Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato II

(Por Clari Machado)

Libretto

 

(No capítulo anterior: Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato I)

 

Gongos tocam sem cessar.

Recitativo

A verdade não é absoluta

A verdade é igual escova de dente

Cada um tem a sua.

 

Faz sentido para mim

Simples assim.

 

A mentira nada mais é do que

Uma verdade que não aconteceu.

 

Repete!

Repete!

Repete!

 

Cena I

Os seres robóticos eram pessoas instruídas com mentes destruídas, desprovidos de opinião própria. Tal qual um reptiliano apenas repetiam o que lhes era “empurrado goela abaixo” pela imprensa marrom. Deixavam-se levar facilmente por conceitos bonitos, termos engraçados e frases feitas premeditadas pelo denominado “politicamente correto”.

Com tamanha inversão de valores a que eram submetidos pela banda podre do país os robóticos tinham uma visão distorcida da realidade: julgavam-se a si mesmos como cidadãos acima do bem e do mal, ficando encima do muro e jamais se posicionando realmente. Era aquela turma do “não faz mal”, “não tem nada demais”, “é assim mesmo”, “tá na moda”, “é normal”.

Viciados em ostentação e mergulhados na cultura do “parecer” e não do “ser” os robotizados estavam mais preocupados em ser populares, web celebrities e ter muitos seguidores e muitos likes nas redes sociais. Orgulhavam-se em não ser tachados de bizarros, toscos ou nerds. Eles queriam ser “a pessoa mais legal do pedaço” tanto é que acalentam na alma o eterno sonho de ser “o famosinho” nem que fosse na família, na vizinhança ou até na igreja. Mas se fosse no jornal ou na TV melhor ainda.

O que eles mais queriam era ficar milionários… E já que o dinheiro gasto na “fézinha” não vinha dando certo, quem sabe # redesdetvmecontratem! “causasse” algum efeito, em algum momento.

 

Somos o que somos

E não desistimos nunca.

 

É o nosso jeitinho,

Malandragem.

 

Se os outros fazem

Porque eu não posso fazer?

 

Quando eu ganhar na loteria

Tudo vai mudar.

 

Um dia vou ser assim

Quem sabe um dia…

 

Quem nunca?!

 

Cena II

Amém

Amém

Amém.

 

Aleluia também.

 

Muitos robóticos eram religiosos e freqüentavam templos, no entanto, não exercitavam a fé nem a espiritualidade por justamente não terem capacidade de interpretação, de filtragem, de captação de sinais e mensagens subliminares; além do mais não tinham uma noção profunda da História Mundial muito menos da História da espiritualidade e das religiões em um panorama político-literário-filosófico que abrange além de sociologia e antropologia, a antropogênese também. Aliás, desta última, os robotizados jamais ouviram falar até mesmo porque não são pesquisadores de conhecimento – só de fofocas.

Os robossauros eram os mestres da preguiça, do comodismo, da procrastinação, do dar um jeitinho e do “quebra esse galho pra mim”, preferindo que outros fizessem por eles em claro e puro assistencialismo e total síndrome do mendigo.

Não gostavam de estudar e evitavam intelectualidades, autodidatismo e não se interessavam em ler nada além do que já haviam estudado ou além de qualquer coisa diferente do que aprenderam em seus anos de escolaridade; talvez por isso, eles preferiam idéias prontas e respostas automáticas. Self-service ideas. Fast junk thoughts.

 

Muito longe.

Tem que andar muito!

 

Muito difícil.

Complicado…

 

Tem que ler isso tudo?

Tem que ouvir tudo isso?

 

O vídeo tem mais de uma hora?

To fora!

 

Para que estudar

Se vamos todos morrer?

 

A vida é tão curta

Para que trabalhar?

 

Não vou para o serviço hoje

Vou dizer que estou doente.

 

Cena III

O pessoal do “não sou obrigado”, “não to nem aí”, “estou procurando onde foi que eu pedi sua opinião” e “os incomodados que se mudem” negava ser propagador do ódio por ser a favor da liberdade total para todos – cada um faça o que bem quiser e que ninguém se meta – esquecendo-se os limites do respeito e dos princípios e valores da Família. E até, porque não dizer de Deus.

Manipuláveis e volúveis, os Robotilianos regiam-se por modismos, populismos e interesses próprios. Criam que a ética e a verdade são flutuantes e variáveis e é como a roupa de baixo: cada um tem a sua e não se empresta/presta a outros.

Apesar de tudo, os robôs humanóides não se enxergavam como massa de manobra.

 

Estudar é chato.

Ler me dá sono.

 

Odeio segunda-feira.

Detesto acordar cedo.

 

Quando será o próximo feriado?

Alguém tem que trabalhar, fazer o quê?

 

Ficar em casa é baixo-astral

Onde tem uma boca-livre nesse fim de semana?

 

O lado negro da vida. Sinistrismo. Aquele complexo de infantilidade aguda. Aquela síndrome de imaturidade crônica. Ou quiçá uma aglutinação da Síndrome do Vira-Lata com a Síndrome de Gabriela.

Será que isso contamina?

 

Está tudo contaminado: o solo, a água, a comida.

As pessoas…

 

Tem vacina?

 

A vacina acabou?

Arruma uma para mim

Eu pago quanto for!

 

Eu quero os meus direitos!

O governo está nos roubando!

Só tem ladrão nesse país!

 

Repetindo,

Repetindo,

Repetindo.

 

Continua…

 

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