Por Hermes Rodrigues Nery

Cervantes se tornou um clássico justamente porque a problemática que aborda no seu Dom Quixote é a questão que perdura até hoje: o esforço de entender quem somos nós, porque somos do jeito que somos, nossos condicionamentos e extremos, as angústias profundas e os anseios mais elevados que nos causam perplexidade e nos maravilham, em todos os tempos e lugares. E mais: as motivações e obsessões, fobias e exageros, os condicionamentos e transgressões, em meio ao não saber como chegar ao equilíbrio necessário para nos mantermos vivos, dentro do já dado que recebemos enquanto herança genética, geográfica e cultural. E por sabermos que não somos somente humanos, mas destinados a uma realidade atemporal e eterna, nos lançamos à elevação espiritual, em busca da graça da vida verdadeira, que começa aqui a ser edificada.

A vida temporal por si só não basta, alude um verso pessoano. Dom Quixote parece ensandecido porque quer mais, não aceita o já dado, acha pouco, insuficiente as carnes de panela, as lentilhas e o conforto da lareira. E torna-se risível por isso; porque tudo isso parecem pretextos para evadir-se de si, como um suicida, mas não é. Não se conforma com o que hoje dizemos “politicamente correto”, com o amesquinhamento da vida, o reducionismo da realidade, que é muito mais do que se vê em aparência. Não se aceita prisioneiro de interesses, esquemas de vantagens, jogos pela manutenção das posses, mas anseia por louros que atestem sua nobreza de sentimentos. Quer viver tais sentimentos, num tempo em que ficou provado já não ser mais possível encarná-los sem se tornar ridículo, sem ir contra a corrente dos que se acomodaram em vegetar apenas e não viver fecundamente.

Mas há o risco do ideal de elevação se tornar idealismo, daí o perigo da boa intenção levar ao ensandecimento, daí a ironia de Cervantes, a sua advertência, em colocar Sancho Pança ao lado de Dom Quixote, como um equilíbrio necessário. Isso para que Dom Quixote não tome a sua obsessão como padrão de superioridade, a que todos devem se submeter, julgando sê-lo o melhor para todos e não aceitar que alguém se insurja contra o modelo ideal tomado como o mais perfeito. É Sancho Pança quem o faz evitar isso. Se não é Sancho Pança advertir, então Dom Quixote, em seu idealismo, faz com que qualquer outra referência seja vista como suspeita, por não ser capaz de vencer a idiotia, que reduz o ser humano a uma besta animal vegetando em artificialismos. Em nome deste valor, Quixote tende a se tornar um obcecado, perdendo o juízo por amor à uma ideia totalitária, unilateral, fantasista, narcisista e até inumana, por isso Sancho Pança o chama à realidade, para que ele não sucumba à falsa verdade, por ser perversa ilusão.

Cervantes é mais que um notável prosador, mas um escritor que disseca o tipo psicótico, cujos insights interpretativos nos fazem reconhecer o quanto se interessou pela complexidade do existir humano (e como sentiu a dificuldade de viver!), e quão profundamente dissecou os seus meandros labirínticos, nos deixando subsídios em abundância para que hoje possamos retomar o esforço de pensar as mesmas interrogações de sua época (e desde que o homem existe no mundo). Por isso relemos a sua obra máxima, com a expectativa de encontrar novas respostas, além do deleite da leitura, de vigor ficcional.

E Cervantes é genial não apenas por ter mergulhado a fundo naquilo que somos, mas por ter feito isso, com tal humor e ironia, fruto mais de sua rica experiência (cheia de sobressaltos) do que leituras acadêmicas. Ter perdido a mão esquerda na batalha de Lepanto lhe ensinou muito mais que Homero, Virgílio, e toda a caterva de intelectuais que fizeram fama à sombra dos poderosos.

A realidade superada

Dom Quixote diz oferecer a Sancho Pança a realidade superada, mas ele mesmo não consegue chegar lá, porque essa mesma realidade já não é real, transfigurou-se naquilo que não é possível manter com a fragilidade daquilo que nos compõem como pessoa humana. Para viver a realidade superada, seria preciso ser mais que humano, por isso Sancho Pança se esforça por Dom Quixote não se tornar inumano, ou o super-humano nietzschiano. Sancho Pança o acompanha então, como contraponto, como presença, com mais realismo. O risco do idealismo também se expressa no amor apenas idealizado. Dom Quixote ama Dulcinéia, mas de um amor não carnal, imaterial, puro demais, portanto, não correspondido, porque irreal. Mas mesmo assim ele a ama, do amor abstrato, etéreo, narcisista, desprovido da realidade.

E a primeira descoberta que fazemos, depois de tantas análises, é que em muitos momentos de nossa vida, se tomarmos a simbólica geral da narrativa, todos nós temos muito de Dom Quixote e Sancho Pança: o anjo e o demônio convive em nós, não somos nem anjo nem demônio, mas estamos entre forças antípodas, que ora nos puxa para um lado, ora para o outro, e não conseguimos um equilíbrio mínimo entre tantas contradições e conflitos. Podemos ser estraçalhados ou dominado pelas erínias, ou anulados de vez como pessoa, ou ensandecermos até o extremo da loucura, destruindo o que poderia ter sido preservado com o que de melhor possuímos. Por isso Santa Tereza d’Ávila tinha razão: cuidado, ao querer livrar dos seus demônios, de não expulsar com eles, os seus anjos.

Dom Quixote e Sancho Pança não representam forças maniqueístas (do bem x mal); mas forças potencializadoras de tendências que podem nos elevar ou rebaixar, nos fazer encontrar o centro do que somos, ou estrapolar, nos rodopiando por inteiro, até o delírio irreal e o desespero da perdição. A descoberta que fazemos hoje é que há coisas no Quixote abomináveis, como excelentes; e há também coisas no Sancho Pança admiráveis, como repugnantes.

Discernir o joio e o trigo das potencialidades humanas é a tarefa de todo aquele que, como Édipo, se propõe a responder o enigma da nossa condição no mundo: somos tudo isso e, com tanta potencialidade, como podemos nos expressar, o que queremos preservar, com o que podemos ser fiéis à nossa vocação e identidade? E como, com tudo isso, podemos sobreviver com dignidade, e oferecer algo de bom a nossa volta?

Cervantes expõe, com seu Dom Quixote, situações emblemáticas e arquetípicas, o questionamento que os gregos tão bem começaram a desenvolver, e que tanto a filosofia, as artes de um modo geral, as ciências e religiões, buscam, até hoje, decifrar o enigma da esfinge: o que é o homem? O realismo profundo de Cervantes equivale a outro gênio de seu tempo, Shakespeare, que morreu no mesmo mês e ano, e que adentrou com uma tal coragem nas entranhas psicológicas do ser humano, captando aspectos até então inusitados dos mistérios intrínsecos da nossa natureza.

Se a realidade não basta, idealizá-la também não basta

O ser ou o não ser hamletiano perpassa as páginas do grande romance cervantino. As andanças do Cavaleiro da Triste Figura parecem escapismos suicidas. Ele vê moinhos de vento como demônios a serem combatidos, acossado por síndrome persecutória, típica dos psicóticos que se encerram em si próprios, em sua própria alucinação e não conseguem mais estabelecer contato com o outro, e ninguém mais consegue comunicar-se com ele. E Dom Quixote às vezes então se utiliza de estratégias que funcionam para controlar e aterrorizar os demais: a retórica, a agressividade verbal, a dramatização, o escândalo, o donjuanismo, o formalismo, a excentricidade, e tantas outras táticas visando impactar e dominar a mente do outro. E o pior é que mesmo delirante e autista, manifesta um nível de inteligência incomum, capaz de seduzir e manipular, sem perceber instantes de monstruosidade e anormalidade.

O quixotismo (como fenômeno psicótico) tem sido encarnado por muitas personagens históricas da vida real (pensemos nos terroristas de hoje), que se embeberam pelo idealismo, até perderem o juízo, e se tornarem monstros totalitários.

O fenômeno psicótico do quixotismo é algo muito sério, ainda não devidamente estudado com a profundidade necessária. Hitler sofreu desse mal e tantas outras aberrações do idealismo. O führer talvez tenha sido o caso mais emblemático. O lunático idealiza uma situação pretérita ideal (a cavalaria andante, o Wahala) e seduz seguidores, que passam a acreditar na fantasia de modo obsessivo, e a impor a seus seguidores (a Sancho Pança) uma tal devoção e fidelidade, anulando a pessoa a tal ponto, que passa a não ser mais ela mesma, e sim um títere hipnotizado, que já não consegue mais discernir os limites da loucura e adere (muitas vezes movida pelo medo) ao horror do pesadelo totalitário.

A idealização da realidade provoca distorções perturbadoras, levando o alucinado (ou possesso) a projeções puritanas e propósitos excêntricos (castidade forçada, poucas horas de sono, vegetarianismo radical, etc.), além de posturas intransigentes, especialmente quando contrariado, interpretando ao pé da letra textos e feitos de antepassados, cujo heroísmo muitas vezes está dourado pelo romantismo; portanto, inteiramente inviável do modo como é concebido.

Dom Quixote é megalômano, quando faz de si a melhor imagem possível, e não admite que alguém lhe faça qualquer observação crítica. Vive do exagero, de ampliar ao máximo suas expectativas. Ele está certo, por se julgar uma alma especial, sente-se superior aos demais por julgar dotado de uma sensibilidade acima da média. Os outros sempre têm culpa pelas suas desgraças. Até seu Rocinante leva a culpa por não ter podido vencer os mercadores de Toledo. Seu apreço pela arte pode ser também às vezes expressão de fuga da realidade, sublimação e exacerbação de um fracasso seu (de sua imaturidade emocional) ou de uma concepção reducionista da condição humana, daí embebedeu-se nas leituras até perder o juízo. Sua valentia, seus arroubos e sandices verbais, são apenas rompantes, lavas de sua convulsão interior, ou o pûs de um câncer a lhe corroer por dentro o que já está condenado. Age por pura impulsividade, vocifera com fúria e impetuosidade, inflamadas cóleras contra o outro, para que se sintam atemorizados e se curvem assim aos seus caprichos. Mas tudo em vão. É apenas motivo de chacota. Acaba sendo vencido, porque não tem a força que julga possuir; ao contrário, suas armas, seu cavalo e tudo mais são facilmente reduzidos a farelo. Não podendo entender e aceitar as limitações e contingências do cotidiano, Dom Quixote (quando se distancia de Sancho Pança) enlouquece na transgressão surreal.

A psicose de Dom Quixote é efeito e não causa, especialmente nos efeitos da pós-modernidade: muitos idealistas (também no campo político) são efeitos de uma realidade pulverizada, sem chão sob os pés, onde ninguém mais leva a sério os valores edificantes e cada um busca tirar vantagem no salve-se quem puder do contexto de anomia e cinismo, de nocaute da pessoalidade, do primado da fantasia sobre a realidade (daí o sucesso da disneyzação global), onde não há mais humanidade, agrilhoada a todas as espécies de manipulações e ameaças, do bioterrorismo à nanotecnologia, sem que se saiba como evitar tais perigos.

O quixotismo, como efeito do idealismo, é uma resposta extrema, de quem perdeu o amparo, e não encontra mais suporte credível em meio à solidão, daí o desespero. Os idealistas, como Dom Quixote, se investem contra os moinhos de vento, e não se importam em morrer por isso, porque a vida se tornou inútil, estéril, e perdeu a sua razão de ser no niilismo. Isso e muito mais Cervantes pressentiu: a modernidade e a avalanche de dilemas que ela traria consigo.

Se a realidade perversa é causa da insanidade, portanto, da infelicidade humana, a via revolucionária se mostrou caminho falso que não leva à superação da realidade. A revolução foi portanto um dos terríveis engodos do idealismo. A realidade requer mais, não aceita ser engessada pelas ideologias do mal. A episteme é mais do que doxa. A verdade é simples como a cor tocante do céu que agora resplandece, a mesma coloração poética das épocas primevas. Ainda nos resta o céu como contemplação, daquilo que é e permanece, a despeito das inconstâncias do tempo histórico. A mesma cor visto pelas pupilas de Cervantes, são as que posso vislumbrar agora, mesmo em meio à narcose pós-moderna.

O risível em Dom Quixote é que, num determinado momento de culminância lúcida, insurge-se contra o que não aceita (o que todos nós não aceitamos) e perde a batalha ao encarnar o messianismo prepotente. Dom Quixote não é, portanto, um retrato apenas ficcional, mas a representação de uma tragédia real, pessoal e universal. Nobres valores fracassam quando impostos, de cima para baixo, condicionando, muitas vezes asfixiando (com a aberração do formalismo e da manipulação, e também da razão cínica), às vezes, impedindo a manifestação natural da inteligência e do afeto. Se a realidade por si só não basta, idealizá-la também não basta.

Pesquisadores do mundo inteiro vêm se debruçando, há quatro séculos, na obra magistral de Cervantes, cada um descobrindo um dado novo, sempre surpreendente sobre a nossa condição no mundo. Há muito o que tirar deste baú de ricos insights sobre a natureza humana. O que mostra, mais uma vez, a perenidade dos tesouros literários. Em cada uma dessas obras que resistem ao tempo e apaixonam as novas gerações, vamos conhecendo mais e mais sobre as misérias e os esplendores da condição humana. Temos muito ainda que aprender com Cervantes, especialmente sobre as raízes do mal-estar da civilização moderna, do ventre que pariu a besta totalitária, da anemia profunda do espírito contemporâneo, do triunfo dos homens-ocos (Eliot), e da ineficácia dos homens-bombas. O quixotismo (como crítica do conformismo) não soluciona as causas da injustiça, do autoritarismo e demais perversões humanas. Para além da loucura e da obsessão, há a verdade simples do mar, que encontra limite e sabe acalmar sua fúria ao chegar à praia, para oferecer suavidade e frescor.

Hermes Rodrigues Nery é autor do livro (inédito) “O BOSQUE VIVIDO”, de apontamentos sobre literatura e arte.