“Tão natural quanto a luz do dia…”

(Céu Azul – Ana Gabriela)

Tão natural quanto é possível ser. Assim era nos melhores anos de todos os tempos. Pessoas felizes vivendo em harmonia com a natureza e tirando dela seu sustento. Arcadismo para uns, Romantismo para outros. Uma interseção entre eles. E há quem diga trata-se de Utopismo. Todavia, a nomenclatura escolhida foi Renascimento. O Novo Renascimento. Ou Renascença Rural como muitos têm chamado.

E o que é esse Novo Renascimento afinal? É a mais fiel tradução da combinação retrô + vintage + neo-ruralismo. Sim, é tempo de resgate. Resgate de princípios, valores, da família e da natureza. O conceito de tradição como renovação. É a aurora de um novo tempo, um novo tempo para os velhos tempos, aquele Good Old Times, aquele Good Times forever. Yes, os bons tempos estão de volta e bons tempos são para sempre. Então, é isso. A volta do Fundo do baú. Volta do vinil, da fita K7, da vitrola, do tamagotchi, do atari, da câmera polaroid, dos games da Zelda, dos filmes do Pokémon, dos brinquedos de pano e madeira, do filtro de barro, das hortas, dos trabalhos manuais, da Kombi, do Jeep, da moda xadrez e floral, da pochete, das botinas e sapatos de salto plataforma, enfim uma série de relançamentos. E nunca antes programas de culinária e filmes de super-heróis estiveram tão em alta… Ragnarök para você também!

Uma interminável moda do túnel do tempo? Não. Não é moda ou tendência. É realidade e meta, aliás, metas globais definidas nos Objetivos do Milênio (ONU).  O quê? A idéia de retomar a tradição, o senso de conservadorismo e preservação, e sintonizá-los a tecnologias em conceitos Eco, Natural, Organic, Bio e Green Living. A vida em um constante e vibrante Carpe Diem, em tons Clean e nude. Uma exaltação espiritualizada e quântica ao simples, positivo, discreto, elegante e comportado. Limpeza, organização e simplicidade. Menos consumo, menos barulho, menos lixo, menos poluição.

E esse tempo incrivelmente novo e velho é real? Super real! Basta ligar nos melhores canais para cantar com Capital Cities (Safe and Sound) e Walk to the Moon (Shut Up and Dance With Me), as regravações impecáveis de Michael Bublé e Daniel Boaventura, e os recentes clipes em visual explicitamente retrô de Gwen Stefani, Lana Del Rey e Kate Perry. Categoricamente a era é do Pop & Roll, BlandPop ou Country Pop. Pop Rural ou Pop Florestal como se diz por aqui…Para alguns melodias dissidentes do consagrado Indie Pop, para outros simplesmente o velho e bom Folk Music com a temática típica dos românticos pacíficos sobre amor, paz universal, mundo melhor, verdades, raízes, família, existencialismo, patriotismo, natureza, a casa, a terra e a vida tranqüila… Música reflexiva, leve e suave para escutar e cantar em família. Cantar no quintal em um Dia de Domingo a Paisagem da Janela e Tocando em Frente a vida naquela adorável Casinha Branca, a Casa no Campo da Rua Ramalhete

Quem? Os mesmos? Nada disso. Outros. Novos. A nova geração com o coração repleto de memórias do passado e visões do futuro: Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Tiê, Tiago Iorc, Mariana Nolasco, Manu Gavassi, Ana Vilela, Ana Gabriela, Roberta Campos, Melim, A Banda mais Bonita da Cidade, Banda do Mar, 5 a Seco, SuperCombo, Pedro Salomão, Fabiô, Scalene, Vanguart, OutroEu, Sharlon Oreano, Kell Smith e a dupla Anavitória. E os internacionais Ed Sheeran, George Ezra, Sam Smith, Phillip Phillips, Adele, Jason Mraz, Carry Underwood, One Direction e Taylor Swift. Com algumas rendições de Coldplay e Maroon 5 algumas vezes justificadas por clichês do tipo “sempre fomos fãs de Beatles, Barry Manilow, Duran Duran, Mumford & Sons, Pink Floyd, Lionel Ritchie ou Culture Club”. Seja como for essa é a Music e a vibe do momento: chique, bonita em letra e som, poética, apurada, levemente dançante, reflexiva, comportada e quase inocente, pura e educativa. Caracterizada pelo extremo bom gosto e tocável em qualquer tipo de evento; é a música que não agride nem ofende, não choca nem ensurdece, não estimula violência. É a música que acalma, um profundo namastê em vibrações de nirvana. Apenas, talvez, em alguns casos tente ensinar a viver ou apele para um pensamento mais crítico, sensato e centrado. Trata-se de um movimento musical de resgate liderado por um clube seleto de compositores que coloca sua inteligência a serviço das virtudes, da serendipidade e da placidez. Nas palavras do astro do Indie Pop da Noruega, o norueguês Sondre Lerche está a tradução mais perfeita do que esse momento significa: “as músicas do movimento mineiro Clube da Esquina me influenciaram diretamente e o álbum Clube da esquina 2 é o melhor álbum já gravado”. Entre o Clube da Esquina e o Indie Pop talvez more o BlandPop ou Pop Rural…

Atualmente, acompanham a “música dos novos tempos” as Belas Artes, as Artes Literárias e as Artes Cênicas, ainda que em menor grau. Na literatura, especificamente, é alta a gama de produtos sob o selo Renascimento Rural (Rural Rebirth) que tem a simpatia e o apoio de vários estadistas. No Cinema, tem crescido gradativamente os chamados “filmes verdes” ou “filmes ecológicos” como “Vida Sem Controle”, “Nós Alimentamos o Mundo”, “A Última Hora”, “Home, Nosso Planeta, Nossa Casa”, “A Era da Estupidez”, “Quem Matou o Carro Elétrico?”, “Alimentos S.A.”, “Fast Food Nation”,  “O Loráx”, “Os Sem Floresta”, “Nausicaä do Vale do Vento”, “Princesa Mononoke”, “A História das Coisas”, “Ferngully: The Last Rainforest”, “O Sal da Terra”, “Time for Change”, “Virunga”, “Chasing Ice”, “ Mission Blue”, “Trashed – para onde vai o nosso lixo”, “In Transition 2.0”, “Catching the Sun”, “Demain”, a produção escandinava “O Planeta” e a produção Disney “Terra”.

E o que mais? Só isso? Negativo. Há mais, muito mais. Está em tudo. Por todas as partes:

Vida familiar: resgate da instituição familiar, mais tempo em casa, em família. Co-habitação, Co-lar, CoHo, Co-housing, Coliving, comunidades co-habitacionais, Apartamentos cooperativos, comunidades intencionais, moradia compartilhada, habitat coletivo, cooperativas habitacionais. Vida comunitária sustentável. Hortas comunitárias, escolares e domésticas. Produtos artesanais. Comida orgânica e veganismo. Comida feita em casa e colhida no jardim ou na horta doméstica ou comunitária. Mais saúde e menos contaminação. Quando não é sistema “home” (domiciliar) é sistema “co” (compartilhado, comunitário).

Eco-tudo: ecovilas, ecolife, ecocasas, ecomóveis, ecobags, ecoescolas, ecohotéis, eco-friendly hotels, eco selos e eco rótulos. A inspiração para eco-vilas e eco-vilarejos vem dos anos 1960/70 quando um grupo dinamarquês propôs pela primeira vez o CoHousing, um vilarejo privado onde cada um tinha sua casa, mas o espaço comum como lavanderias, refeitórios, clubes, creches, centros para idosos e bibliotecas eram comunitárias; alguns compartilham serviços e meios de transporte como carros e bicicletas com o fim de economizar. A idéia para as ecovilas é ser independente totalmente integrada e resiliente, onde todas são auto-suficientes inclusive em alimentação e com tudo no local: escola, trabalho, lazer. Esse tipo de vila tem sido apelidado de “Cidades Utopia”, que pretende unir tecnologias inovadoras para gerar e armazenar energia renovável, produção de alimentos orgânicos de alto rendimento no próprio local, agricultura vertical, sistemas aquapônicos (que combinam agricultura e criação de peixes), gestão da madeira, gestão da água (captação, reuso e reciclagem) e gerenciamento de resíduos por meio da compostagem e reciclagem. Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, Alemanha, Bélgica, Grã-Bretanha e Estados Unidos são países que já declararam ter profundo interesse em eco-vilas.

Os grandes sistemas do futuro: Permacultura, Horticultura, Agrossilvicultura e Bioconstrução: é um dos pontos altos. Utilização de material natural, reaproveitado e/ ou recliclado. Tudo sempre centrado em utilizar diretamente os padrões e características observados em ecossistemas naturais.

Energia renovável: vilas, condomínios e fazendas como verdadeiros complexos de energias limpas, principalmente energia solar, eólica e hidráulica. Fazendas e áreas verdes têm abrigado complexos e usinas solares gigantescas em muitas partes do mundo.

A vida minimalista: uso de energias limpas, renováveis, redução de objetos no interior da casa. Menos móveis, menos eletrodomésticos, menos consumismo. Já há cafeteiras que não usam energia elétrica disponíveis no mercado, por exemplo. A volta do vintage (vendas de garagem, antiquários, brechós e mercados das pulgas) é uma realidade na Europa.

A vida intimista (vida home) – Home-tudo: home made, home theater, home office, SoHo, homeschool. Incentivo ao faça você mesmo: faça sua comida, seus móveis e suas roupas. Por quê? Mais barato, mais ecológico e livre de contaminações. A vida intimista significa mais tempo em casa, mais tempo em família, mais economia (renda familiar) o que ajuda a elevar a qualidade de vida das famílias.

Consumidor eco-friendly: environmentally friendly, environment-friendly, nature-friendly é o que conserta, reutiliza, troca, compra do pequeno comerciante, do comércio local, dos parentes e amigos privilegiando os negócios familiares e locais; é um grande não à terceirização. Personalizar e customizar torna os objetos únicos e sob medida para a vida de cada um. Esse consumidor opta também pelos produtos orgânicos e naturais evitando os industrializados e lendo as embalagens a fim de se inteirar sobre o que compra.

Consumo colaborativo: é o sharing economy, economia compartilhada, economia colaborativa, economia solidária. Trocar, emprestar, alugar, doar, comprar objetos de segunda mão, objetos usados, reutilizar, reaproveitar, reciclar. É o compartilhar de todos os recursos seja humanos, físicos ou intelectuais. Não é trabalho humanitário, missionário ou voluntário; é simplesmente a vida em uma rede de solidariedade, uma espécie de corrente do bem. Os moradores locais compram uns dos outros e não do governo ou de multinacionais. Seus hábitos são sustentáveis, e primam pela proteção ao meio ambiente e qualidade de vida, com empreendimentos eco-friendly e sem fins lucrativos. É o que se denomina Collaborative lifestyle. A idéia para o financiamento coletivo (crowdfunding) nasceu aqui.

CoWorking: um espaço de trabalho coletivo bem ali no final da rua, vila ou do bairro. Um salão ou galpão cheio de baias onde todos os moradores daquela rua, bairro ou vilarejo trabalham. Cada um em seu mini-escritório e atividades independentes. Diferentes profissionais desde empresários até cientistas racham as despesas de aluguel, telefonia e internet, bem como os serviços de limpeza, copa e compra de materiais de higiene e escritório.

Assim como o SoHo, o Coworking é um grande SIM ao empreendedorismo e um sonoro NÃO à escravidão. Não se submeter aos horários inflexíveis que tanto prejudicam a vida familiar e aos tantos impostos que reduzem bruscamente a renda, ser micro empresário parece ser a alternativa perfeita para o Family Business em todos os seus pormenores.

Empreendedorismo: aprender a fazer você mesmo é questão de iniciativa, liderança e independência. Significa não esmolar, esperar ou depender dos outros. Assistencialismos não são necessários, o ser é educado, ensinado e encorajado a agir e não ficar inerte. As leis são: busque, estude, faça, realize, lidere, conquiste. O motivacional e a auto-ajuda estão cada vez mais em voga, o que nos dá uma boa dica do quanto ainda é preciso aprender a empreender e lançar fora todo o medo de não ser capaz, de não ter perfil ou de não ter jeito.

Verde: o mundo todo de repente se torna verde… Escola verde, pensamento verde, empresa verde, produto verde, partido verde, condomínio verde, metrópoles verdes, games verdes… A questão é sempre se todos estão realmente atuando do jeito “verde” em toda a acepção ambiental da terminologia e não “verde” de raiva em uma versão Hulk de si mesmo…

O fato é que em todas as partes do mundo reuniões, palestras, conferências e muito coaching sobre como ser natural se proliferam. Não é à toa. Todos os países estão unindo esforços para tornar o mundo um lugar melhor. Salvar o planeta é a prioridade. Outros movimentos de resgate têm surgido: o retorno da língua portuguesa como era, casta e mais autêntica (leia sobre a polêmica do AO/90), pesquisa a partir das fontes primárias, o voto impresso e movimentos de restauração da Monarquia em nível mundial.

O combater à destruição da Terra, das mentes e das famílias só é possível por meio da EDUCAÇÃO. E a Educação começa dentro de cada um de nós, dentro de nossas casas. O momento representa um adeus definitivo ao FAKE, ao ARTIFICIAL, ao CONTAMINADO, à SEPARAÇÃO, à ESCRAVIDÃO, à DESEDUCAÇÃO, à DESINTELIGÊNCIA e a todas as culturas de MORTE. O Novo Renascimento é uma ode à VERDADE, ao NATURAL, ao LIMPO, à UNIÃO, à AUTO-SUFICIÊNCIA, ao VALOR, à SABEDORIA, e toda forma de cultura de VIDA.

Anos depois de Man In The Mirror e Heal The World figurarem nas paradas de sucesso do mundo inteiro, as mensagens do Rei do Pop, Mr. Michael Jackson, parecem, por fim, ter sido ouvidas e compreendidas…

Querido Planeta Terra,

Nós cuidaremos de você.

Estamos renascendo

De novo.

Dessa vez, quem sabe, finalmente

Do jeito certo.

“Just know you’re not alone
‘Cause I’m going to make this place your home”

(Home- Phillip Phillips)

 

Sobre projetos para EcoVillas clique em ReGen Villages.

Sobre o mobiliário correto para sua casa clique no Conselho de Manejo Florestal.

Sobre selos ecológicos implementados pela Noruega e pela Suécia em 1989 clique em Rótulo Ecológico Nórdico.

Sobre selo ecológico (ecolabel) da União Européia clique em Eur-Lex.

(*) NEO-RURALISMO

Expressa a idéia de uma série de valores típicos do velho mundo rural, que se pensavam em vias de extinção, que passam por um certo revigoramento e começam a ganhar para si a adesão das pessoas da cidade. Os “neo-rurais” querem reviver os valores próprios do meio rural, transformando-os em força crítica das formas em que a sociedade inteira se desenvolve (…) O neo-ruralismo pode ser analisado como uma forma de protesto, ainda que canalizado e recuperado. Um protesto contra o trabalho parcelado, o gigantismo urbano, a degradação das relações sociais, contra a feiúra e uniformidade do ambiente do ambiente físico das cidades. É contra tudo isso que se justifica a volta ao passado e à natureza e se manifesta a nostalgia de formas de vida perdidas; nostalgia esta que é, ao mesmo tempo, condenação da forma de vida “dominada”. O neo-ruralismo se caracteriza por dimensões afirmativas, como a valorização da natureza e da vida cotidiana, a busca de auto-determinação, do trabalho como prazer, da integralização do tempo e das relações sociais; e por dimensões negativas: a recusa do espaço e do tempo da indústria, a crítica à ditadura dos papéis típicos da cidade, que dirigem os indivíduos a labirintos de frustrantes relações secundárias.

(GUILIANI, G.M. Neo-ruralismo: o novo estilo dos velhos modelos. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.5, n.14, p. 59-67, out. 1990).