Em continuidade à série em que analisamos a propriedade e o significado das palavras, vou abordar este substantivo que tem causado muita polêmica. Basta um pouco de Leitura Vertical e “Gênero” seria um vocábulo natimorto. A etimologia vem do Latim: Gênus, Gêneris, que quer dizer ‘descendência, origem, tipo’. Portanto, o gênero é sempre empregado no sentido de agregar desiguais, a partir de uma referência comum. Começa nesse ponto a falha do conceito que gera expressões equivocadas.

O substantivo masculino “gênero” só se aplica a funções e ideias ligadas a conceitos, como gênero Literário, gênero musical, gênero dos substantivos e adjetivos (masculino e feminino) e vamos parar por aqui, pois já há argumento suficiente para reflexão e discussão.  No dicionário Michaelis, a definição é bem clara: Conceito de ordem geral que abrange todas as características ou propriedades comuns que especificam determinado grupo ou classe de seres ou de objetos.

O “Gênero” é arbitrário e convencional, isto é, convencionou-se chamar de Poético o gênero que possui ritmo, às vezes rima e utiliza figuras de linguagem, e por sua vez este gênero é um dos muitos que os alunos devem estudar na escola, faz parte da grade curricular da frente de Literatura na disciplina de Língua Portuguesa, assim como o gênero Épico, que descreve as aventuras de um herói, ou do gênero não-literário, composto por toda a literatura informativa.  

Por tudo o que descrevemos acima, a primeira noção linguística que se pode ter sobre a palavra é que ela não é a coisa representada, mas apenas a representação da coisa ou da ideia. Então, a palavra “cadeira” não é a cadeira, mas representa uma ideia ou função em que se agrupam todas as cadeiras presentes, passadas e futuras, de todas as cores, tamanhos e formatos e têm uma mesma função: sentar-se. E como a palavra é convencional, o substantivo também o é, como “Gênero” e tudo o que decorre dele. No campo da Biologia, o gênero e a espécie estão no fundamento do nome cientifico de cada ser vivo, da samambaia (Nephrolepis exaltata) à arara vermelha (Ara  chloropiterus), do milho (Zea mays) ao ser humano  (Homo sapiens sapiens).

A confusão nas ideias começou mesmo na questão gramatical com o gênero masculino e feminino ligados aos substantivos. Cadeira é feminino porque ela é mulher? Cabelo é masculino porque é homem? A proposição é ridícula, mas acredite que muitos professores de Português levaram a sério e distorceram a cabeça dos alunos. A ideia de ligar gêneros feminino e masculino ao sexo de palavras é tão pouco científica que “O Sol” e “A Lua”, masculino e feminino em Português, na Língua Alemã é “Die Sonne” e “Der Mond” feminino e masculino, respectivamente. Pergunta de aluno espertinho que poderia fazer a classe dar risada até o ano 2050: “Então, professora, a lua e o sol no Brasil são mulher e homem, mas na Alemanha mudam de sexo?” Nãooooo! Mudam de gênero, pois a classificação de sexo não se aplica a coisas inanimadas, apenas a vegetais e animais. No caso de vegetais e animais irracionais a terminologia é macho e fêmea (mamão macho e fêmea, ou jacaré macho e fêmea, por exemplo, bom lembrar que eles se reproduzem) já Homem e Mulher aplicam-se a seres humanos, mas também feminino ou masculino são adjetivos atribuídos ao substantivo sexo.

Será que estamos colocando as palavras em seu devido lugar? Espero que sim, pois essa explicação meio primária tem sido negada mesmo a universi(o) tários que acreditam nos professores de esquerda. Tudo bem, faz parte. Continuo.

Nunca me esqueço de uma aula em que ingenuamente as alunas da minha classe classificaram a nossa Língua Portuguesa como machista, pois a regra para a formação do plural era prevalecente o masculino. Isto é, Se você fala a uma plateia de 20 mulheres e um homem, mesmo que na apresentação se dirija a “Senhoras e senhores”, no decorrer do discurso, para recorrer ao público, basta referir-se a “senhores”, no masculino. Isto se chama convenção, e não tem nada a ver com machismo ou feminismo, só na cabeça de gente doente se confunde alhos com bugalhos. São aquelas pérolas do determinismo linguístico que colocam a linguagem à frente da necessidade. O pensamento torto de que a linguagem determina a forma de pensar; aí linguística vira antropologia e ninguém se entende mais, porque a História e a Cultura viram reféns das palavras, e não o contrário. Está formado o circo dos estruturalistas e Gênero vira atributo humano.

Pessoas não têm gênero, essa é uma construção cultural datada. um conceito criado para dissolver as diferenças naturais, por um lado, e encobrir um falso pudor por aproximar o substantivo “sexo” do ato sexual. Não é de nosso vocabulário conservador o uso da palavra “Gênero”, portanto. Não há igualdade, muito menos ideologia de gênero. Há igualdade entre os sexos. Igualdade profissional entre Mulheres e Homens. Gênero é denominação de coisa, de função, de Biologia, de categoria, nunca atributo de um ser humano em particular. Pessoas não têm gênero, têm sexo (M/F) e quem é travesti, lésbica, transexual, gay, continua sendo do sexo masculino ou feminino, mesmo com mutilação, drogas anabolizantes e hormônios; assim como se o meu vizinho João se tatuasse como uma cobra, inoculasse veneno nos dentes e rastejasse pelo jardim não deixaria de ser do sexo masculino. E nunca do gênero das cobras, só porque ele “sente”!.

Não quero frustrar as expectativas de falsa liberdade que nos impuseram desde cedo, foi um plano bem elaborado esse de valorizar o livre-arbítrio até do incabível, mas basta uma breve reflexão e um pouco de bom senso para entender que há limites os quais não podemos e nem devemos ultrapassar.  São nossa herança e devemos aceitá-la, independente da opção ou condição sexual. É loucura lutar contra a Biologia, e loucura maior é tentar convencer os outros do contrário. Alphonsus de Guimaraens fala sobre essa loucura em seu poema “Ismália”:

Quando Ismália enlouqueceu, /Pôs-se na torre a sonhar… /Viu uma lua no céu,/ Viu outra lua no mar./ No sonho em que se perdeu, /Banhou-se toda em luar… /Queria subir ao céu,/ Queria descer ao mar… / E, no desvario seu,/ Na torre pôs-se a cantar… / Estava perto do céu,/ Estava longe do mar… /E como um anjo pendeu/ As asas para voar… /Queria a lua do céu,/ Queria a lua do mar… /As asas que Deus lhe deu /Ruflaram de par em par… /Sua alma subiu ao céu, /Seu corpo desceu ao mar… 

Como muitos, Ismália julgava que seu corpo era uma prisão que a impedia de voar, que prendia sua alma à matéria, e que só poderia alcançar a transcendência libertando-se do corpo, isto é, morrendo. Quantas Ismálias não vemos hoje?

Estar em paz com o próprio corpo, com o nome que lhe foi presenteado pela família e com sua herança biológica pode ser fácil para alguns, difícil ou impossível para outros, mas esta matéria não se destina a falar sobre homossexualidade, mas das corretas nomenclaturas e terminologias, que têm sido falseadas em nome das ideologias.

Aliás, para os politicamente corretos de plantão podem chorar lágrimas de crocodilo (ou crocodilo fêmea), porque o termo correto é homossexual, aquele que sente atração sexual por seu igual. Homoafetividade e seus derivados não existem, pois o antônimo de homossexual é heterossexual e até agora não conheço o adjetivo heteroafetivo, portanto, vale a igualdade como princípio linguístico também.

A tal loucura chegou aos píncaros das galáxias quando algumas repartições públicas, escolas e universidades – sempre elas! – resolveram substituir em seus textos, circulares, ofícios e e-mails as desinências  o e a, que são marcas de gênero do substantivo, pela letra x, tornando as palavras ilegíveis e impronunciáveis: meninx, meninxs. Caso de divã ou de cadeia.

Feminino e masculino, ao contrário do que pensam as feminazis e a tchurminha LGBTXYZ massa de manobra da doença esquerdopata, não são afirmações de identidade (de gênero), mas jeitos naturais de ser e de viver com liberdade, explorando os limites da prosa e da poesia. Para provocar, leia e interprete comigo a canção “Feminina”, da linda mulher e mãe de Clara e Ana, a talentosa compositora Joyce:

– Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
– Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
– Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Nesta primeira estrofe, que é também o refrão, a filha pergunta à mãe, em discurso direto, o significado do adjetivo “feminina”, que ela ouviu no gênero feminino, porque a marca do feminino aplica-se não só ao substantivo, como ao adjetivo a que se refere: Calças femininas, sapatos masculinos, blusa feminina. A mãe responde pela negação inicialmente, para que a filha afaste totalmente os trejeitos típicos de quem faz uma caricatura de mulher. Ser feminina não é usar cabelo comprido, fazer caras e bocas e manha infantil, mas manter a inocência e a pureza do olhar poético sobre a vida. Quando a filha questiona sobre o futuro de todas as mulheres, a mãe sabiamente revela que a vida é um ciclo, um constante recomeçar. Podemos inclusive estar no campo semântico do ciclo menstrual, dos hormônios que movem os humores femininos e por pior que sejam, são parte do “universo feminino”, que ela já identificou claramente com “menina”.

Costura o fio da vida só pra poder cortar
Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar

A partir daqui os versos exemplificam cenas que perfazem a vida da mulher, a começar pelo papel de mãe. O fio da vida refere-se aos filhos,  que são tecidos, formados, educados, cultivados e depois seguem seu caminho. A mãe cria os filhos para o mundo mas tem que cortar o cordão umbilical. Ser mulher é ser forte o bastante para renunciar à colheita do que plantou.

-(refrão)

Prepara e bota na mesa com todo o paladar
Depois, acende outro fogo, deixa tudo queimar

Apesar da coragem inata, acumulando funções domésticas, trabalho, maternidade, todos são falíveis. Ver a vida com bom-humor é outro atributo da mulher que cultiva a feminilidade.

E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar

A conclusão de Joyce já fecha questão: esse mistério, a feminilidade, estará sempre em toda mulher,  apesar da negação, das tentativas de masculinização proclamadas por grupos radicais, das dificuldades de a mulher ser quem é, frágil e forte, um ser paradoxal, a menina estará sempre dentro da mulher (fe/minina). Apesar, acima de tudo, de substituir sua expressão Sexo, que comanda o ciclo da vida, pelo impessoal, falso e coisificado Gênero, que presta serviço ao caos.

Acho que se eu fosse feminazi, arrancava os cabelos depois de ouvir essa música. E vamos banir esse substantivo Gênero do nosso vocabulário e dos documentos e textos. Queremos a volta do Sexo Já!

 

 

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