horas e por qual canal/meio. Ele monta sua própria grade de programação.

Comunicador é livre! Profissionais não sofrem tanto com desemprego, pois empreendem a partir de canais independentes realizando os mais variados programas desde informativos e educativos até games onde quer que ele se encontre, trabalhando até mesmo de casa, em seu Home Office, ou com startups vendendo seus produtos e serviços. Ele leva a notícia ao público de forma natural e verdadeira.

“Reis da mídia” estão fora! Na Mídia Independente não há donos de grandes grupos financiando pautas ou espaços.

O certo é que os indivíduos de bem, os intelectuais e os acadêmicos estão cansados de tantas simulações, falcatruas e enganos e desejam ter suas liberdades mais básicas respeitadas: ser livre para escolher e viver, e receber as informações corretas – esses são direitos de que não se deve abrir mão.

O papel da Mídia Independente nunca foi tão imprescindível (…) Os patrocinadores, os investidores e a sociedade civil devem apoiar essas organizações de Mídia Independente para assegurar que elas continuem aptas a provocar um impacto real, desenvolver empreendimentos e atuar como modelos inspiradores para os demais, por toda a América Latina e por todo o mundo”.

(Felipe Estefan – líder de investimentos da Omidyar Network).

Comments are closed.