Começo hoje uma série da coluna Leituras Verticais que propõe a abordagem do texto a partir da palavra. É claro que a estrutura do texto e as disposições de quem escreve ou discursa também são fundamentais para o entendimento, mas a partícula, a palavra, é sempre o fundamento da expressão verbal.

São muitos os que combatem a leitura a partir da palavra. Os estruturalistas ligados às ideias de Chomsky, por exemplo, preferem uma leitura menos histórica e cultural e mais estrutural, ligada à percepção cognitiva, por mais amplo, subjetivo e obscuro que possa ser esse conceito. Deram sua contribuição para que se elaborassem milhões de dissertações e teses acadêmicas sem nenhuma relevância em seus campos em todo o mundo, pois está na gênese estruturalista partir do pressuposto que qualquer tema pode ser objeto de estudo, basta gerar uma inquietação no sujeito, que este vai pesquisar anos para ver seu trabalho pegando pó em prateleira de biblioteca, porque os pesquisadores passaram a ver a estrutura subjacente em tudo, do copo d’água ao ciclo menstrual das borboletas. Há, entretanto, trabalhos magníficos nas correntes de Semiótica e Semiologia, que têm suas bases na fenomenologia e no estruturalismo, tanto nas Ciência Humanas como em Exatas e Biológicas. Vamos, então, ao essencial.

“Poder” tem sua etimologia no idioma Grego Pótis, que designava o marido, o chefe da família, portanto, um substantivo. Em Latim, o adjetivo potis significa “poderoso, capaz de”, que deu origem a potere, no Latim Vulgar, de onde vem o termo em Português.  Ao longo da História, a palavra “poder” criou derivações em diversos campos do conhecimento: possível, impossível, onipotente, potencialidade, poderoso e, mais recentemente, empoderamento, um anglicismo frufru e desengonçado de empowerment, já que temos em Português substantivo mais simples e conciso: Poder. Mas serve às manipulações feminazis e cria alguma polêmica, principalmente quando acompanhada de seu adjetivo “feminino”, que de feminino não tem nada.

Aliás, é muito interessante como na Língua Inglesa há várias palavras para designar o que se refere a Poder. O Substantivo é The Power, que significa O Poder, a própria raiz da autoridade, da chefia, da liderança. O Verbo se distribui em duas palavras distintas: May (May I help you? – Posso ajudá-lo?) usado para compor uma expressão mais educada e polida; e Can, usado politicamente pelo ex-presidente Barack Obama como slogan de campanha: Yes, we can (Sim, nóspodemos).

O verbo Can é geralmente usado para expressar desde a simples possibilidade de se fazer algo (“Eu posso buscar água na fonte para você”, por exemplo) até a condição física e psicológica para realizar um ato (“Eu posso ler sem óculos”). Portanto, o curinga Can foi escolhido pelos marqueteiros de Obama para costurar um slogan que começa com a afirmação Yes (quase uma afirmação de identidade, que é uma das formas de autoproclamação, mas usada como forma de desarmar as resistências de um povo pacífico e religioso), o pronome de primeira pessoa do plural We (deslocando-se do eu para o coletivo nós e inserindo-se como parte do povo, e essa possibilidade é a mais risível de todas) e finaliza com o nosso famigerado e manipulado Can (deslocando o sentido original de poder como verbo para o sentido substantivo de poder). Uma tradução fiel e parafrásica dessa oração (paráfrase é dizer o mesmo, mas com outras palavras parecidas) poderia ser, só para facilitar a leitura: Nós temos o poder, sim!

Yes, we can  foi uma das chamadas mais falaciosas da História recente. Esse slogan de campanha, em primeiro lugar, apresenta um conceito tão aberto que admite a possibilidade de se fazer o que se quer, independentemente de regras e de respeito. Nós podemos…podemos fazer o que quisermos, somos independentes, fortes, lindos, os donos da bola e não há limites para o que podemos fazer, sem consequências. Seria infantil e até ingênuo se não partisse de um político como Obama, educado sob a égide globalista.

Em segundo lugar, trata-se de falsa atribuição, pois quem pode mesmo é Deus, é dele o poder, então nosso papel deveria ser o de convidados a entender nosso caminho como missão para edificar uma sociedade justa, próspera e com respeito às individualidades, um ideal que está na gênese dos Estados Unidos.

Por fim, esse slogan progressista nega o passado de luta pela liberdade e o caráter proativo do povo americano, como se apenas após a eleição de Obama os americanos pudessem decidir seu destino ou mudar seu país, esquecendo-se das iniciativas dos pioneiros, da Constituição, do New Deal que tirou o país da depressão, das inúmeras conquistas dos EUA nos campos da Educação, da Ciência, da Tecnologia, das Artes, dos Esportes e da Economia. Parece que Obama está descobrindo a América!  Uma chamada que menosprezou a inteligência dos americanos e os rebaixou a crianças que só conseguem ver o tempo presente. Menos mal que não há ponto de exclamação no final, senão era um convite para a revolução. Aposto que se os americanos pudessem fazer esta leitura vertical conosco o desfecho daquela eleição teria sido outro. Deu no que deu. Já foi.

Por essas e outras, o conceito de Poder que aprendemos é sempre pejorativo. Filhos de uma sanguinária revolução francesa,  fomos educados sob sua guarda e os termos ambição e ganância entraram no mesmo campo semântico, quase como sinônimos, moldando a ideia que temos de Poder. Os desmandos de políticos corruptos, ditaduras que assassinaram e escravizaram os corpos e as mentes dos povos reforçaram essa concepção negativa de Poder. Por fim, a psiquiatria que a todo custo tentou, com Freud e seus discípulos, nos desanimar para entender e exercer o poder consciente e responsável sobre o nosso próprio corpo vaticinou:

“Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro”. Carl Jung

A máxima acima é o enterro do Poder como fruto benéfico da conciliação e do acordo entre os casais, pois quem ama não pode exercer o poder sobre o outro. A comunicação começa a ficar complicada porque até pequenas críticas sobre coisas cotidianas, tão comuns entre casais, viram cavalo de batalha, luta pela posse do vaso sanitário. Aliás, Posse também deriva de Poder e há a posse legítima e ilegítima, a depender dos meios para que se obtenha.

Não tenho tempo nem espaço neste artigo para mudar o conceito substantivo sedimentado de Poder, mas quem é cristão e leu pelo menos a orelha da Bíblia sabe que um dos atributos de Deus é seu Poder, e em nenhum momento ele abusou dessa virtude – porque todos os atributos de Deus são virtudes a serem imitadas -, mas a usou para cuidar, para amar mais. Portanto, Jung está falando bobagem e quem a repete passa recibo. Vou abordar a palavra Poder como verbo, pois no princípio era o Verbo e só depois vieram os Substantivos e Adjetivos.  Se você tem dúvida ainda sobre as Classes Gramaticais, publiquei há pouco o artigo Português Fácil: Substantivo e Adjetivo. Confira.

Poder, como Verbo, é ação generosa de “poder fazer algo” e sair de si para o outro. Não há nenhum traço de autoritarismo, arrogância, prepotência (que é derivada de poder) ou mesmo de liderança, por mais desejável que seja essa característica no nosso mundo. O Poder em questão estabelece uma relação íntima com o serviço, com a disposição de alma para fazer o bem e ter a paciência necessária para se obter algo que influenciará positivamente a vida do outro, de si mesmo e da sociedade.

Quantos de nós gostariam de ter mais tempo para trabalhos voluntários, mas não podem? Ou mais tempo para a família, a esposa, o marido? Esse tipo de poder vai-se conquistando com a disponibilidade de tempo que um trabalho mais confortável pode nos dar, por exemplo. Ou quantos sonham comprar uma casa própria, livrar-se do aluguel? Em colocar o filho em uma boa Universidade? Tudo isso depende de Poder. Mas não do Poder Público, substantivo e adjetivo carregado de vícios, assistencialismo e corrupção.

O Poder, como Verbo, se conquista bravamente, pelo trabalho, pelo estudo, pela disposição do espírito. Uma breve conjugação nos revela o muito que este Verbo, no presente, tem a contribuir para nos motivar:

Eu posso – Desafio meus limites e minhas atitudes são tanto de perseverança como de disponibilidade para servir o outro.

Tu podes – Estimulo em você, que está ao meu lado, o desenvolvimento de suas potencialidades (outro derivado de “poder”). Com uma breve interrogação (tu podes?), desarmo suas resistências, para assim agir com benevolência e atenção para com todos à sua volta.

Ele/ Ela pode – Reconheço seu mérito e aceito o que podem fazer por mim e pelos outros, delegando responsabilidades e abrindo mão da centralização.

Nós podemos – Afirmo que a união de todos e o trabalho em equipe são a chave para fazer a diferença no mundo.  Juntos, somos fortes e minhas deficiências são supridas pelas virtudes do outro, e vice-versa. É esse poder que nos move aqui na Duna, nos anima para novos e renovados projetos de Educação, Cultura, Tecnologia e Informação. Muito diferente do slogan do Obama…

Vós Podeis – Oro a Deus para que ele me dê o discernimento necessário para aceitar os convites que Ele me faz e a missão que Ele me confiou. Rezo e peço com humildade a proteção divina, a inspiração e o bem de todos. Reconheço sua magnitude entre nós e no alto dos céus, é todo dEle o Poder.

Eles/ Elas podem – As instituições, a escola, a Igreja, o Estado, a Imprensa, a Internet devem exercer seu papel de auxiliar e promover o desenvolvimento pessoal, profissional e espiritual de todos. Eles têm esse Poder substantivo que deve guardar o significado verbal que apresentamos até agora para fazer sentido para a sociedade.

A Escola da vida tem nos ensinado que o Poder, esse ente maligno e opressor, é a causa de todos os males e basta alguém chegar a ele para se corromper (o poder corrompe). Ao contrário, o Poder é o maior teste para a virtude, pois ele revela o coração (o poder revela) e dá a oportunidade de quem ocupa um alto cargo público, ou ganha muito dinheiro, ou tem muita fama, fazer algo para aliviar a dor dos que mais precisam, seja de liberdade, de carinho, de saúde, de generosidade ou de um pouco de atenção.

Gravo em minha alma alguns trechos de diálogos que ouvi em diversas fases de minha vida, vindas de amigos, de familiares, de professores e colegas de trabalho. Sem condições de dar crédito nominal a todos, reproduzo o que está impresso na memória:

– Gostaria de ter poder, não para mim, mas para poder fazer algo pelos outros.

– Se eu pudesse, teria mais tempo para minha família.

– Você pode me emprestar o seu apagador, que eu esqueci o meu?

– O senhor poderia me ver um quilo de carne moída?  – Poderia, não, eu posso (esse foi o meu diálogo com o açougueiro).

– Deus é Amor, mas também é Poder.

– O poder do Amor faz esquecer o ressentimento e a mágoa, faz perdoar.

– A senhora pode emitir uma certidão atualizada, por favor? – Eu não tenho poder para isso, só o juiz. (Essa foi no cartório)

– Posso colocar sua mala aí em cima? (Essa foi no avião)

E por fim, dessa eu tenho certeza, ouvi da minha mãe, para me lembrar de que eu ainda era uma criança:

– Quem pode, manda, obedece quem tem juízo.