Em meus estudos sobre o Reino da Noruega, vejo o cuidado que o país tem com a preservação de sua História e com o povo indígena (Sámi) e acredito que essa conduta seja um ótimo exemplo a ser seguido. Como parte da grade educacional está o estudo do Nynorsk e a garantia do ensino da língua Sámi (lapão, línguas lapônicas) nas escolas, ambas as iniciativas com fins de conservar a cultura.

No Brasil, penso que a situação pode ser considerada diferente, uma vez que temos muitas influências e usamos palavras de vários idiomas, alguns na forma de barbarismo (estrangeirismo) outros como adaptação (aportuguesamento). Falo sobre isso em meu livro Doutora Exótica volume 2, inclusive, em um passeio pela língua portuguesa e abordando as línguas franca, crioula e pidgin.

Neste livro infantil falo, dentre outras coisas, sobre a influência de outras línguas na língua portuguesa.
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No entanto, o fato é que quando os europeus (e, mais precisamente, os portugueses) desembarcaram no Brasil, o território já possuía suas línguas (ou dialetos), que reunidas foram denominadas “Tupi-Guarani”, pelo fato de que mantinham muitas semelhanças entre si.

Logo, eu considero que a língua-base (ou línguas ou dialetos, como preferir) do Brasil é o Tupi-Guarani. Tanto é que boa parte de nosso vocabulário é composto por palavras indígenas. Não se nota devido ao costume, ao hábito; porém basta uma viagem até Portugal, que se observa que alguns termos não são usados nem compreendidos. Ademais, algumas palavras sequer têm tradução e são usadas exatamente como são em “língua portuguesa do Brasil”, a maior parte delas ligada à flora e à fauna como guaraná, arara, jaguar, jabuti, caatinga, capim, cipó, jacaré, tucano, urubu, açaí e mandioca. Mas, há outras, muitas outras, como carioca, caipira, pipoca, paçoca, maloca, pamonha, butantã e tiririca.

São inúmeras as palavras indígenas (ou derivadas de palavras indígenas) utilizadas no nosso português cotidiano, incluindo muitos nomes de lugares tais como Morumbi, Copacabana, Iguatemi, Ipanema, Pindamonhangaba, Ubatuba, Itaquaquecetuba, Curitiba, Pará e Maracanã, por exemplo. Para mim, esse já seria um motivo muito bom para que as crianças aprendessem o que significa, e francamente eu creio que ajudaria muito no estudo da língua portuguesa, pois elas teriam uma compreensão muito mais ampla, sendo capazes de formar conexões e associações de memória.

Dom Pedro II, o magnânimo, foi um grande estudioso da língua indígena. Ele viajava pelo Brasil e conversava com os índios, e aproveitava essas conversas para tomar nota em sua cadernetinha de palavras e termos (as anotações de Dom Pedro II sobre a língua Puri são muito conhecidas). Como o exímio tradutor que era (dentre outras coisas, pois o Imperador do Brasil Dom Pedro II era um verdadeiro gênio) ele fazia questão de aprender as línguas dos índios, reconhecendo a importância disso para o país e para os povos indígenas.

Pessoalmente, eu gostaria muito que as crianças indígenas tivessem esse direito garantido nas escolas. Direito de chegar a uma escola e ter classes de Tupi-Guarani. E, como mãe, gostaria que todas as outras crianças descendentes de índios, e todas as que desejassem pudessem ter aulas de Tupi-Guarani. Eu gostaria que meus filhos tivessem essa oportunidade.

Como descendente dos Índios Coroados, trisneta da índia Maruca, eu gostaria muito de ter tido essa chance de freqüentar classes em que eu aprendesse a língua e cultura da minha ancestral, cujo nome, aliás, significa mariposa. Eu não estaria apenas aprendendo língua indígena, a língua falada no Brasil antes dos europeus chegarem, mas também eu estaria indiretamente estudando a língua portuguesa do Brasil, um ganho cultural primoroso e singular.

Como professora, percebo, com pesar, que no Brasil a mentalidade é de que as crianças e os jovens não conseguiriam aprender, de que muitas disciplinas os deixariam traumatizados, que ficariam confusos, e que seria exigir demais, o que penso ser um equívoco tenebroso. E muito cruel. Essa mentalidade já parte do princípio de que nossos infantes não são capazes, não são tão inteligentes e os “acoitada” e “vitimiza”, aquele clássico “pobrezinhos, eles não vão conseguir, que maldade!”. Maldade? Maldade é não permitir que mentes brilhantes se desenvolvam e pior, podar toda uma geração, ensinando-lhes que não conseguirão, baixando a auto-estima e a auto-confiança, e tornando-os viciados em auto-ajuda e motivacionais porque não foram estimulados nem educados a pensar que eles podem sim, basta querer e, claro, estudar, pesquisar, investigar, explorar!

Eu sou, de fato, uma grande entusiasta do estudo da língua Tupi-Guarani. Acho que a ação mais brasileira em termos de língua que poderia existir no Brasil seria isso. A beleza e o significado disso para todos os brasileiros (ou como eu prefiro me referir, por motivos lingüísticos: brasilianos) seria algo sem precedentes. Evidentemente, sou suspeitosíssima, sou descendente de Maruca, da brava (isso nos dois sentidos) tribo dos Coroados; todavia em minha humilde opinião, o singelo incentivo ao ensino da língua Tupi-Guarani é um fomento ao patriotismo, ao nacionalismo. Dom Pedro II, nosso inspirador monarca, tinha isso muito em mente, tanto é que justamente foi um apoiador pessoal de Carlos Gomes (compositor da Ópera O Guarani), a quem, a propósito, agraciou com a Imperial Ordem da Rosa.

Como pesquisadora da área de Ciências da Linguagem, Tradução e Letras (Liberal Arts) afirmo que uma nação sem identidade lingüística é uma nação fraca, e uma nação fraca não é patriota, e, por isso mesmo, fácil de manipular e se entregar ao jugo de outra nação mais poderosa (mais poderosa por ter identidade e força lingüística). A força de um povo está na sua língua pátria. Língua é raiz, é origem, é herança, e, portanto, identidade. (Aliás, deixo meu registro de que justamente por isso não reconheço, logo não sigo o AO/90). (E veja, eu não estou sozinha nisso: leia sobre isso clicando aqui).

Logicamente, existem escolas que têm esse trabalho de promoção e incentivo ao estudo da língua Tupi-Guarani; porém não são todas. Muitos acadêmicos estudam, investigam e trazem à tona a importância do estudo e aplicação nas escolas. Em uma matéria chamada “A Língua do Brasil” a revista Super Interessante abordou a questão apontando para os intelectuais à frente de estudos nessa área como o Professor e Pesquisador Eduardo Navarro da USP e a própria USP. (Clique aqui para ler).

O Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Maranhão também já contemplou o tema. Entretanto, o programa acastelava um tópico em específico, qual seja, “o papel da escola no resgate cultural do tupi guarani da terra indígena Piaçagüera-SP”, uma dissertação da área de Ciências Sociais (Leia sobre isso em UFMA clique aqui).

Com relação às escolas, ainda são poucas iniciativas, e normalmente, tratam-se de escolas indígenas ou de aldeias. Uma delas foi tema de matéria na Rede Record de São Paulo. Assista ao vídeo clicando no título:

Escola de Avaí (Bauru) lança livros em tupi-guarani para preservar a língua indígena. 

Por fim, é possível verificar que são bastante isoladas as manifestações de promoção do ensino da língua Tupi-Guarani, e a maior parte, tem abrigo em aldeias ou lugares próximos, como a proposta do governo de São Paulo em 2012 para escolas novas e cartilhas (Leia texto clicando aqui).

Em Colligere Educacional, no índice analítico, há a previsão para o ensino da língua Tupi-Guarani para os alunos, porque assim como no currículo norueguês, os povos indígenas encontram-se devidamente acolhidos pela grade educacional.

Eu, particularmente, acredito que o ensino da língua Tupi-Guarani é muito fundamental. Assim como Latim e Grego. Por certo, aliás, o ensino dessa “tríade” Tupi-Guarani, Latim e Grego seria de crucial apoio e suporte para a língua portuguesa no Brasil, disciplina na lista das mais “odiadas” por ser considerada “muito difícil”. Todas as disciplinas correlatas à língua portuguesa como Redação (Criação e Produção de Textos), Leituras (Dinâmica e Vertical), Comunicação e Expressão (Linguagem, Fonética e Fonologia, Produção Oral, Conversação, Oratória e Dicção) e Literaturas estariam salvas. No caso específico do Tupi-Guarani no Brasil, serviria como excelente alicerce especialmente para as classes de Ciências e Geografia.

Quanto a estudar Latim e Grego, estas línguas ajudariam na aprendizagem de vários idiomas, o latim, principalmente desde a língua inglesa até à língua norueguesa. Porém, isso já é tema para um outro artigo…

* Quando menciono “língua Tupi-Guarani” refiro-me à reunião das línguas e dialetos indígenas, que se convencionou classificar como língua Tupi-Guarani, especialmente para fins didático-pedagógicos. Que fique registrado que “língua Tupi-Guarani” é uma compilação de falares de diversos povos indígenas.

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Créditos das Imagens:

Beatrix.Pro

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