Ser escritora não é fácil. No imaginário popular ser escritora é um ofício super charmoso em que uma elegante Senhora passa o dia todo sorridente sentada frente a uma mesa, rindo e escrevendo todo tipo de coisa que lhe vem à mente.

Ledo engano.

Não há glamour.

Algumas escrevem até de pijamas.

Ser escritora é como ser qualquer outra pessoa, é como ter qualquer outra profissão. É ter uma vida igual a de qualquer pessoa do povo – ou até mais sofrida – e ainda passar horas escrevendo e reescrevendo histórias. Muitas noites em claro e muito café.

E, aliás…

Nada de vida social.

Tempo livre zero.

Férias? O que é isso?

É.

Escrever profissionalmente demanda não apenas dom, criatividade e imaginação; mas também muita pesquisa e muito estudo, especialmente, nos campos de gramática, línguas, lingüística, literaturas, artes e história.

E coragem. E determinação. E esperança.

Muita esperança, à propósito. Ora, não basta escrever um livro, é preciso vendê-lo. Sem vendas não há retorno monetário. Uma escritora pode ter escrito “mil e uma” histórias, no entanto, se não houver vendas, ela não será capaz de tornar seu trabalho uma fonte de renda, e assim sendo, não será capaz de honrar seus compromissos financeiros.

Mas…Quanto vale um livro? Quanto vale o esforço de uma escritora?

Imensurável.

Cabe salientar que o mundo das letras foi por muitos séculos considerado um meio masculino. O acesso à escola em determinado período da História Mundial era restrito aos homens. A leitura dos livros também era limitada. E, quando as mulheres chegavam a ter acesso aos livros, a elas não lhes era recomendada a leitura de certos gêneros. Nos primórdios da história da literatura (tal qual a conhecemos), uma mulher escrever um livro era impensado já que havia a crença de que era uma atividade incompatível com a natureza feminina.

Lady Murasaki (Murasaki Shikibu), a Baronesa D´Aulnoy (Marie-Catherine) e a Princesa Sherazade são consideradas pioneiras no ofício literário, e se, hoje, há mulheres na literatura, definitivamente devemos isso a elas.

Passados alguns séculos, as sociedades consideraram aceitável que a mulher escrevesse contos de fadas ou histórias para entreter crianças, afinal era algo que elas já faziam naturalmente em seus lares. E assim escritoras fantásticas surgiram como Marie de France, Baronesa D´Aulnoy, Gabrielle-Suzanne Barbot, Madame Leprince de Beaumont, Charlotte Rose De-la-Force, Mary Wright Sewell, Vera Zhelikhovsky, Condessa de Ségur, Louisa May Alcott, Beatrix Potter, Eleanor H. Porter, entre outras (*).

Outras temáticas ainda persistiam restritas, razão pela qual escritoras optaram por utilizar pseudônimos masculinos ou nomes abreviados de modo a parecer masculinos a fim de que pudessem publicar e vender suas obras como, por exemplo, Amandine Aurore Lucile Dupin, a Baronesa de Dudevant (Jules Sand, Georg Sand); Anne Brontë (Acton Bell); Charlotte Brontë (Currer Bell, Lord Charles Albert Florian Wellesley); Emily Brontë (Ellis Bell); Karen Christence , a Baronesa de Blixen (Isak Dinesen, Osceola, Pierre Andrézel(o)); entre outras.

Grandes escritoras são donas de grandes histórias. Todavia, esse “grande” geralmente não significa algo “empolgante”.

Charlotte Brontë

Charlotte teve uma vida difícil. Sua mãe faleceu quando ela tinha cinco anos, deixando ela e mais cinco irmãos. Logo depois, as quatro filhas mais velhas foram enviadas para um colégio interno, onde duas de suas irmãs adquiram tuberculose e morreram. Adulta, Charlotte trabalhou como professora de inglês e governanta em casas de família, na Inglaterra e, depois na Bélgica. Em Bruxelas, além de estudar francês e alemão, ela era professora em um internato; onde se apaixonou pelo diretor, que ele era casado, e, portanto, não lhe correspondeu, tendo inclusive rasgado sem responder inúmeras cartas que ela lhe escreveu. Charlotte era muito empreendedora e tentou ela mesma fundar sua própria escola, todavia não logrou êxito. Neste período, sua tia, seu irmão e suas duas irmãs Emily e Anne morreram. Charlotte, então, voltou para casa para ajudar a cuidar de seu pai, que se encontrava adoentado. Pouco tempo depois de casar, Charlotte morreu, grávida, aos 38 anos devido, ao que se tem notícias, a uma hiperemese gravídica, uma enfermidade que leva a gestante a vomitar excessivamente, o que causa desnutrição e desidratação. Algumas pesquisas apontam que ela também teria adquirido, em razão da baixa imunidade, tuberculose e febre tifóide. Suas obras mais famosas foram: Emma e Jane Eyre.

Baronesa Karen Blixen

Filha de Ingeborg Westenholz, a primeira mulher norueguesa a ser eleita para o Parlamento, Karen tinha tudo para ter uma vida de contos de fadas. Contudo não foi bem assim… Quando ela tinha 10 anos, seu pai se enforcou acometido por depressão e pelo medo de enlouquecer devido à sífilis que havia contraído. Apesar dos esforços da mãe, a morte do pai afetou muito Karen uma vez que sempre havia sentido que somente ele a aceitava e a amava como ela era. Sem ele, ela se sentia deslocada e solitária. Aos 28 anos, Karen se casou com seu primo, o Barão sueco Bror von Blixen-Finecke, que a tornou Baronesa; apesar de ela ser apaixonada pelo irmão gêmeo dele, o Barão Hans von Blixen desde pequena. No entanto, o Barão Hans jamais lhe correspondeu. O marido passava meses fora de casa, bebendo e em companhia de outras mulheres. Ele foi infiel inúmeras vezes e lhe transmitiu sífilis. Ela então pediu o divórcio, o que foi um escândalo: ela foi a primeira divorciada em sua família. A Baronesa passou a viver com um piloto. Ela engravidou duas vezes, mas perdeu os bebês, provavelmente em conseqüência da sífilis. Treze anos depois, o companheiro morreu devido à queda de sua própria aeronave que estranhamente caiu no local onde eles haviam decidido que seriam enterrados quando morressem. A saúde da Baronesa era debilitante e ela chegou a ter um terço do estômago removido em virtude de uma úlcera provavelmente causada pelo arsênico que tomava para combater a sífilis. Impossibilitada de se alimentar normalmente, morreu aos 77 anos de idade pesando 35 quilos. Sua mais famosa foi “A Fazenda Africana” que se tornou um clássico do cinema sob o título “Entre Dois Amores”. 

Angela Carter

Angela viveu nos tempos da Segunda Guerra Mundial. Tempos difíceis em que a família tinha que literalmente “multiplicar” os alimentos. Os pais eram extremamente protetores, especialmente sua mãe, sempre apavorada com tudo. A menina passava os dias em casa sem sair. Comendo e lendo. Mais comendo do que lendo. Angela não podia se sujar, não podia cair, não podia encostar em lugares públicos. E estava sempre acima do peso, sendo conhecida como Angela, a enorme. A mãe de Angela estava sempre aflita, pois acreditava que se deixasse a filha sozinha alguma catástrofe poderia acontecer, por isso, a jovem não podia fazer nada por ela mesma nem mesmo tomar banho ou vestir-se sozinha. Anos depois, Angela relatou que se sentia infeliz e tinha bem poucos amigos. Ela criou uma fixação por emagrecer, e ficou tão obcecada que desenvolveu anorexia nervosa. Casou-se aos 19 anos, porém divorciou-se pouco tempo depois, sob a alegação de que o mau humor, o estado depressivo e a negatividade do marido lhe faziam mal. Após o divórcio, enfrentou dificuldades. Ficou grávida e sofreu um aborto espontâneo. Depois, uniu-se a um homem extremamente agressivo de quem precisou fugir e, com a ajuda de seu pai, mudar de cidade. Angela nunca conseguiu aprender a andar de bicicleta ou dirigir um veículo, inclusive na terceira e última aula de condução, bateu e derrubou uma parede. Declarou-se feminista “não ortodoxa” porque não tinha uma real preocupação com a idéia de justiça igualitária, e afirmava ter horror à ideia das mulheres colocarem-se na posição de sofredoras e fracas. Ela achava que as mulheres precisavam aprender a aproveitar melhor as oportunidades, saber se impor e ter coragem. Angela casou-se novamente, teve um filho e nunca deixou de estudar. Sua mais conhecida obra é “Na Companhia de Lobos”, que foi transformado em filme, com co-roteiro dela mesma! No momento de sua morte, ela estava pesquisando o livro Jane Eyre, de Charlotte Brontë. Angela morreu aos 51 anos, em decorrência de um câncer de pulmão, em sua casa, em companhia de seu esposo e seu filho.

Alice Dunbar Nelson

De família mestiça (brancos, negros e índios), era filha de ex-escrava e enfrentava dificuldades econômicas e familiares. Apesar de todos os problemas, Alice era extremamente dedicada aos estudos e se formou com méritos no ensino médio. Alice recebeu o certificado de ensino da Straight College (hoje Dillard University) uma das primeiras faculdades historicamente para negros nos Estados Unidos, começando sua carreira como professora no sistema escolar público de Nova Orleans aos 17 anos. Em seguida, já em Nova Iorque co-fundou a White Rose Mission (White Rose Home for Girls) em Manhattan, onde também atuou como professora. Mas não foi só isso Alice também trabalhou como estenografa, secretária executiva, editora, colunista, palestrante e foi líder de uma campanha de direitos civis. Alice casou-se, entretanto, o casamento era conturbado: seu marido, viciado em álcool, a agredia constantemente. Em uma das agressões ela sofreu tantos golpes que quase foi à óbito, ocasião em que deixou o lar. Após isso, Alice seguiu trabalhando como professora em tempo integral mantendo seu hábito de escrever poemas, ensaios e artigos para jornais. Para prosseguir com os seus interesses literários inscreveu-se em cursos na Universidade de Columbia e na Universidade da Pensilvânia, e ainda graduou-se no Mestrado da Universidade de Cornell, onde escreveu sua dissertação sobre o escritor William Wordsworth. Alice foi co-fundadora da Escola Industrial para Meninas Coloridas, que atendia à sua própria lógica particular e futurista, onde ela trabalhava para além da questão dos negros. Ela trabalhava uma linha de cores – linhas de cor branca e preta – como ela costumava declarar. Em uma peça autobiográfica intitulada “Brass Tobels”, ela discute as dificuldades que enfrentou ao crescer em uma raça mista na Louisiana, mencionando o isolamento que sentiu quando criança e a sensação de não pertencer ou ser aceita por qualquer raça, lembrando que na infância, era chamada de “uma negra meio branca”, e que vivia uma vida estranha, pois não era nem negra nem branca, e que tanto indivíduos negros quanto brancos a rejeitaram ou por ser muito branca ou por ser muito negra. Os colegas de trabalho brancos não achavam que ela era clara o suficiente e colegas negros não achavam que ela era suficientemente escura para trabalhar com o próprio povo. Grande parte do que Alice escreveu foi rejeitado justamente por ela escrever sobre “a linha de cores” e o racismo a que são submetidas pessoas que não são nem brancas nem negras. Alice casou-se de novo e continuou escrevendo, dentre outras coisas, sobre “binarismo racial” e assuntos rejeitados pela mídia: Alice não concordava com a atitude de alguns negros que insistiam em que a comunidade fosse o mais negra possível e os negros para se mostrarem vítimas sociais deveriam se manter deseducados e sem interesse algum por temas culturais e refinados, e deveriam permanecer falando gírias e expressões informais, e também o idioma pátrio de forma errada; uma limitação imposta pelos negros para os negros que Alice jamais conseguiu compreender. Ela também rejeitava a idéia de se criar uma identidade ou política afro-americana. Alice recebeu vários prêmios e seu diário é considerado um verdadeiro tesouro literário.

Como se depreende escritoras não são tão “afortunadas” quanto se imagina. A maior parte sofre e luta muito para seguir em frente.

Uma característica que parece ser comum a todas elas é que elas nunca permitiram que algo ou alguém lhes parasse. Elas sempre se agarraram ao amor pela literatura, e jamais deixaram de estudar e de escrever.

Por tudo isso, ser escritora é ser, indubitavelmente, vitoriosa.

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Créditos da imagem: IEPAT

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