Era uma noite de Luar, no meio da Mata ao lado de um lindo rio, ainda límpido, começam a surgir de todos os lados figuras curiosas: um negrinho de barrete vermelho e com uma só perna e um pito na boca, uma cobra gigantesca de fogo, um moleque de cabelos vermelhos e pés para trás, montada num porco do mato gigantesco vem outro ser curioso, meio índia meio elfa, com cabelos vermelhos, com longos cabelos verdes emerge das águas daquele rio límpido uma mulher linda, meio peixe meio mulher que ao sair da água tem sua calda tornada pés e caminha altiva até onde estavam os outros, atrás dela também surge um ser interessante, é um peixe, não um mamífero, cor de rosa, um Boto, mas, que ao sair da água se torna um homem lindo com um chapéu para esconder o respiradouro que tem na cabeça, pois, isso ele não consegue esconder e logo em seguida um homem muito triste com uma longa barba vermelha. Do outro lado surge outro negrinho montado num cavalo lindo e carregando um lampião, do canto esquerdo da floresta emerge uma gigantesca cobra que vai se levantando e se torna um lindo e forte índio, que quase é atropelado por uma mulinha vermelha e sem cabeça com fogo saindo por onde deveria ter uma cabeça, de outro ponto surge uma bicharoca muito feia, com um corpanzil de jacaré, em pé, mas, com muitas contas e colares indígenas pelo corpo, envolto em um mistério, surge do canto escuro da floresta um ser que parece ter saído dos sonhos dos índios da floresta. Com um porte lindo, surge um ser que vira homem, vira mulher, os dois lindos. Quase ofuscando os olhos de todos ali emerge da floresta uma linda mulher de cabelos loiros dourados, radiante como o sol vestida de linho branco, e atrás dela um homem com um grande saco as costas, ainda boiando pelo rio encontramos a maior planta aquática do mundo que de repente se torna uma linda índia e vem ter com ou outros na margem. De repente todos se assustam com um urro horrível e alto e um ser meio fantasma surgindo do canto escuro da floresta, seguida de outra criatura que parecia uma ovelha, mas, grande e com chifres ou era um cachorro grande soltando fumaça pela boca? Andando balançante, surge uma linda mulher loira, branca e alta com olhar apaixonante, mas, quando chega perto se torna uma caveira e por último emerge do mato um monstro feio e assustador.

Como bom organizador de todo ano o Saci Pererê começa a chamada e cada um responde ao chamado

– Boitatá?

– Presente

– Curupira?

– Presente

– Caipora?

– Presente

– Iara, Mãe D’Água?

– Presente

– Boto Cor de Rosa?

– Não gosto desse nome,  eu me chamo Uauiará…

– Tá bom… Uauiará?

– Melhor, Presente

– Barba Ruiva?

– Presente

– Negrinho do Pastoreio?

– Tche.. Presente

– Cobra Norato?

– Só Norato, por favor, Pererê, Presente… Aff, povo chato com essa coisa de cobra.

– Mula sem Cabeça?

– Ela está aqui, essa estabanada, grita Norato.

– Cuca?

– Me respeita seu moleque preto ou eu te enfeitiço…

– Ai, meus sais… o Bruxa velha aqui todos são imunes a seus feitiços…

– Ah é, verdade. Presente

– Jurupari?

– Presente, mas, cuidado… Posso fazer de seus sonhos um pesadelo.

– Ai, ai, o Mané!!! Aqui ninguém dorme.

– É vero, sem graça isso.

– Acutipupu?

– Presente, Presente, nós dois.

– Mãe-de-Ouro?

– Presente meu precioso menino.

– Papa-Figu?

– Tem algum figadu ai pra eu cumer?

– Não, o velho do saco…

– tá, Presente.

– Vitória-Régia?

– Naia, por favor meu bom Saci. Presente

– Bradador?

– Presennnnnnteeeeeeeeeeeeeeeee.

– Tá!!! Não precisa berrar.

– Cadê Ahó Ahó?

– Está aqui… grita o negrinho do pastoreio

– Alamoa?

– Estou aquiiiii.

– Aiiiii, caracas não faz isso não… Fica como Loira, é mais bonita… essa sua cara de caveira assusta…

– hihihihihihi, Presente.

– Bicho Papão?

– Oi, to aqui.

– Não sei por que o povo tem medo de você, só se for pela feiura…

e dando um largo sorriso o Bicho Papão entra na roda.

– Mas, pera, está faltando alguém. Alguém viu ele chegar?

Todos se olham, balançam a cabeça e olhando ao redor. A Lua começava a surgir no Céu e então um uivo ao longe se escuta. E correndo, adentra a clareira o Lobisomem.

– Auuuuuuuuuuuu!!!! Caracas,  Desculpem, tava ruim de me transformar hoje, muita poluição, quase não via a Lua.

– Bom, chegaram todos, que bom. Meus queridos, todo ano nos reunimos aqui para conversarmos e falarmos de nossas vidas. Então? como, está tudo???

Para que o Saci perguntou isso??? Foi um bafafá. Era um gritando que estavam desmatando tudo, outro que os rios estavam poluídos, outro berrando que não dava mais pesadelo em ninguém, pois, a Política, os traficantes e a carestia fazia isso muito mais. Boitatá reclamando que teve uns homens querendo capturar ela para exposição no Butantã, Negrinho reclama que ninguém perdia mais nada e quando perdia, procurava uma outra lenda chamada GPS. O Papa-Figu choramingava que as crianças, mesmo as mais malcriadas, agora ficavam direto em casa vendo um tal de celular e não iam mais para a rua. O Boto sentou e começou a chorar dizendo que tinhas seduzido uma moça linda num Forró, mas, quando foi “as vias de fato” era na verdade um “Moço”. A Alamoa reclamando que não aparecia mais nenhum marinheiro para seguí-la. A Iara também reclamava daquilo, a Mãe-de-Ouro começa a chorar e fala..

– Vocês não sabem o que eu passei, queriam me roubar achando que eu era de Ouro, foi um pesadelo…

– Ei, eu não tenho nada a ver com isso… Berrou Jurupari.

– Ninguém mais acredita na gente, agora eles tem um tal de Harry Potter.

O Bicho Papão tava mordido:

– Fizeram um  tal de filme onde tinha um monte de Bichos Papões, mas, um deles era bonzinho e azul e tinha um outro olhudo de nome russo que no final fazia as crianças rirem em vez de se assustar. Isso é inadmissível.

– É verdade, Até o Ziraldo parou de escrever sobre a gente. Bradou o Pererê. Realmente não estamos mais fazendo parte desse mundo. Outro dia estava eu escondido perto de uma arraial que falaram ia ter Festa Junina e eu pensei? Vou fazer umas diabruras, uns ventos de baixo dos vestidos das meninas e uns amarados nas tranças, ou quem sabe nas crinas dos cavalos. Mas, não tinha cavalo, as meninas já estavam pra lá de nua e ainda tinha uma música estranha tocando de um tal de Pablo Vittar, que nada de Forró era.

Nisto, surge de dentro da Floresta um velho homem, com um cajado na mão, longos cabelos brancos, mas, um andar ainda altivo. Senta no meio da clareira, perto da fogueira, chama a todos e com calma fala…

– O que está havendo meus filhos??? Por que essa tristeza???

– Pai das Lendas, nós estamos sumindo do imaginário das pessoas, ninguém acredita mais na gente, não nos procuram mais, não nos temem mais, não nos lêem mais…

– Sim, meus filhos, é o sinal dos tempos, das mudanças. Os gregos antigos tinham os seus Deuses, que morreram por que o povo parou de acreditar neles. Os Egípcios idem, e estou falando de algo bem maior, de Religião, imagina lendas.

– Então temos de morrer Pai das Lendas?

– Não, pois, enquanto existirem sonhadores no mundo, pessoas que amam o inimaginável, o Fantástico, e não estou falando do programa, mas, da nossa realidade, estaremos ali vivo, enquanto existirem pessoas que amem sonhar, estaremos nos seus sonhos e até nos pesadelos viu? Jurupari!  – e solta uma gargalhada gostosa. Não nos espantemos meus filhos, estamos ficando meio esquecidos, eu sei disso, mas, enquanto existirem pessoas que se preocupem de falar da gente, de nos mostrar de alguma forma ao povo, Estaremos vivos e vivos ficaremos. A noite já termina, vamos voltar para nossas casas.

E cada um sai, com um alento no peito, de que mais um ano virá e mais um ano vão sobreviver no imaginário das pessoas.

E você? Lembra dos bichos e seres de sua infância? Das histórias contadas nas salas de aula? Precisamos sim lutar para que NUNCA nosso Folclore morra, nossas lendas desapareçam, que nossos seres fantásticos sumam. Têm alguns aí que você não conhece? Nunca ouviu falar? Bom, dê uma procurada, eles agradecem e as lendas folclóricas também.

Meu papel, eu estou fazendo, e você?

Feliz dia do Folclore

Rio 22 de Agosto de 2018

Luiz Gustavo Chrispino