Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato I

(Por Clari Machado)

Libretto

Abertura

O som das trombetas anuncia que o fim está próximo. Seria o final dos tempos ou o início de uma nova era?

O som das trombetas era ensurdecedor. E algumas pessoas pareciam real e completamente surdas.

Recitativo

 “Quem tiver ouvidos para ouvir,

Que ouça!”

 

Ato I

Cena I

Um grupo de seres humanos robotizados ou robôs humanóides – até hoje não se sabe ao certo –vivia em aparente harmonia com outras duas classes que naquela terra existiam: os humanos destros e os humanos sinistros. Esse grupo em específico não era nem destro nem sinistro efetivamente. Na verdade, declaravam-se destros, porém agiam como sinistros, por esta razão, chamados Robotilianos em alusão à lenda sobre reptilianos, seres lagartos que repetiam tudo automaticamente.

Vamos salvar a pátria!

Somos empoderados.

Não somos obrigados.

 

O herói que eu quero é o que faz

Não importa como faça desde que faça

O fim justifica os meios.

 

E o mundo é dos espertos

E vamos todos nos dar bem!

 

Cena II

Os Robotilianos acabavam por levar adiante pensamentos, comportamentos e ações profundamente sinistras, sendo a mais fiel antítese das tradições dos destros. Ainda que muitos jurassem de pés juntos serem partidários do tradicional Destrismo, havia uma inacreditável discrepância entre os discursos proferidos e as atitudes em efetivo.

 Dizemos – “somos isso

Mas, fazemos aquilo”.

 

Somos destros

Mas, repetimos frases sinistras

Frases sinistras são mais divertidas.

 

Somos destros

Sinistros são os outros

Porque o inferno são os outros…

 

Cena III

Os Robotilianos não acreditavam em lavagem cerebral, hipnose ou qualquer outro tipo de programação neuro-lingüistica. Desconheciam o que significava idiolinguistica, meta-linguagem, metafísica e as teorias da física, mecânica e computação quânticas, e da cosmogonia e cosmologia. Também não acreditavam em terrorismo, conspiração nem em espionagem. Na verdade, achavam muita graça e afirmavam que tudo não passava de pura ficção, obras dignas de uma ópera buffa.

Não vai acontecer nada.

Não está acontecendo nada.

Está tudo normal.

 

Por acaso,

Coincidência

Deus quis assim…

 

Ah, o sinistro. Aquele grave incidente que destrói mentes. Uma verdadeira esclerose intelectual. Uma esquizofrenia moral. Um transtorno ético.

A quem possa interessar

Declaramo-nos destros

Pois não queremos parecer sinistros.

 

Somos destros para mostrar

Que somos melhores que nossos rivais

E nós venceremos porque somos superiores!

 

Vamos usar as mesmas armas

Revolução! Rebelião! Insurreição!

Esperem… Não. Não concordamos com revoltas.

Mas não conseguimos parar de incitá-las…

 

O que fazer então?

Nós precisamos fazer alguma coisa

Vamos mudar tudo!

Transformação já!

 

É uma pena… Não temos tempo.

Estamos muito ocupados… Não vai dar.

Fica para uma próxima.

 

Repetindo,

Repetindo,

Repetindo.

 

 

Continua…

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