Uma intrigante lenda paira sobre a cidade de Caxambu, no Sul de Minas: a Lenda da Princesa da Pérsia. De acordo com comentários de antigos moradores locais a Princesa Soraya esteve em Caxambu e a visita teria sido manchete dos jornais da época. Que jornais? Que época? Ninguém sabe ao certo. Se alguém viu? Ninguém tem certeza. Seja como for a lenda e a história da princesa se espalhou por todo sul de Minas.

Teria a Princesa da Pérsia passado junto ao lago?
Se a Princesa da Pérsia esteve em Caxambu desfrutou desta paisagem.
A poderosa água do gêiser: será que a Princesa banhou-se nelas?

Muitas histórias e nenhuma prova. Mas, afinal, quem foi essa princesa?

Soraya Esfandiary-Bakhtiari cresceu em uma família muito importante do centro-sul da Pérsia, de etnia “Bajtiarí”  (Bakhtiari / Baktiarita), considerada pela mitologia iraniana descendente do rei Fereydun, constante na obra épica de Shahnameh, e descendente direta de Ciro II, o Grande. A etnia “Bajtiarí”  foi responsável pela conquista de Teerã sob as ordens de Sardar Asad (Haft Lang /Alí Qolí Jan Bajtiarí / Sardar Asad Bajtiarí) um revolucionário que desempenhou um papel decisivo na guerra civil de 1906.

Soraya nasceu na cidade persa de Isfahan, filha de Khalil Khan Esfandiary-Bakhtiari, um nobre de uma tribo chamada Bakhtiari  e embaixador iraniano na Alemanha Ocidental e da russo-alemã Eva Karl. Ela ficou mais conhecida como a Rainha consorte de Mohammad Reza Pahlavi, Xá da Pérsia.

Toda a família paterna de Soraya era descende dos “Bajtiarí” e habitava um pequeno reino local em que todos os seus membros estavam ligados à nobreza e ao governo persa, estando sempre muito atentos à política internacional e realizando diversas atuações diplomáticas junto às tribos de seu país e também no exterior. Tanto o avô e os tios paternos quanto o pai de Soraya desempenhavam funções estratégicas de relações públicas e relações externas na região. A família possuía terras e fazendas na Pérsia, e seu pai tinha o cargo de Khan, um título dado aos soberanos mongóis que reinaram na China, na Mongólia e em algumas nações das estepes centrais da Ásia; originalmente utilizado para denominar chefes tribais e freqüentemente traduzido mesmo como “soberano” ou como “aquele que comanda” e que a partir do Século XIII enraizou-se em diversas nações passando a designar os reis da Pérsia e também sultões. Seu pai ainda teve atuação como diplomata e depois como embaixador, já que a família tinha grande expressão nas Relações Exteriores e tanto seu avô quanto seu tio haviam participado ativamente da Revolução Constitucional Persa.

Quando jovem, Soraya, colecionava fotos de um jovem Xá, a quem muito admirava. Ela costumava dizer a seus primos e amigos que no futuro se casaria com um rei. Quando Soraya foi morar com primos na Inglaterra sua história como Princesa da Pérsia começou. Justamente naquela época a mãe do Xá da Pérsia, Taj-ol-Moluk, pediu a sua amiga e confidente Forough Zafar Bakhtiari, que era uma parente próxima de Soraya que lhe ajudasse a encontrar uma noiva adequada para seu filho, e que talvez a grande família Bakhtiari poderia ter alguma moça que se encaixasse no perfil para princesa. Forough Zafar lembrou-se de que uma de suas sobrinhas, Ghamar Ahmadi, acabara de voltar de uma viagem à Europa e fora visitar na Suíça, Khalil Khan Esfandiari e lá conheceu sua filha Soraya de quem ela muito falou afirmando que a moça era extremamente bonita, bem educada e falante de vários idiomas, e mencionou que Soraya estava estudando na Inglaterra. A Rainha pediu para ver algumas fotografias e Forough Zafar entrou em contato com o primo Goodarz, em Londres e pediu-lhe para tirar algumas fotos de Soraya e enviá-las para Teerã o mais rápido possível. Coincidentemente, a Princesa Shams, irmã mais velha do Xá, viajou para Londres para resolver assuntos para seu irmão, e sabendo disso, Forough Zafar pediu à princesa, para se reunir com seu sobrinho Malekhah e Soraya. A reunião aconteceu no hotel, na suíte privada da Princesa, que ficou tão impressionada com a beleza e a personalidade de Soraya que enviou uma mensagem urgente à Rainha, dizendo-lhe que encontrara uma mulher que nasceu para ser Rainha: linda, muito bem educada, fluente em persa, alemão, francês e inglês e de um excelente senso de humor. A mensagem e as fotografias chegaram juntas a Teerã. As fotos foram aprovadas pela Rainha e passadas para o Xá, que pediu para que sua irmã trouxesse Soraya ao Teerã.

A Rainha Taj-ol-Moluk, mãe do Xá, providenciou para que Soraya e sua família viajassem para Teerã e um jantar foi rapidamente organizado para que as duas famílias se encontrassem. No jantar de gala, as famílias se encontraram e o Xá foi apresentado a Soraya. Segundo relatos dos parentes foi amor à primeira vista por parte dos dois. Às 2 da manhã daquela mesma noite, o Xá chamou o pai de Soraya, para pedir a mão dela em casamento. Dias depois, Soraya recebeu de presente um anel de noivado.

Aos 19 anos, Soraya tornou-se Princesa ao casar-se com o Xá da Pérsia – o Shahanshah (“Rei dos Reis”)  no Palácio do Golestan, em Teerã, no dia de São Valentin, com alguns dias de atraso devido a Soraya ter contraído febre tifóide no final de dezembro. As ruas de Teerã foram cobertas de flores para que a Princesa Soraya passasse e a data foi declarada feriado nacional.

O casamento, a lua de mel e os primeiros anos de matrimônio foram um contos de fadas real, que apontava para um final muito feliz. O Xá declarava alegremente que Soraya era seu verdadeiro amor. Soraya, como Imperatriz realizava atividades sociais e chefiava a associação de caridade do Irã. Também administrava as obras dos palácios residenciais. O “Rainha Soraya Pahlavi Charity” foi a principal instituição de caridade de seu patrocínio, que foi formada e gerenciada por Forough Zafar.

O casal estava constantemente junto. Porém, após quase dois anos, a família esperava por um herdeiro que tardava a surgir. A situação na Pérsia voltava a se complicar e todos estavam com os nervos à flor da pele. O Xá passou a se comportar nervosamente com freqüência, o que incomodava Soraya.

Aos 22 anos, Soraya recebeu o diagnóstico médico de que possivelmente em razão de sua febre tifóide ela dificilmente conseguiria conceber rapidamente. Notícias são de que nesta época Soraya teria viajado a várias estâncias hidrominerais, dentre elas, a de Caxambu, no Sul de Minas, após saber do sucesso que teve a Princesa Isabel após beber as águas do local.

No sul de Minas comentários são de que a foto da Princesa Persa estampada no jornal foi algo inesquecível. A beleza de Soraya era impressionante, e teria sido esse o motivo pelo qual o nome do jornal ficou esquecido – todas as atenções teriam se voltado para a fotografia do rosto perfeito de Soraya.

Imagem disponível em Cremerie de Paris

O final da história? Soraya não conseguiu engravidar. Em entrevistas ela mencionou que a pressão e os acessos de fúria do Xá a deixavam nervosa. Divorciou-se após a família decidir que não havendo gravidez, então, conforme a religião local permitia o esposo encontraria mais uma esposa. Soraya por ser cristã negou-se a manter um casamento em tais moldes. De acordo com uma reportagem do The New York Times, extensas negociações haviam precedido o divórcio, a fim de convencer Soraya a aceitar que seu marido tomasse uma segunda esposa, ao que ela apenas afirmava que “não podia aceitar a idéia de compartilhar o amor de seu marido com outra mulher”. 

Aos 25 anos, Soraya, a Princesa da Pérsia, declarou que o divórcio era “um sacrifício da própria felicidade”, e em um comunicado emitido da casa de seus pais, na Alemanha, ao povo persa, Soraya proferiu as seguintes palavras: “Desde que Sua Majestade Imperial Reza Shah Pahlavi considerou necessário que um sucessor para o trono deve ser de descendência direta na linha masculina de geração a geração eu vou, com o meu mais profundo pesar, no interesse do futuro do Estado e do bem-estar do povo, em conformidade com o desejo de Sua Majestade o Imperador, sacrificar minha própria felicidade e declarar meu consentimento com a separação de Sua Majestade Imperial.” O Xá anunciou seu divórcio ao povo em um discurso transmitido pela televisão e pelo rádio, e emitiu um decreto especial concedendo a Soraya o título de Princesa Imperial para toda a vida.

A Princesa Soraya morreu aos 69 anos em seu apartamento em Paris devido a uma hemorragia cerebral. Ao saber de sua morte, seu irmão Bijan, inconsolável, comentou: “depois dela, eu não tenho ninguém para conversar” e morreu subitamente uma semana depois em seu quarto de hotel antes que pudesse participar do funeral da irmã. Eles foram enterrados em Westfriedhof, um cemitério em Munique, Alemanha, junto com seus pais.

A princesa escreveu dois livros que são considerados biográficos, um deles encontrado junto a seu corpo. Nos livros, ela expressou como se sentia em relação a posição da mulher na Pérsia, e apontava para as questões religiosas.

Em 2001 um jornal publicou uma matéria sugerindo que a Princesa Soraya e seu irmão haviam sido assassinados. Contudo, a matéria não foi levada à sério e logo foi esquecida. (*)

Homenagens a Soraya surgiram em várias partes do mundo: um produtor de rosas francesas, criou um girassol em sua honra, denominado de “Imperatriz Soraya”. Uma série da televisão italiana em co-produção com a Alemanha sobre a vida da princesa Soraya (a.k.a. Sad Princess) foi transmitida em 2003. Músicas e poemas também foram dedicados a ela, que entrou para a história como a “Princesa dos Olhos Tristes”.

Em Caxambu se a Princesa da Pérsia passou por lá ou não, pouco importa. Soraya vive no imaginário popular. E há quem até hoje afirme categoricamente: “a Princesa da Pérsia esteve aqui e foi graças a Princesa Isabel que também esteve aqui”!

Diante de tantos relatos é possível considerar que sim, a Princesa da Pérsia visitou Caxambu, nem que tenha sido uma visita puramente imaginária…

Obras da Princesa Soraya:

Le Palais des Solitudes –  Com participação de Louis Valentin.

Princess Soraya: Autobiography of Her Imperial Highness.

Leia mais em: Caxambu Imperial

(*) Avairan

Todas as fotos de Caxambu por Clarissa Xavier Machado

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