Nossa segunda matéria da série Aprendendo com o Brasilianismo traz o tema Sociedades Literárias, Conjuração Carioca e a Independência do Brasil, um assunto super afinado com o mês de setembro.

No século XVIII, mais precisamente em 6 de junho de 1786, surgiu a Sociedade Literária do Rio de Janeiro – fundada pelo vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza e criada por escritores e médicos com o objetivo de analisar, debater e produzir trabalhos relacionados tanto a assuntos literário-culturais quanto científicos e filosóficos. Alguns dos temas-foco desta entidade intelectual eram: Astronomia, Religião, Filosofia, Artes, Ciências Humanísticas, Economia (exportação do açúcar), Saúde e Higiene (a água, a população, o problema do alcoolismo), as novidades da Europa, a Revolução Francesa, a Independência das Treze Colônias dos Estados Unidos e o Iluminismo.  Foram membros ilustres o Marquês de Maricá (Dr. Mariano José Pereira), o Cirurgião Idelfonso José da Costa, o professor de grego João Marques Pinto, o professor-régio e poeta Manuel Silva Alvarenga (líder e membro-fundador), Vicente Gomes, José Luís Mendes, José Teixeira, Antônio José Castreoto, Manuel Ferreira e João Manso Pereira. Eles se reuniam todas as quintas-feiras das 20h00 às 22h00.

Essa Sociedade era dissidente da Academia Científica do Rio de Janeiro, idealizada e fundada em 1771/1772 pelo Marquês do Lavradio, então vice-rei, com a finalidade de promover o desenvolvimento de novas culturas para a colônia portuguesa das Américas e reunir pesquisadores, cientistas e acadêmicos de várias áreas. Inicialmente era composta por apenas 9 membros de cinco áreas: Agricultura, História Natural, Medicina, Farmácia e Química. A Academia, além do ensino dedicava-se a realizar experimentos e discutir idéias políticas, sociais, econômicas; ao mesmo tempo em que propunha inovações e construções práticas dos assuntos teoricamente estudados. Foi, no entanto fechada 7 anos depois, em 1779, e seus membros acusados de subversão e conspiração para a Independência da Colônia.

Quanto à Sociedade Literária do Rio de Janeiro, esta começou a crescer por volta dos anos 1790 e passaram a integrá-la professores, advogados, padres, profissionais liberais e empreendedores da época como marceneiros, ourives e sapateiros. Contudo, 4 anos depois, em 1794, o vice-rei, Conde de Resende ordenou o fechamento da Sociedade Literária por julgá-la “perigosa” demais. Atividades envolvendo pensadores apavoravam o governo e as autoridades portuguesas estavam muito preocupadas com a influência e propagação das idéias destes intelectuais na colônia.

Suspeitando que os intelectuais estivessem criando um movimento para libertar o Brasil de Portugal, o vice-rei mandou prender os membros por razões políticas sob a acusação de conspiração para a Independência do Brasil (A Prisão dos Letrados do Rio de Janeiro) e uma grande investigação (Auto de Devassa) foi feita na Sociedade e na vida de cada um deles. Nada ilegal ou “ameaçador” foi encontrado nem mesmo livros de circulação proibida. Eram todos cidadãos de bem, estudiosos e produtivos em suas áreas e em muito contribuíam para pesquisas e assuntos acadêmico-científicos. Os membros foram libertados em 1795, declarados inocentes por falta de provas. Esta ocorrência entrou para a História como o primeiro conflito separatista denominado de Conjuração Carioca (Conjuração Fluminense/ Conjuração do Rio de Janeiro/ Inconfidência da Guanabara).

Curiosamente, membros da Sociedade Literária do Rio de Janeiro, como o Dr. Mariano José, vieram a participar, anos mais tarde, da Independência do Brasil.

A Conjuração Carioca restringiu-se, todavia, ao campo do pensamento, das idéias e não contou nem com mártires nem com atos de heroísmo, mas parece ter sido o movimento que mais contribuiu para o maior e melhor momento vivido pelo Brasil. Estudiosos da Historiografia afirmam que por tais razões não se tratou nem de conjuração nem de inconfidência nem movimento emancipacionista ou conspiratório tampouco de conflito, revolta ou revolução separatista; quando muito uma associação de intelectuais ou manifestação de caráter filosófico-literário; e ademais seus pensamentos não estavam em total discordância com a corte lusitana. (Leia mais no livro do Historiador da USP e Professor da UFMG Luís Carlos Villalta em 1789-1808: O Império Luso-brasileiro e os Brasis).

Para saber mais leia também:

ALENCAR, Francisco et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 90.

HIGGS, David. Unbelief. and Politics in Rio de Janeiro During the 1790s, Luso-Brazilian Review 21, n.1, 1984.

LACOMBE, Américo Jacobina. A conjuração do Rio de Janeiro. História Geral da Civilização Brasileira. 7a ed. São Paulo, Difel, v. 1, p. 406-10, 1985.

Saiba mais sobre Brasilianismo clicando aqui.

O primeiro projeto do Brasilianismo é o Cordel Cordial. Acesse dados do projeto aqui.

Leia a primeira matéria da série Aprendendo com o Brasilianismo aqui.

Comments are closed.