Leia antes as duas primeiras partes escritas sobre essa obra : Um olhar sobre o Mundo Mágico de Lewis- Introdução e Um Olhar sobre o mundo mágico de Lewis- A construção ficcional

E ele disse-lhes: A vós vos é dado saber os mistérios do reino de Deus, mas aos que estão de fora todas estas coisas se dizem por parábolas,

Para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados.

Marcos 4:11-12

Desde seu lançamento O leão, A feiticeira e o Guarda-Roupa ,e consequentemente os outros contos , várias analises tem sido realizadas sobre a forte intertextualidade bíblica presentes neles. Desejamos deixar claro que quando uma autor faz uso do termo bíblica deve-se ter o leitor cuidado pois C.S lewis não se atrelou somente aos textos canonizados pela igreja católica ou protestante mas buscou em textos não canônicos , apócrifos, certas ideias e inspirações; a ideia de a bruxa ser filha de adão com Lilith é um exemplo pois Lilith se encontra nos textos hebraicos da bíblia , esse nome oi retirado de todas as traduções bíblicas, e representa segundo a mitologia judaica a primeira mulher de adão que fora expulsa por DEUS por tentar ser superior ao cônjuge. Exploraremos esse ponto um pouco mais adiante fiquemos por ora, todavia, com a parte mais clássica do estudo da intertextualidade bíblica presente em Narnia.

O primeiro ponto a se tratar é que pedagogicamente Crônicas de Narnia se assemelha a uma parábola. Dentro da bíblia as parábolas eram utilizadas para transmitir conceitos morais e éticos de um modo mais atrativo e que alcançasse um publico bastante heterogênico. Um doutor em teologia leria as parábolas de JESUS de um modo muito mais complexo do que um analfabeto todavia ambos teriam a compreensão do principio moral abordado na parábola. Lewis trata seus contos como uma maneira de passar ensinamentos morais sem ter que limitar o publico ao qual se destinaria.  As Crônicas de Narnia segue esse mesmo principio didático. Botelho muito pontualmente declara:

Ressaltamos a intertextualidade entre As Crônicas de Nárnia e a Bíblia, ou seja, os temas, as figuras, as idéias bíblicas retomadas nas Crônicas são apresentadas de maneira a serem reforçadas e não contestadas ou questionadas. Alguns temas teológicos polêmicos, cuja posição bíblica não é clara, são de fato discutidos, como no caso da eleição dos justos e do gentio virtuoso.

.Temas como a graça e a colaboração humana estão presentes no livro O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa. Graça é a ação gratuita de Deus da qual o homem é beneficiário. Assim como no conto de fadas as coisas acontecem” (happen) por acaso às personagens, assim também a graça divina proporciona uma experiência gratuita. (Botelho, 2005)

Da mesma forma que Narnia acontece quando não se procura por ela a Graça redentora de DEUS se manifesta quando o homem não a busca; Graça acontece e não há razão ou lógica que possa explicar o que de fato ela é ou como se relaciona com o plano da salvação.

Atualmente, quase todos os teologos, protestantes ou católicos romanos, concordam quanto à premissa fundamental da necessidade da graça para a recuperação espiritual do homem. A queda do homem no pecado foi por demais radical e profunda para que ele possa retornar sozinho a Deus, para ele

…voltar à vereda espiritual e, finalmente, à. salvação. Onde os teólogos não encontram terreno comum é sobre quanto da vontade humana está envolvida na questão. Alguns mestres falam em monergismo, dando a entender que somente Deus mostra-se ativo como uma força na salvação do homem, mediante a graça. Mas outros ensinam o sinergismo, dizendo que a vontade do homem é uma realidade, podendo responder, positivamente, à graça divina, devendo fazer parte daquilo que a graça divina realiza.( Champlin, 1995, p. 953) ( Grifo meu).

A bíblia refere-se a essa questão relacionando a GRAÇA com a própria pessoa de Cristo especialmente nos versículos achados nos evangelhos de Lucas capítulo 12, verso 40 onde lê-se: “os de Ficais vós também apercebidos porque a hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.”” e  em Mateus 24:50 lê-se “Virá o senhor daquele servo em dia que não espera e em hora que não sabe.”” (A BÍBLIA SAGRADA, 1993). Comparemos o dito nos versículos com o que a própria obra de lewis; O primeiro livro da série, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa termina com o seguinte aviso: “Não tentem seguir o mesmo caminho duas vezes.” (2009, p. 166). Da mesma forma, em A Cadeira de Prata, Aslam deixa claro para Gilda que foi Ele quem a chamou. Botelho explica tal questão:

Em síntese, Lewis propõe que a reconciliação da humanidade com Deus, de Nárnia com Aslam se dê por meio da graça em primeiro lugar, porém sem desprezar a colaboração humana que, para tal colaboração, faz uso de todo conhecimento da ciência e da arte que o homem acumulou na Terra. Quanto à teologia da redenção, como bem assinala Gabriele Greggersen, Lewis está de acordo com a linha teológica de Tomás de Aquino que afirma a liberdade do agir de Deus. Ambos afirmam a liberdade divina que se contrapõe a uma teologia racionalista, mas que ao mesmo tempo não é arbitrária. O filosofo Joseph Pieper discorre sobre esse assunto comentando a posição equilibrada de Tomás de Aquino cuja afirmação é de que a liberdade de Deus e suas razões são reservadas a ele mesmo.( Botelho, 2005)

Os personagens presentes em Lewis não são perfeitos em Caráter o que explica a necessidade que eles precisam de redenção e perdão. Edmundo deveria ser sentenciado a morte na mesa de pedra mas foi poupado por causa do sacrifício de Aslam como da mesma maneira CRISTO sacrificou a si mesmo pela humanidade. Embora devamos ser cautelosos com nossas comparações e seguirmos a ideia de que Aslam foi concebido como uma grande suposição e , portanto, tudo que ocorre dentro de Narnia se assemelha a narrativa bíblica quanto a suas questões morais e teológicas mais profundas e , nessa linha, Aslam em sua decisão de se sacrificar no lugar do irmão traidor, Edmundo, se conecta com o sacrifício de Cristo; tanto na bíblia como na obra o amor e o perdão levam o justo ao sacrifício. A magia mais profunda que é mencionada várias vezes na obra de Lewis possui o típico caráter misterioso e redentor da Graça. Teologicamente a lei escrita por DEUS na Torah condena a humanidade a morte e destruição e somente um sacrifício maior e melhor do que o estabelecido na Torah feito através do sangue de novilhos poderia redimir a humanidade; A magia profunda condena a morte Edmundo:

Débil mental! – disse a feiticeira, com um riso de fúria que era quase um grunhido. – Está tão convencido assim de que o seu senhor me pode privar dos meus direitos pela força? Ele conhece bem demais a Magia Profunda para atrever-se a isso. Sabe que, a não ser que eu receba o sangue a que a lei me dá direito, toda a terra de Nárnia será subvertida e perecerá em água e fogo.

A lei expressa na Torah, a representação maior do antigo testamento, não pode ser quebrada como o próprio Cristo afirma em Mateus 5: 17-18 :

Porque em verdade vos digo: Enquanto não passar o céu e a terra, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, sem que tudo se cumpra.

Aquele, pois, que violar um destes mínimos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado mínimo no reino dos céus; mas aquele que os observar e ensinar, esse será chamado grande no reino dos céus.

 Da mesma maneira Aslan reconhece que a magia profunda não pode ser quebrada:

É verdade! – disse Aslam. – Não posso negá-lo.

– Oh! Aslam! – sussurrou Susana, ao ouvido do Leão. – Não

podemos nós… quer dizer, isto é, não vai acontecer nada, não é? Não se pode dar um jeito nessa Magia Profunda?

– Enfrentar o poder mágico do Imperador?

Aslam voltou-se para ela, com o rosto ligeiramente carregado. E ninguém mais tocou naquele assunto.

Aslan se oferece no lugar de Edmundo e a atitude da feiticeira mostra que ela acredita ser essa atitude uma grande tolice e uma chance de ela obter de modo definitivo:

Quem venceu, afinal? Louco! Pensava com isso poder redimir a

traição da criatura humana?!

Vou matá-lo, no lugar do humano, como combinamos, para sossegara Magia Profunda. Mas, quando estiver morto, poderei matá-lo também.

Quem me impedirá? Quem poderá arrancá-lo de minhas mãos?

Compreenda que você me entregou Nárnia para sempre, que perdeu a própria vida sem ter salvo a vida da criatura humana. Consciente disso, desespere e morra.

Aslan morre, todavia uma magia mais profunda concebida muito antes da magia profunda  trazAslan de volta a vida:

Não! Você está vivo! Oh, Aslam! – gritou Lúcia, e as duas meninas

atiraram-se sobre ele com mil beijos.

– Mas explique tudo isso, por favor – disse Susana, ao recuperar um

pouco da calma.

Explico: a feiticeira pode conhecer a Magia Profunda, mas não sabe que há outra magia ainda mais profunda. O que ela sabe não vai além da aurora do tempo. Mas, se tivesse sido capaz de ver um pouco mais longe, de penetrar na escuridão e no silêncio que reinam antes da aurora do tempo, teria aprendido outro sortilégio. Saberia que, se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor, a mesa estalaria e a própria morte começaria a andar para trás…

O paralelo com a ressurreição de cristo ,segundo a linha tradicional da cristandade, é claro mesmo para um ouvinte dominical de sermões e liturgias. Aslam ao longo da obra faz alusão a um outro “eu ( JESUS)” que residi no mundo humano e que deveria ser encontrado lá . O modo como a obra termina com o conto : A última Batalha , o apocalipse de Nárnia se temos o Sobrinho do Mago como o gênesis, apresenta o fim de Nárnia e do mundo humano. a dúvida versus a fé, o engano versus a verdade transcendental.

Lewis apresenta ao leitor uma obra que apresenta a mística da cristandade sem o peso da racionalidade teológica e , talvez, seja este tipo de abordagem a que mais necessitamos.

Bibliografia:

BOTELHO, Raquel Lima. A Intertextualidade Bíblica nas Crônicas de Nárnia de C.S.Lewis-um panorama. 2005. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2005. Disponível em: https://pt.slideshare.net/EdilsonAlvesdeSouza1/intertextualidade-bblic-nas-crnicas-de-nrnia-raquel-lima-botelho

CHAMPLIN, R. N. e BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e. Filosofia. 6 volumes. São Paulo: candeia, 1995.

CHAMPLIN, R. N. e BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e. Filosofia. 5 volumes. HAGNOS, 2008.

GREGGERSEN, Gabriele. C. S. Lewis: fácil ou difícil? Disponível em:. https://www.ultimato.com.br/conteudo/c-s-lewis-facil-ou-dificil.   Acesso em: 31 março de 2019

GREGGERSEN, Gabriele. Aspectos religiosos na obra “As Crônicas de Nárnia: O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”, de C. S. Lewis. Disponível em: http://ultimato.com.br/sites/cslewis/2014/12/29/aspectos-religiosos-na-obra-as-cronicas-de-narnia-o-leao-a-feiticeira-e-o-guarda-roupa-de-c-s-lewis/ Acesso em 30 de Março de 2019

LEWIS, C.S. As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. Tradução de Paulo Mendes Campos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

LEWIS, C.S. Três Maneiras de Escrever Para Crianças. Disponível em : https://leiturasdiversas.wordpress.com/2017/06/17/tres-maneiras-de-escrever-para-criancas-c-s-lewis/

LEWIS, C.S. Sobre histórias. Thomas Nelson Brasil, ed: 1ª, 2018.

LEWIS, C.S. Stories and Other Essays on Literature . Disponivel em: https://books.google.com.br/books?hl=ptBR&lr=&id=t1CpOOdxLfsC&oi=fnd&pg=PP1&dq=Stories+and+Other+Essays+on+Literature&ots=8be5qOPwPK&sig=6KT58GCKoXWlyLAGiCRhnGA3yuo#v=onepage&q=Stories%20and%20Other%20Essays%20on%20Literature&f=false Acesso em : 30 de março de 2019

LONGENECKER, Dwight O “NÃO” de Tolkien a Nárnia. Disponível em:.  http://tolkienbrasil.com/artigos/o-nao-de-tolkien-a-narnia-por-padre-dwight-longenecker/ Acesso em: 5 março 2019

DE CASTRO, Nany. C.S.Lewis: De ateu para apóstolo dos céticos. Disponivél em : https://guiame.com.br/gospel/mundo-cristao/cslewis-de-ateu-para-apostolo-dos-ceticos.html Acesso em : 30 de março de 2019

Allegory and Symbolism: Deciphering the Chronicles. Disponível em: https://www.narniaweb.com/wp-content/uploads/2009/08/583816_ch06.pdf . Acesso em 29 de Março de 2019.

.

Website Comments