Nós, os escritores

(Clari Machado)

 

Nosso ofício tantas vezes não reconhecido

E nós, aqueles seres tantas vezes preteridos,

Os esquisitos,

Os esquecidos.

 

O que você faz? (Perguntam) – Eu escrevo. (Respondo).

Risos ecoam ao mesmo tempo em que a ironia ressoa:

– Isso qualquer alfabetizado faz!

 

É, passamos a vida estudando,

Dias inteiros lendo, noites inteiras escrevendo

E ainda assim, nada fazemos.

 

Não somos respeitados,

Não somos prestigiados,

E só se formos bem famosos

É que compram nossos livros…

 

Quando abrimos nossas bocas

Que palavras loucas!

E quando nos posicionamos

Que pessoas toscas!

 

Peculiares,

Alucinados,

Excêntricos,

É isso o que vocês escritores são! (Disseram-me).

 

E eu?

Com toda minha licença poética

E com a atipicidade que me é peculiar

(ou irritante) brado:

 

Nós, os escritores,

Somos mais do que se pode ser,

Vamos mais longe do que se pode ir,

Estamos mais à frente de onde se pode estar.

 

Índigos ou visionários

Estamos por todas as partes

Para mostrar ao mundo

Tudo o que ele não quer ou não pode ver.

 

Porque apenas nós, os escritores,

Temos o dom e o poder

De ser todas as pessoas e não ser

Nenhuma delas…

 

Então, a nós, escritores, tudo!

 

Afinal de contas o tudo vive

Dentro de nós…

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