Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato III

(Por Clari Machado)

 

(Nos capítulos anteriores: Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato I e Ópera-Crônica: Os Robotilianos – Ato II )

Libretto

O som do berrante desperta a todos.

Às vezes.

Recitativo

Mea culpa,

In dúbio pro reo!

Sou inocente.

 

Cena I

Um antigo ditado latino afirma “os pares congregam-se com os pares”. Em um mundo natural isso é totalmente compreensivo. Não é uma separação, é uma união de espíritos. É metafísica pura.

 

Multidão: os bons andam com os bons enquanto os maus preferem os maus.

 

Coro Destro: diga-me com quem tu andas que te direi quem és!

 

Ocorre que, há quem não seja o que parece ser, pois tudo o que deixa transparecer é premeditado. É uma simulação perfeita com a finalidade de alcançar objetivos e metas particulares. Geralmente de cunho bastante interesseiro. Seja querer parecer o bonzinho da história; seja querer tirar vantagem da situação. Essa sociopatia costuma acometecer justamente os nossos amigos Robotilianos.

 

Coro Destro: amigos da onça!

 

Coro Sinistro: best friends forever!

 

Multidão: observe a face dos que muito se curvam.

 

Coro Destro: 

Comportamento pontual

Beira ao maníaco

Para não ficar louco

Cria tiques.

 

Estabelece uma rotina

Não é possível sair da linha

Descarrilar não é uma opção

É um perigo.

 

O mais indicado a ser feito nestes casos

É estelionar-se

Aplicar golpes em sim mesmo

E em seus próprios sentimentos.

 

Que espécie de homem é este

Que conta os dias e as horas

Espera o tempo passar

Esperando que alguma morte lhe sobrevenha.

 

Um homem ou um rato?

Melhor que fosse um rato!

Porque ao menos o rato roeu a roupa do Rei de Roma…

 

Um homem ou um rato?

Um rato!

Um ratoneiro!

Porque furta de si mesmo

Exterminando de sua alma

A razão de sua vida.

 

E nem que morresse de fome

Aceitava um pedaço de queijo

Ninguém pode saber que ele come queijo

Porque para todos os efeitos ele só come pão.

 

E fica a fenda na parede

Onde ele abriga seus queijos

E torce com sinceridade

Para que nada nunca seja encontrado.

 

Robotilianos sentiam-se isentos de culpa e, geralmente, se achavam e agiam como pessoas maravilhosas. Eram muito compreensivos, e atuavam como verdadeiros psicólogos vomitando todas as linhas dos scripts de telenovelas de péssimo gosto e músicas de baixo-calão. Eles são “os tais”.

A propósito, eles enfatizam que querem um país melhor, têm todo um discurso emocionante e choram na sua frente; contudo não se enxergam como parte da mudança. Inertes, nada fazem em prol de enriquecimentos acadêmicos, aperfeiçoamentos ou aprendizagem. Além do mais, todas as suas falhas, as desonestidades, as mentiras e os erros são plenamente justificáveis. Há sempre um motivo “nobre” para o malfeito. “Foi por um bem maior”… É o fim justificando os seus meios…. Como se no mal houvesse alguma nobreza ou grandeza…

 

Robotilianos: somos todos você!

 

Cena II

Nada disso significa que eles, os Robotilianos, sejam desprovidos de inteligência, ainda que quase sempre profiram desinteligências verbais, mas medianamente inteligentes são, apenas não são sábios nem visionários. Sequer crêem que sejam escravos em seus empregos ou prisioneiros em seu domicílio ou país, afinal eles tem um salário trabalhando ou não, e eles saem à hora que desejam mesmo em meio a uma guerra civil. O dinheiro está entrando na conta e eles são livres: isso é tudo o que importa. E quando eles não se sentem favorecidos fazem protestos e greves exigindo mudanças ao Governo, aquele desgraçado, que muito lhes deve, que muito tem de lhes dar!

 

Robotilianos: ninguém nos passa para trás.

 

Coro Destro:

Malgrado o tempo perdido

O indivíduo é incapaz de mover-se

Inerte, desaprende e deslembra,

Assombra.

 

É o ócio

Oficina de improfícuos

Passatempo de escroques.

 

Não obstante a letargia inescrutável

O sujeito se nega a cooperar

Omissivo, deseduca-se e acovarda-se

Adoece.

 

É o ócio

Pai do nada

Irmão do vazio

Primo da indolência.

 

E lhe enchem o espírito

Pensamentos obsessivos

E ações compulsivas

Porque o problema não está

Na matéria nem no corpo

Está na mente.

 

Pérfidos por opção

Vitimizam-se

Acoitadam-se

Imaturam-se.

 

E cometem delitos estarrecedores

Perjúrio

Falso testemunho

Embustes.

 

Mas se perguntam…

Oh, eis que são muito achacados

Não têm condição de nada

Nada que venha a lhes ocupar…

 

Mas se contestam

Oh, eis que são imbecis

Sofrem de todo tipo de miséria

Surto psicótico

E esquizofrenia cretina.

 

Se pudéssemos conhecer a verdade

Quanta camuflagem

Quantas máscaras ao chão!

 

Fomos todos enganados.

 

Multidão: o hábito faz o monge.

 

Cena III

Mrs. Lemon era mesmo uma mulher sem coração. Desalmada. Fria e calculista.

 

Custava ser simpática? Custava ser sociável? Custava não fazer desfeita? Custava ser agradável? Custava não ser grosseira? Custava ser igual a todo mundo? – Cochichavam os Robotilianos entre si.

 

Coro Sinistro: ela merecia uma letra A costurada na roupa! A de amarga, de azeda, de ácida, de anti-social, de antipática!

 

Que tipo de mulher é ela, afinal?

 

Vento (sopra): índigo…

 

Mrs. Lemon: quando dizer a verdade ofende? A verdade ofende? A verdade é uma crítica? Uma crítica construtiva,caberia?

 

Coro Sinistro: quieta, Mrs. Lemon! Ninguém pediu a sua opinião.

 

Multidão:

Patinho Feio!

Ovelha Negra!

 

Coro Destro: Mrs Lemon é uma mulher da nova era. Uma visionária. Daqui uns 100 anos, talvez a entendam, por hora, será vista como…

 

Multidão:

Esquisita.

Louca.

 

Coro Sinistro: ela é insuportável. Tomara que morra!

 

Multidão: persona non grata.

 

Robotilianos: É uma pena alguém tão inteligente e tão estudada como a Mrs. Lemon defenda coisas démodés. Quem gosta de passado é museu. O que passou, passou. Vida que segue! Ela é muito fora de moda. Sem brilho, sem glamour, sem purpurina. Ela gosta de retrô. Mas que absurdo! É muita cafonice…

 

Coro Sinistro: tradições, conservadorismo, família convencional. Que atraso de vida! Quem anda para trás é caranguejo.

 

Coro Destro: caranguejos andam para trás? Ou eles podem se deslocar para trás?

 

Coro Sinistro: os donos da razão, os donos da verdade…

 

Robotilianos: mais amor, por favor!!

 

Repetindo,

Repetindo,

Repetindo.

 

Continua…

Comments are closed.