O transtorno do Espectro Autista (TEA) abrange uma grande quantidade de transtornos, um conjunto bastante amplo e complexo, por vezes de difícil diagnóstico. É, de forma geral, caracterizado pela interação social limitada, comportamentos repetitivos e interesses restritos ou fixações.

O transtorno mais conhecido é a Síndrome de Asperger, ainda que muitas pessoas não a associem ao autismo, uma vez que o “aspie” (como é chamado carinhosamente o portador desta síndrome) é dotado de uma inteligência muito acima da média e capaz de uma socialização bastante razoável. São simpáticos e gentis, ainda que considerados um tanto peculiares em seus gostos, que geralmente resume-se a uma fixação.

Timidez, superdotação e transtornos de ansiedade ou obsessivo-compulsivos podem ser confundidos com autismo. A indicação da Pediatria e da Puericultura é que a criança tenha um acompanhamento médico mesmo que ainda não tenha completado 1 ano. A partir dos 3 anos de idade já se torna um pouco mais fácil diagnosticar alguns transtornos do espectro. Medicamentos somente são indicados nos casos em que o portador apresentar agressividade.

Todos os profissionais que tratam de TEA têm a mesma opinião: o melhor remédio é o amor. A pessoa amada se sente respeitada, compreendida, apoiada e segura e é isso que faz toda a diferença.

Como mãe, minha visão é de que os pais e todas as pessoas da família, os professores, a sociedade em geral devem parar de apontar o dedo para comportamentos que para eles não são “padrão”. Qualquer diferença que uma criança apresente é motivo de críticas como “meu Deus, essa criança não pára de chorar!”, “Essa criança não dorme, não?” , “Ele não anda?” , “Ele não fala?” , “Ele faz pipi na cama?”, “Ele tem medo de papel?”, “Ele ainda mama?”, “Ele ainda pede colo?”, “Ele não come sozinho?”, “Ele ainda não sabe escrever?” … A pobre mãe é acusada de fazer tudo errado, de não ser boa mãe e tem de ouvir frases como “não sei porque seu filho veio assim!” ou “seu filho é estranho” ou “porque seu filho não fala com as pessoas?”. A mãe, que tanto precisa de um ombro amigo, de alguém que lhe diga “entendo o que você está passando, conte comigo!”, é crucificada diariamente até o ponto de ser tomada por crises de choro, ataques de ansiedade e nervosismo, e explosões de raiva e culpa, o que piora consideravelmente a situação do pequenino que depende dela para tudo.

Noto que a maior parte das pessoas são muito boas em apontar defeitos e problemas, sobretudo nos filhos dos outros; ao invés de propor soluções ou se disponibilizar a tentar ajudar e entender a criança. Há quem exija um comportamento “normal” por parte da criança e diga “ah, comigo ele vai ver só!” e em tons, muitas vezes, agressivos dizem “essa criança vai fazer o que eu mandar ou vai se arrepender”. E há aqueles que pioram tudo em efetivo. Quando a mãe tem um diagnóstico em mãos e escuta “deve ter sido um engano”, “não, seu filho não tem isso não” ou o lamentável “vou rezar para que você não tenha um filho assim”. É… Aqueles que deveriam contribuir para acalmar a mãe e para a formação sadia de uma criança, estão contribuindo para destruir mãe e filho. Onde foi parar a sabedoria anciã, milenar, matriarcal? Onde foi parar o discernimento, a temperança e a sensibilidade para se ter em mente que um bebê, uma criança necessita de amor e compreensão, e o fato dele(a) ser “diferente” talvez signifique que ele(a) tenha algo “especial” e, por isso mesmo, precise de um tratamento mais afetuoso e abnegado. (Deixo aqui meu registro de que todos somos diferentes, não há dois seres humanos iguais nem mesmo os gêmeos univitelinos ou siameses… Cada um de nós é especial à sua maneira e todos nós precisamos de amor e respeito).

Como professora, percebo que na área de Educação isso pode ser um problemão. Não vejo como a INCLUSÃO ajuda. A meu ver, atrapalha mais do que ajuda. É fato que algumas crianças vão precisar de mais atenção que outras. Em alguns casos uma atenção mais personalizada, mais próxima, um cuidado mais especial. Não sei dizer qual seria a solução. Se os professores deveriam ter curso em Puericultura ou se as escolas deveriam ter técnicos e terapeutas especializados em áreas da Neuropediatria e da Psicopediatria. Em tempos em que a maior parte das escolas no Brasil não possui mais sequer uma salinha de primeiros socorros, imagino que ter profissionais preparados neste nível seria um tanto utópico. Outra solução poderia ser a educação domiciliar (Homeschooling), porém no Brasil a situação ainda está por indefinida. Claro que neste último caso, o trabalho necessita ser realizado como em outros países em que há programas de socialização e cooperativas de Homeschooling para que a criança não se sinta excluída por estudar em domicílio.

Por outro lado, entendo que os professores no Brasil passam por décadas muito difíceis e ingratas. Ter 30 ou 50 alunos em sala, não ter professores assistentes para auxiliá-lo, receber um salário miserável e levar trabalho para casa (provas de mais de cem alunos, de acordo com quantas turmas tenha) é cruel. E assim, sofrem todos: a mãe, a criança e o próprio professor, sempre nervoso, sem paciência e esgotado.

Então, refletindo sobre todos estes pontos, verifico que a solução está na Educação de qualidade. Se o sistema educacional oferecer programas apropriados, as escolas forem bem equipadas e os professores bem treinados e remunerados, ao menos neste setor (educação) a criança com TEA (e/ou outros transtornos e síndromes) estaria bem, e isso com certeza se refletiria em seu bem-estar.

Daqui uns meses, na primeira semana do mês de abril teremos a chamada Semana de Conscientização do Autismo (World Autism Awareness Week) que é marcada por vários seminários, palestras e eventos em diversas partes do mundo e, especialmente, nas escolas, onde normalmente ocorrem cursos voltados para os profissionais de educação e saúde como também para as famílias, que, muitas vezes, necessitam de orientação e de um centro de apoio e tratamento. Esperemos que esse ano possa ser diferente e algo possa ser realizado em efetivo. E que nós, mães e professoras, sejamos a voz daqueles que não têm voz e nem vez. Quem tem uma enfermidade invisível (aos olhos da sociedade) acaba por não ter voz nem vez. E, justamente, por isso são as crianças que mais sofrem porque são julgados “normais” e, ao mesmo tempo, são habitualmente repreendidos e reprovados pelo que fazem ou deixam de fazer, muitas vezes, vítimas de bullying e maus-tratos.

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo (World Autism Awareness Day) é uma data criada pela ONU e é celebrado anualmente desde 2007 no mundo inteiro no dia 02 de abril. Todos os anos, cidades ao redor do mundo iluminam seus edifícios proeminentes com azul nesta noite especial. A cor azul simboliza o transtorno e em muitos lugares são estendidos nas janelas panos azuis, e em várias cidades luzes azuis iluminam monumentos.

Que em 2019 possamos pensar sobre nossas crianças com TEA e sermos instrumentos para promover conscientização e mudanças para além de estender tecidos azuis.

*Créditos da imagem:

Secretaria da Saúde do Paraná

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