Pesquisas acadêmicas nas áreas de Filologia, Lingüística e História constatam que o Tupi-Guarani foi a principal língua dos povos nativos do Brasil (antes do contato com os europeus) e chegou a tornar-se uma língua franca, usada entre índios e comerciantes portugueses, missionários, visitantes e administradores; sendo amplamente utilizado na região amazônica e no oeste do Brasil até o século XIX. Entre os europeus essa língua franca era denominada Tupian Language, que foi usada juntamente com Português como a língua geral do Brasil Colônia, e era estudada e ensinada pelos padres Jesuítas. Até então, quem chegava ao Brasil aprendia e estudava a língua local (Tupi antigo, chamado de língua brasílica) e se adaptava à nova realidade, exatamente como deve ser: quem vai viver em um lugar deve, impreterivelmente, adaptar-se às regras, aos costumes e aos hábitos locais; bem como aprender e comunicar-se na língua falada naquele lugar.

Em um dado momento a língua Tupi-Guarani foi proibida no Brasil, no entanto, foi impossível substituir o vasto vocabulário já construído. Um país de território enorme com uma biodiversidade das mais ricas (se não a mais rica) do mundo com termos devidamente nomeados e classificados, como substituir tudo? De fato, até os dias de hoje algumas palavras não têm tradução para o português e são usadas exatamente como em Tupi-Guarani tanto em língua portuguesa quanto em outros idiomas.

O português do Brasil seguiu ricamente preenchido com termos em língua nativa em níveis morfológico, semântico, sintático e/ou fonológico, principalmente, nas áreas da flora e da fauna como guaraná, arara, jaguar, jabuti, caatinga, capim, cipó, jacaré, tucano, urubu, açaí e mandioca, e toponímicos como Morumbi, Copacabana, Iguatemi, Ipanema, Pindamonhangaba, Itaquaquecetuba, Curitiba e Maracanã; de modo que é a língua nativa que fornece o alicerce semântico para as classes de Ciências, Veterinária, Botânica, Agricultura, Horticultura, Piscicultura, Hidrografia, Geografia; entre outras. Em suma, palavras em Tupi-Guarani, quem não as usa? Abacaxi, açaí, acaju, aipim, amendoim, angu , Aracaju, Araguaia, arara, Araraquara, baiacu, beiju, Butantã, caipira, Caraguatatuba, carioca, cajá,caju ,camu camu, canoa, capim, caramuru, carioca, cupim, curumim , cupuaçu, garopaba, gororoba, guabiroba, Guarapiranga, Iguaçu, iguatú, Ipiranga, itaigara, Itaipu, itaipuaçu, itapoá, Itororó, Jericoacoara, lambari, maloca, mandioca, maracujá, oca, paçoca, pamonha, Pará, Paraná, piaba, Piauí, pipoca, piracanjuba, pirarucu, porá, pororoca, tabajara, tapioca, tatu, tietê, tiririca, toca, tocaia, Tocantins, toró, tucunaré, Ubatuba, xará. E não pára por aí. É um vocabulário que enche um dicionário inteiro. Palavras que são diariamente usadas em língua portuguesa no Brasil, e algumas delas em outras línguas, como na língua francesa, por exemplo.

O Tupi-Guarani não morreu e tampouco é uma língua morta como algumas pessoas querem fazer crer. Não apenas a USP, UFF e a UFOPA possuem estudos nesta área, mas também as universidades de Oxford, Cambridge, Macau e Texas. Wolf Dietrich (professor emérito da cadeira de Filologia Românica (Lingüística) do Departamento de Línguas Românicas da Universidade de Münster (Noroeste da Alemanha, particularmente interessado em línguas da família Tupi na América do Sul, e que tem dentre seus projetos mais importantes o “Atlas Lingüístico Guaraní Románico” ) e Alain Fabre (pesquisador e lingüista da Universidade de Tecnologia de Tampere, Finlândia,  autor de Diccionario etnolingüístico y guía bibliográfica de los pueblos indígenas sudamericanos, com interesses em línguas indígenas, lingüística geral e lingüística comparativa das línguas fino-úgricas) são dois dos maiores estudiosos europeus em Tupian Language da atualidade.

Recentemente, as investigações em lingüística comparada em que a Tupian Language e a Japanese Language são contrastadas em uma relação de similaridade considerável têm sido estudadas em centros de pesquisas de universidades, tendo como base obras de Rokurō Koyama como o Vocabulario tupy-português-japonês, publicado em 1951, e que possui cópias guardadas nas bibliotecas da USP, da Cornell University (EUA), Wisconsin University (EUA) e da Leiden University (Holanda).

(** PDF – Japanese Encounters)

(** PDF – Japanese Encounters)

No Brasil, os maiores entusiastas no assunto foram José de Anchieta (Gramática de Língua Tupi, adotada para o ensino e Arte de Grammatica da Lingoa mais usada na costa do Brasil), Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro (autor de uma série de propostas ao governo do Império do Brasil para que fosse restituído o ensino do Tupi nas escolas do Brasil -1840), Teodoro Fernandes Sampaio (O Tupi na Geographia Nacional), Antônio Gonçalves Dias (Os Tymbiras – o Dicionário da Lingua Tupy) e o Imperador Dom Pedro II (Dicionário de línguas indígenas). Confira alguns manuscritos e originais sobre o ensino da língua Tupi e Dom Pedro II. (*)

A tentativa de estruturar uma cadeira denominada Tupinology parece não ter sido tão promissora outrora (especialmente nos anos 1940/1950) como se esperava; contudo, quiçá, os mais recentes estudos acadêmicos possam, de alguma maneira, revitalizar a Tupinologia, e conseqüentemente, o estudo da língua Tupi-Guarani.

(***) UFBA – Vida e obra de Teodoro Sampaio

(***) UFBA – Vida e obra de Teodoro Sampaio
Dom Pedro II citado juntamente com temas ligados a Tupinolgy e Tupinologists: ” Pedro II, que também considerava o Guarani uma língua nacional”
(****) Jesuits in Portuguese-Speaking America: A Historiographic Vacuum in Post-Restoration Period.

A nota de pé de página do trecho acima menciona o seguinte em relação a Dom Pedro II e o Tupi-Guarani:


(****) Jesuits in Portuguese-Speaking America: A Historiographic Vacuum in Post-Restoration Period.

Quem também manteve esforços para o incentivo ao ensino do Tupi foi João Café Filho que em 1954 publicou a lei 2311 que criava a cadeira de Etnografia Brasileira e Língua Tupi.

(*****) Disponível em LEXML

Estudar Tupi-Guarani significa um resgate e uma oportunidade de compreensão da história do país e da história da língua. É um laço indissolúvel cultural e de identidade nacional para o Brasil.

É inegável que o Brasil é um país bilíngüe onde a língua nativa (tupi-guarani) coexiste em harmonia com a língua portuguesa, e por isso mesmo, deve ser igualmente estudada.

Estudar Tupi-Guarani é voltar às raízes, à terra-mãe, representa a possibilidade de conhecer cada canto do país e toda a sua biodiversidade a partir da Etimologia, Etnolingüística e Estudos Culturais, um mergulho fascinante nessa terra chamada Brasil. E, um grande aliado para todos os estudantes que, certamente, terão mais êxito em disciplinas como Redação/ Escrita Criativa/ Produção de Texto, Leitura Vertical e Dinâmica, Língua Portuguesa e Fonética e Fonologia.

*Quando menciono “língua Tupi-Guarani” refiro-me à reunião das línguas e dialetos indígenas, que se convencionou classificar como língua Tupi-Guarani, especialmente para fins didático-pedagógicos. Que fique registrado que “língua Tupi-Guarani” é uma compilação de falares de diversos povos indígenas.

(*) Manuscritos e originais digitalizados
(**) Japanese Encounters – PDF

(***) Dissertação de Mestrado da UFBA – PDF

(****) Jesuits in Portuguese-Speaking America: A Historiographic Vacuum in Post-Restoration Period; ou leia: Wilde, Guillermo, Torre-Londoño, Fernando and Obermeier, Franz, “Jesuits in Portuguese-Speaking America: A Historiographic Vacuum in Post-Restoration Period”.

(*****) LEXML

Leia também:

Dicionário Tupi-Guarani

Palavras indígenas nomeiam a maior parte das plantas e animais do Brasil

Estudos nessa área: Professor e Pesquisador Eduardo Navarro da USP. (Clique aqui para ler).

UFF – Tupi Antigo em Filologia.org

DIAS, Gonçalves. Diccionario da Lingua Tupy, chamada lingua geral dos indigenas do Brazil. Lipsia: F.A. Brockhaus, 1858a.

Kaufman, Terrence. (1990). Language history in South America: What we know and how to know more. In D. L. Payne (Ed.), Amazonian linguistics: Studies in lowland South American languages (pp. 13–67). Austin: University of Texas Press. 

Fontes Americanae – Universidade de Macau – Tupi e Tupinology

NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Editora Global, 2013.

SIMPSON, P. L. Gramática da língua brasileira: brasílica, tupi ou nheengatu. 3 a ed. Rio de Janeiro. Impressores Fernandes, Neiva & C., 1926 [1877].

TASTEVIN, C. Grammatica da lingua tupy. São Paulo: Officinas do Diario Official, 1923 [Separata do Tomo XIII da Revista do Museu Paulista].

VOCABULÁRIO na língua brasílica: manuscrito português-tupi do século XVII, coordenado e prefaciado por Plinio Ayrosa. São Paulo: Departamento de Cultura, 1938.

VOCABULÁRIO na língua brasílica. 2. ed. rev. e confrontada com o ms. fg. 3144 da Bibl. Nacional de Lisboa por Carlos Drummond. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1952-1953. 2 v

Para ler O Tupi na Geographia Nacional acesse o link para PDF

O Tupi na Geographia Nacional, de Theodoro Fernandes Sampaio

Para saber mais sobre o Visconde de Porto Seguro e sua atuação na educação do Brasil Império leia:

A Questão Da Identidade Nacional Brasileira Na Obra História Geral Do Brasil De Francisco Adolfo De Varnhagen: Cultura E Educação

Livro completo disponível para leitura digital (FUNAG), em PDF:

Francisco Adolfo De Varnhagen

Para ler algumas obras do Padre José de Anchieta acesse:

ANCHIETA – Obras Na Biblioteca Nacional Catálogo da Exposição Comemorativa do IV Centenário de Falecimento do Padre José de Anchieta, S. J.

Comments are closed.