Assistimos ontem ao avanço da proposta de implantação da Homeschool no Brasil. Inúmeras famílias, todas bem intencionadas e inocentes, estão sendo processadas e correm o risco de terem seus filhos tomados pelo Estado, com a justificativa de abandono intelectual. Como se a própria escola pública, sucateada, vilipendiada e ostentando, segundo  o PISA, os piores índices em relação a 70 países pesquisados, já não o tivesse feito: estamos entre os dez últimos do ranking em ciências (63º) e matemática (65º); em leitura, a modesta 59ª posição.

A prática do ensino domiciliar não introduz uma nova modalidade de ensino, mas recupera uma tradição que remonta à formação da Educação no Brasil. Os apoiadores e críticos falam sempre por seus interesses, a diferença é que de um lado, os interesses são legítimos, do outro, não. A quem interessa o monopólio da Educação? As críticas infundadas partem de vários segmentos, que são motivados pelo oportunismo ou pela ignorância: o establishment governamental que aparelhou os órgãos públicos , as editoras que superfaturam material didático, as escolas particulares que fizeram da educação um bom negócio, alguns pais temerosos de perder o depositário de seus filhos, professores que temem perder seus empregos, mesmo reclamando da má-remuneração. O espaço aqui seria pequeno para tentar demovê-los da luta insana que cruelmente travaram contra famílias responsáveis e amorosas.

Os primeiros educadores, jesuítas que catequizaram índios e colonos, aldearam as famílias e reservaram uma oca para ali reunir meninos, meninas e adultos para aprender a ler, escrever, contar e rezar. Escolas foram depois fundadas pela Companhia de Jesus com a mesma modalidade não-seriada (não havia divisão de séries, mas aprendia-se de acordo com a evolução acadêmica). O único projeto que o Brasil possuía era dos jesuítas, que foram expulsos pelo Marques de Pombal em 1759. A partir dessa data, o Brasil ficou acéfalo de projeto educacional, que tinha como base a Ratio Studiorum, o método pedagógico dos jesuítas.

Nesse contexto, começa o ensino domiciliar, pois com a ausência dos únicos professores do Brasil; Muitos puderam continuar a ensinar, contanto que renunciassem à Companhia e se unissem a outras ordens religiosas, como franciscanos ou dominicanos, que não tiveram suas ordens suprimidas. Entretanto, era uma minoria e as famílias que tinham mais condições financeiras optavam ou por enviar seus filhos para a Europa ou contratar tutores, que seriam os primeiros professores para o ensino domiciliar.

Dessa maneira, o hoje chamado Homeschool no Brasil teve início ainda quando éramos um reino ultramarino de Portugal. Com a vinda de d, João VI e da corte portuguesa, assim como se criaram universidades e bibliotecas, também foram construídas escolas. No Império, tanto d. Pedro I como d. Pedro II incentivaram o ensino de qualidade, em que os professores eram em pequeno número, mas de tal eficiência que no segundo reinado o número de analfabetos no Brasil, que era de 92%, no final de seu reinado baixou para 59%. Já havia uma tendência para o ensino laico, defendida inclusive por d. Pedro II, mas a República trouxe a obrigatoriedade do ensino e a institucionalização, utilizando os estabelecimentos de ensino como aparelhos do governo, prática que se aprofundou a partir de 1930, com as propostas de Anísio Teixeira, e se agravou com as ideias de Paulo Freire, no pós-guerra.

Como se observa em um breve panorama histórico, há uma gradação na supressão dos direitos individuais que começam na família, seja da criança, que perde o vínculo familiar devido à constante ocupação dos pais que começam a ver nas escolas mais que um lugar de ensino e aprendizado, mas a salvação para depositar seu filho enquanto a mãe trabalha.

Esse deslocamento de função da mãe para a professora, em primeiro lugar, atendeu apenas aos interesses de controle governamental, pois  quando as mulheres foram empurradas para o mercado de trabalho e o sistema paulatinamente desvalorizou os papéis de dona-de-casa e mãe, bem como a divisão natural de trabalho, transferindo para o Estado a responsabilidade de Educar, privou tanto a mãe quanto seus filhos de uma relação que transmitia a cultura ancestral e comunitária às novas gerações. Mesmo o pai, relegado a simples provedor da casa, foi privado do convívio e de seu papel histórico e tradicional de chefe de família, conselheiro e autoridade sobre o núcleo familiar.

Portanto, acolher o pedido de qualquer família que deseje educar seus filhos em casa é garantir a liberdade que foi sequestrada pelos governos e pelo próprio Estado ao longo dos anos, que reduziram o conceito de Educação a uma caixa com carteiras, lousa e professor.