Aristóteles tem muito a dialogar com os novos mestres sofistas e senhores da erística

Em um debate, geralmente, não cativa a audiência, e dela se recebe a tão buscada atenção, o mais douto, o mais apaixonado ou o mais admirado.  Aristóteles reconhecia o valor da retórica e percebeu três elementos chave, que sendo bem administrados, resultariam na persuasão do público; são eles: O ethos, O pathos e o Logos. A política demanda conhecimento estratégico, percepção aguçada e inteligência e disso já tratei no artigo: Bolsonaro desconhece a arte da guerra? Porém no debate público me deparo com uma retórica bem construída ao ponto de poder levar o ouvinte a aceitar que 2+2=5 , além de poder persuadir o ouvinte a negar a realidade passível de ser compreendida de modo objetivo e até mesmo de distorcê-la em prol de um conceito subjetivo; seria como eu dirigir minha visão  a uma árvore e ao defini-la como tal , sou interpelado por alguém que usando de vários elementos retóricos me convence que o que vejo não se trata de uma árvore, e sim, de uma pedra. Neste artigo falarei com o ethos e o pathos .

O passado nos ensina não a sobreviver mas , sim, a viver.

O conhecimento histórico nos permite ver o presente com um maior entendimento. Nenhum evento histórico surge sem que antes haja um que o preceda, porém, muitas vezes, certos grupos desejam separar passado e presente como se certo evento atual fosse em si sem paralelos em toda a história humana; estudar e analisar a sociedade e suas demandas através do conservadorismo, por exemplo, é um absurdo, pois somente uma linha de entendimento progressista pode responder a  sociedade líquida ( prefiro este termo de Zygmunt Bauman para descrever a sociedade que faço parte) com todas suas inquietações e inclinações. O que percebo como estudioso e amante de literatura histórica é como o debate público está dominado por algo que foi muito comum durante a república romana e o império romano: o panem et circenses. O orador oferece diversão (o riso e o divertimento) somada a alguma resposta que saciará a busca intelectual do seu público (panem), no fim, contudo, nada há nas mentes do público que permita a este captar a realidade de modo mais metódico ou preciso, tampouco, que permita a estes que não sejam massas de manobras dentro das narrativas políticas vigentes; o publico comeu o pão e se divertiu com todo espetáculo retórico que o levou ao riso e a catarse (do grego κάϑαρσις, kátharsis), levantou do assento, satisfeito, indo a casa , como se algo de produtivo tivesse valido o valor pago e o tempo dedicado.

O Ethos : Não basta ser, aparente ser

O conhecimento é importante, mas não basta ter estudado por semanas, meses e até anos determinado assunto se o publico não consegue compreender o que está sendo transmitido.  O ethos é um meio de convencimento ligado intimamente à imagem social criada pelo orador e que busca encontrar o meio mais adequado de desenvolver a relação orador-público.

Alguns elementos do ethos utilizados por totalitaristas:

Apelo à autoridade: A biografia do orador será utilizada por este para levar o público ao entendimento de que ele possui maior autoridade para versar sobre o assunto que seu adversário, ou no caso de uma palestra e não de um debate, que as informações transmitidas são inquestionáveis como a interpretação utilizada. O apelo á autoridade costuma ser desenvolvido de duas formas principais dentro de uma retórica totalitarista:

Autoridade através do SER: O orador por ser de certo nicho social, etnia ou gênero possui percepção superior a do seu adversário para comunicar certos assuntos. Neste caso, para o totalitarista, somente negros devem ter sua voz ouvida em assuntos como racismo, somente membros da comunidade LGBTI+ podem falar sobre homossexualidade e o modo como ela deve ser trabalhada, e expressada, na sociedade seja no campo jurídico seja no social, somente mulheres podem falar sobre aborto. Os conhecimentos, estudos, dados não valem nada se a pessoa não pertencer à etnia correta, ao gênero apropriado ou a alguma minoria representativa.  Neste caso através desta imagem o debatedor consegue empatia da plateia (veremos mais sobre isso em PATHOS) e também desmerecer qualquer dado contrario oferecido pelo adversário ou por um ouvinte mais atento. Eu sou logo somente eu entendo.  Termos muito comuns em quem apela para autoridade do ser é: lugar de fala, mansplaining, etc.

Autoridade através do TER: Aqui toda a formação intelectual será usada para tornar qualquer argumento e dado em algo absoluto, digo, não passível de ser questionado. Neste caso, por exemplo, se debato com um historiador que nega as particularidades do regime militar ( ditadura, dita branda…) que houve no Brasil e coloca esse período como igual estruturalmente e de mesmo impacto social como o que ainda existe na  ditadura da Coreia do Norte, claramente, todo dado e livro citado que nega a fala do meu adversário será logo tido como fruto de minha ignorância ; não sou historiador , ele sim. Aqui titularidade se confunde com percepção, análise objetiva dos fatos e conhecimento.  

A construção do ethos na retórica totalitarista busca cercear a fala do outro, ridicularizá-la e torná-la insignificante, por não dizer irrelevante, no debate. Uma imagem vale mais que mil palavras, infelizmente.

 O Pathos : A cultura do vitimismo e a cultura do medo

A audiência é persuadida a confiar na linha de raciocínio do orador/debatedor através da empatia. Onde a emoção reina, a lógica é mero figurante. Uma série de imagens será criada no imaginário do público com o intuito de levá-lo a um certo estado emocional que permitirá ao orador tornar cada argumento em algo irrefutável na mente do seu ouvinte. Dados são meros detalhes diante de uma imagem criada tão teatralmente. Posso levar dados a um debate, informação histórica e mostrar com citações de vários estudiosos que o modo como o negro foi tratado dentro da sociedade americana e pelo governo difere abismalmente do que ocorreu no Brasil; posso falar que aqui tivemos em diferentes momentos históricos, negros ou afrodescendentes que ascenderam socialmente como: Xica da Silva( eternizada no imaginário popular pela novela produzida pela extinta Tevê Manchete), André Pinto Rebouças( engenheiro, militante do movimento abolicionista e admirador de Dom Pedro II), José do Patrocínio (farmacêutico, jornalista, escritor, orador e ativista político brasileiro) , Ernesto Carneiro Ribeiro (médico, professor -Rui Barbosa foi um dos vários ilustres alunos-, linguista e educador brasileiro) , Nilo Peçanha( muito tempo antes de Barak Obama, tivemos um presidente afrodescendente )e a lista seguiria , mas basta o outro debatedor levar o espectador a visualizar uma imagem onde um governo tirânico no Brasil oprimia o negro a tal ponto que , mesmo com o fim da escravidão, a ascensão social era um quase impossibilidade , para que qualquer argumento meu seja refutado não por argumentos e dados,  mas pelo emocional.  Quando uma imagem é criada no emocional do público e por este acolhida como se fosse uma realidade objetiva, qualquer dado e contestação levará este público a rejeitar não só os argumentos, mas , também, quem os trouxe a mesa.

Dois pontos a ser mencionados:

O vitimismo blinda os cerceadores da liberdade alheia

Cultura do vitimismo: Esse termo está em voga na direita faz certo tempo. Esse termo é utilizado como um modo de revelar as falácias e a desonestidade de quem afirma e defende a ideia de uma sociedade onde qualquer oposição a ideias apresentadas por negros , gays e mulheres configura racismo, homofobia e misoginia, mesmo que quem se opõe a compreensão de mundo de negros, gays e mulheres, seja gay ,negro ou mulher porém de outro espectro politico e ideológico (vereador Fernando Holiday tem conhecimento empírico sobre esse ultrajante modo de ver a realidade).

O medo é a arma daqueles que não possuem argumentos.

Cultura do medo: Célio Pezza, colunista e escritor definem assim o temo no seu artigo pela Gazeta Digital:

A cultura do medo é a melhor forma de manipular as pessoas e muito utilizada para controle das massas. Já Maquiavel aconselhava o Príncipe a instigar o medo nos seus súditos, porque este era mais potente e duradouro que o amor. Governar pelo medo! Esta era a sua orientação, sempre seguida fielmente pelos tiranos e opressores.( Negrito meu)

Para Paula Argentino , advogada em seu artigo publicado pela jus.com.br :

Através de um discurso de pânico é possível fazer com que o povo concorde com as intervenções que sobre ele se impõe e, desta forma, não apresente qualquer resistência, ou seja, além de construir uma falsa legitimidade ao poder interventivo, serve para uma interiorização pelo sujeito, da necessidade de que ele mesmo seja controlado, o que legitima o autoritarismo e a arbitrariedade dos políticos contra a sociedade.

 A autora reforça essa ideia Ao citar Rogerio Greco e, por conseguinte, desenvolver a ideia:

Para Rogério Greco (2013) esse convencimento “é feito por intermédio do sensacionalismo, da transmissão de imagens chocantes, que causam revolta e repulsa no meio social”(Negrito meu). Homicídios bárbaros, estupros de criançinhas, presos que, durante rebeliões, torturam suas vítimas, corrupções, enfim, a sociedade, acuada, se convence sinceramente que o Direito Penal será a solução de todos os seus problemas.

O medo permite que ideias que vão de contra ao senso comum, como também a valores democráticos como liberdade de expressão, de crença e pensamento, do ouvinte sejam acolhidas e consideradas desejáveis. O medo manipula as pessoas para que convirjam com ideias que somente cooperam com os interesses políticos e sociais de grupos ideológicos e de grupos econômicos e políticos. A imagem que grupos totalitários vêm realizando através da mídia tem como objetivo convencer e persuadir a população a aceitar a imagem social apresentada como crível e factual, como também, colocar no ostracismo quem questiona a veracidade de tal imagem. O povo guiado e adestrado pelo medo se torna um exercito paralelo a servir propósitos escusos e questionáveis.

Leituras realizadas para o entendimento da retórica segundo Aristóteles:

LIMA, Marcos Aurélio de. A retórica em Aristóteles : da orientação das paixões ao aprimoramento da eupraxia. – Natal: IFRN, 2011

ARISTOTELES. Retórica. Impressa nacional da Casa da moeda- 2.ed , 2005

Referências bibliográficas:

ARGENTINO, Paula. A cultura do medo e o discurso do pânico: um recurso para implantação do estado de emergência. 2016. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/47124/a-cultura-do-medo-e-o-discurso-do-panico-um-recurso-para-implantacao-do-estado-de-emergencia.Acesso em : 08 mar. 2019.

PEZZA, Célio. A cultura do medo. 2015. Disponível em: http://www.gazetadigital.com.br/editorias/opiniao/a-cultura-do-medo/459495. Acesso em: 08 mar. 2019.