Introdução

C.S Lewis foi um dos autores mais frutíferos da língua inglesa. Um homem devotado à literatura com o mesmo grau de paixão que devotava a sua vida religiosa. Muitos dos trabalhos de Lewis, especialmente Crônicas de Narina e Cartas de um diabo a seu aprendiz, revelam que os escritos de Lewis não podem ser interpretados apropriadamente sem ter-se em mente a teologia protestante que permeava a mente de Lewis e, claramente, sem entender que a literatura para este autor era a maneira mais adequada de se comunicar com o público infantil. O mundo fantástico cheio de imagens alegóricas e paisagens pitorescas era um palco onde a moral poderia se apresentar ao público sem estar vestida de vestes de arrogância ou presunção. Lewis considerava “as historias que pretendem ser “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças”  e , quanto ao uso de imagens, ele afirmava “ deixe que as imagens lhe contem a moral delas pois sua moral intrínseca nasce naturalmente”.

Um dos pontos onde muitos desenvolvem uma critica negativa as obras de C.S Lewis, especialmente as Crônicas de Narina, é de observar que elas não se encaixam dentro de uma classificação etária o que as torna passiveis de serem lidas por crianças e adultos podendo ser , portanto, sombrias demais para jovens leitores e simplistas de mais para mentes mais versadas na arte da interpretação. Convém citar Lewis mais uma vez, pois ele afirmava “… a classificação rígida dos livros segundo faixas etárias, tão cara a nossos editores, tem uma relação muito vaga com o habito dos leitores reais”  e que “  … como regra historias que somente crianças gostam é uma historia ruim”  as interpretações e leituras que se pode ter de uma mesma historia podem variam mas não as tornam menos ricas.

Sem uma analise biográfica do autor muito do seu trabalho se torna por vezes difícil de ser entendido, notavelmente para a critica textual, e por tal fato este artigo se inicia com uma analise da vida de C. S Lewis seguida por uma subdivisão onde trataremos mais especificamente a relação entre as obras de C.S Lewis e sua intertextualidade com a bíblia. Crônicas de Nárnia, especificamente o conto  O Leão, a bruxa e o Guarda-Roupa, será nosso texto base.

1. C.S Lewis e a criação de Nárnia.

C.S Lewis é uma personalidade literária bastante admirada e estudada dentro da literatura, de critica literária e  de teologia. Durante muitas décadas sua obra literária tem sido lida por diferentes gerações tendo servido como inspiração e guia para muitos outros autores que surgiriam décadas depois e podemos citar a cultuada autora da série de livros sobre o jovem bruxo Harry Potter como um exemplo nítido dessa inspiração; Rowling disse que ela era um fã das obras de CS Lewis quando criança, e cita a influência de suas crônicas de Nárnia no seu trabalho: “Eu me peguei pensando sobre a rota do guarda-roupa para Nárnia quando é dito para Harry que ele tem que lançar-se em uma barreira na estação de Kings Cross – ela se dissolve e ele está na plataforma nove e três quartos, e há o trem para Hogwarts. ” (Renton, Jennie. “The story behind the Potter legend: JK Rowling talks about how she created the Harry Potter books and the magic of Harry Potter’s world,” Sydney Morning Herald, October 28, 2001. Disponível em  http://www.accio-quote.org/articles/2001/1001-sydney-renton.htm .Acesso em : 27 abril 2014) . A obra teologia de C.S Lewis é  intrigante e bastante complexa devido muito a maneira como foi escrita em um inglês bastante formal com um uso basta forte de expressões idiomáticas todavia se percebe fortemente como a perfeição era um busca continua deste autor como bem enfatiza  Greggersen:

A parte difícil da tradução da obra de C. S. Lewis são as palavras refinadas, que mal se encontram em dicionários atuais, suas milhares de citações de milhares de autores totalmente desconhecidos para nós e que ele conhecia como velhos amigos de colégio.

Seu conhecimento poliglota de línguas, entre elas o Inglês Médio, língua mais morta do que o latim, que o tradutor tem que fazer verdadeiros malabarismos para tentar decifrar. Sem falar de citações em latim, francês, italiano, britânico saxônico e grego.

 E o que mais: Lewis também erra, pelo menos para o nosso gosto: Frases longas, com uso constante do “it” (gênero inexistente no português) até se perder de vista a que ele se refere; uso de expressões idiomáticas. Todas essas dificuldades fizeram vários tradutores desistiram da ousadia de traduzir esse autor, principalmente nessas obras.( Greggersen)

Lewis era um grande desconhecido do grande público no Brasil até o lançamento do filme O leão , A bruxa e o Guarda-Roupa o qual incentivou o relançamento dos livros referentes as Crônicas de Narnia.  Sir Clive Staples Lewis ficaria estupefato ao contemplar como sua obra inspirou tantos autores como também vislumbrou tantas crianças e adultos. Nascido em Belfast ,  maior cidade e capital da Irlanda do Norte e da província do Ulster, em 29 de novembro de 1898 esse jovem teve um encontro desde cedo com as nobres letras crescendo no meio dos livros da seleta biblioteca particular de sua família, onde pode expandir sua mente lendo e se familiarizando com um mundo que o fascinaria mais e mais a medida em que crescesse. Filho caçula de Albert James e Florence Augusta Lewis, Clive foi descrito como uma “criança sonhadora”. Quando tinha três anos, decidiu adotar o nome de “Jack”, pelo qual ficaria conhecido na família e no círculo de amigos próximos durante toda a vida. Tal adoção mostrava como o universo imaginário de Lewis se expandia e não estava mais tão atrelado as noções de real e ficcional.

Quando eram adolescentes, Lewis e seu irmão Warren Lewis (1895–1973), três anos mais velho que ele, passavam quase todo o seu tempo dentro de casa dedicando-se à leitura de livros clássicos, e distantes da realidade materialista e tecnológica do século XX o que explica o quanto Lewis em suas obras, especialmente Crônicas de Narnia, lutaria contra o materialismo e o ceticismo anos mais tarde. Aos 10 anos, em 1908, a morte prematura de sua mãe causou um forte impacto no jovem garoto o que fez com que ele ainda mais se isolasse da vida comum dos garotos de sua idade, buscando refúgio no campo de suas histórias e fantasias infantis. O fato da morte de Lewis possivelmente foi um dos motivadores do conceito da não existência de DEUS que marcaria sua juventude até o encontro com o católico J.R.R Tolkien que ,com sua fé e intelectualidade , daria uma nova perspectiva ao autor.

Na sua adolescência encontrou a obra do compositor Richard Wagner e começou a se interessar pelas mitologias nórdica e grega, e por línguas, como o latim e o hebraico. Podemos admitir que não poderia haver melhor mestre para introduzir o rico e maravilhoso mundo mítico do que o celebre maestro e compositor alemão cujas obras dão nova a vida a todo um arcabouço de lendas e mitos o que de certo modo faria Lewis em seus livros. Mesmo depois de abraçar a fé cristã e se tornar um protestante anglicano o mundo pagão com suas lendas cheias de deuses imperfeitos, heróis cativantes e humanos ansiosos por um imortalidade que nunca teriam continuaram a fascinar a mente do autor.

Durante a Primeira Guerra Mundial conheceu outro soldado Irlandês Paddy Moore, com quem teve uma profunda amizade. Os dois fizeram uma promessa: se um deles falecesse durante o conflito, o outro tomaria conta da família respectiva. Moore faleceu em 1918 e Lewis cumpriu seu compromisso indo em busca da mãe de seu amigo e tendo com esta uma ralação de amizade e admiração o que se explica pois a senhor Moore perdera o filho e Lewis jovem perdera a mãe. Como nos deixa claro Nicholi:

Alguns biógrafos especulam que Lewis e a senhora Moore tenham sido amantes, mas as evidências testificam em contrário. Em suas cartas, Lewis deixa a sua relação de mãe-filho clara, sem sombra de dúvida: “Ela é a senhora que eu chamo de mãe e com aqual convivo”; “Na verdade ela é a mãe de um amigo”;56 “Minha mãesofrida”;57 “Minha mãe mais velha”. Depois da morte da Senhora Moore, Lewis continuou a referir-se a ela dessa forma: “Houve uma grande mudança na minha vida em decorrência da morte da idosa senhora, a quem eu chamava de mãe. Ela morreu sem dor aparente, depois de muitos meses de existência semiconsciente, e seria uma hipocrisia dizer que isso nos trouxe muito pesar”.59

George Sayer, um aluno e posteriormente um amigo chegado de Lewis, além de biógrafo, descreveu “o relacionamento de Jack com a Senhora Moore… como composto por gratidão por sua bondade maternal e hospitalidade generosa, pena dela, por ser mãe do seu melhor amigo do tempo de guerra, e pelo compromisso de cuidar dela, se o seu amigo Paddy fosse morto”. ( Nicholi. 2005 , p. 35-36)

 Esta moral intrínseca de Lewis sobre conceitos como honra e lealdade se refletiriam em muitos de seus trabalhos como também o conceito de perda , restituição e mortalidade. Ele afirmou que a guerra coloca diversas mortes mais cedo e um dos aspectos positivos da guerra é que ela nos alerta de nossa mortalidade. Lewis nesse momento ainda permanecia um jovem ateu convicto com uma profunda admiração pelo trabalho de vários pensadores ateístas como Sigmund Freud.

Sigmund Freud e C.S Lewis possuíam muitos paralelismos e de fato Freud foi  um dos pensadores que fascinaram Lewis por muito tempo mesmo quando Lewis aceitou o cristianismo. Nicholi nos revela que:

As experiências de infância de Freud e Lewis revelam um  paralelismo considerável. Tanto Freud quanto Lewis, quando meninos, tinham dons intelectuais que permitiam antever o profundo impacto que eles provocariam como adultos. Ambos sofreram perdas significativas nos primeiros anos de vida. Ambos tinham um relacionamento difícil, cheio de conflitos com os seus pais. Ambos foram instruídos desde cedo na fé da sua família e registraram uma aceitação nominal daquela fé. Ambos rejeitaram o sistema de fé anterior e se tornaram ateus na adolescência. Ambos leram autores que os persuadiram a rejeitar as crenças nominais da infância. Freud foi fortemente influenciado por Feuerbach e os muitos cientistas que ele estudou quando estudante de medicina e Lewis, pelos seus professores, que lhe davam a impressão de que “as ideias religiosas não passavam de ilusão… uma espécie de absurdo endêmico”.( Nicholi , 2005, p.43)

Quando voltou a Oxford C.S Lewis formou-se com louvor em letras e literatura aos 22, em 1920, em Oxford. Em Oxford conheceu vários escritores famosos, como J. R. R. Tolkien autor de O Senhor dos Anéis, de quem viria a se tornar grande amigo, discutindo com quem, numa noite em 1931, converteu-se ao cristianismo e tornou –se um autor ainda mais fascinante com obras literárias de critica literária e teologia. Tolkien investiu por bastante tempo no jovem amigo e ,de certo modo, ficou desapontado  com a ida do amigo para o protestantismo anglicano embora deva-se ressaltar que a amizade de ambos foi marcada por uma grande admiração. Mesmo quando as diferentes perspectivas sobre a teologia e a vida cristã afetaram um pouco a amizade de ambos eles continuaram inspirando um ao outro tendo Lewis sido uma motivação para Tolkien escrever seu célebre livro O Senhor do Anéis :

O Lewis, praticamente, foi o único que teve acesso ao manuscrito do ‘Senhor dos Anéis’. A amizade foi bastante profunda. “Lewis apreciava bastante a mitologia nórdica e o gosto por esse tipo de literatura foi o que aproximou Tolkien no começo”, conta a pedagoga Gabriele Greggersen, especialista em C.S. Lewis, e autora de livros como: “Antropologia Filosófica de C.S. Lewis”, “A Pedagogia Cristã na Obra de C.S. Lewis”, “O Senhor dos Anéis: da imaginação à ética” e “A Magia das Crônicas de Nárnia. (De Castro).

O chamado “apóstolo dos céticos”,  sendo assim conhecido principalmente nos Estados Unidos. Lewis notabilizou-se por uma inteligência privilegiada e uma escrita cativante, um estilo espirituoso , imaginativo e estimulante. “O Regresso do Peregrino”, publicado em 1933, “O Problema do Sofrimento” (1940), “Milagres” (1947), e “Cartas de um diabo ao seu aprendiz” (1942), são provavelmente suas obras mais conhecidas por Cristãos do mundo todo. O renomado evangelista Billy Graham teve o prazer de conhecer Lewis e desde o encontro sempre que era questionado sobre Lewis ele afirmava ser este uma mente fascinante. Escreveu também uma trilogia de ficção científico-religiosa, conhecida como a “Trilogia Espacial”: “Além do Planeta Silencioso” (1938), “Perelandra” (1943), e “Aquela Força Medonha” (1945). Para crianças, escreveu uma série de fábulas, começando com “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” , conto que é nosso texto de análise, em 1950 o que resultou no livro as Crônicas de narnia. Sua autobiografia, “Surpreendido pela Alegria”, foi publicada em 1955.

Para facilitar a leitura , o próximo artigo falará a respeito da construção do mundo ficcional em Lewis.