O historiador britânico Mark Mazower analisa a tragédia ideológica totalitária que atormentou o continente europeu no século XX

Por Hermes Rodrigues Nery Coordenador do Movimento Legislação e Vida

O século XX durou 75 anos: de 1914 a 1989. Alceu Amoroso Lima afirmou que a eclosão da Primeira Guerra Mundial significou não apenas a morte, mas “o suicídio de toda uma civilização”. Os acontecimentos pós-1914 confirmaram algo terrível: a humanidade perdera justamente aquilo que a fazia “humana”. A era pós-humana, iniciada em 1989, atesta o triunfo de uma concepção de indivíduo sem “identidade pessoal”, portanto,  profundamente infeliz. Afinal, o que aconteceu? Por que o século XX foi tão “desumano”? Esta indagação perpassa por quase todas as páginas de “Continente Sombrio – A Europa no Século XX”, do historiador britânico Mark Mazower.  
Exaustão ideológica
A “era dos extremos” encerrou-se sob o signo da exaustão ideológica. O continente europeu foi o laboratório dos piores experimentos totalitários, que traumatizaram populações inteiras. “A novidade da história européia não está na existência dos conflitos – explica o autor – porém em sua extensão”. “Aproximadamente 90 milhões de seres humanos foram mortos ou deslocados na Europa entre 1939 e 1948”. Ficou evidente, depois de tão intensos horrores, que as promessas da modernidade e das utopias sociais não se cumpriram. No esforço de entender o porquê do fracasso, Mazower mergulha, a fundo, no estudo da “alma européia”, para compreender as razões dos preconceitos e ambições, medos e violências, extremismos e contradições, aspirações e realizações dos europeus. O autor reflete as idéias e fatos marcantes, as mentalidades e comportamentos, as mudanças nos estilos de vida, e os efeitos das duas grandes guerras mundiais no cotidiano da Europa. Aborda, com vigor intelectual, a crise da democracia liberal, a derrocada dos impérios, o drama das minorias, as discriminações étnicas, os ideários totalitários; a “paz brutal” do pós-guerra, a construção da democracia popular no Leste Europeu, a democracia transformada da Europa ocidental, a crise do contrato social, a falência do comunismo e os desafios da Europa de hoje.  A análise sobre a crise e o esfacelamento da família é brilhante. No capítulo “Corpos sadios, corpos doentes” elucida, entre outras questões, o fenômeno do feminismo, mais como conseqüência do que como causa, o que ajuda a entender as contradições, conflitos interiores e infelicidades que atormentam homens e mulheres, no mundo de hoje. E expõe as razões históricas de tal problemática. Ainda em “A democracia transformada: a Europa ocidental, 1950-75”, aborda, com grande profundidade, o fenômeno do individualismo, do pragmatismo e do consumismo hedonista e outros aspectos relevantes (como a “americanização da Europa”) para uma melhor compreensão do mal-estar pós-moderno.  
O “ovo da serpente” não foi debelado
Como explicar o horror do totalitarismo, especialmente a cumplicidade e o envolvimento de indivíduos e instituições para viabilizar as estruturas de poder criadas pela monstruosidade do autoritarismo? A utopia eugênica dos nazistas, por exemplo, continua ainda hoje uma grande tentação e um perigo real, tendo em vista o potencial e a persistência daquelas ambições entre muitos biogeneticistas que esperam, com o Projeto Genoma, chegar à “casta perfeita de indivíduos”, com biotipos modelares. Os que não tiverem tais características poderão também não ser só excluídos do sistema social da qual fazem parte, como (da mesma forma que no passado), eliminados da sociedade. “O ovo da serpente – afirma Mazower – pode não ter sido totalmente esmagado”. Apesar da atual prosperidade material da Europa, persistem problemas de discriminação, racismo e arrogâncias antigas. O caos resultante de toda a turbulência devastadora do século XX é visível não só na Europa, mas em todo o mundo: destruição da família (legalização do aborto, esterilizações, divórcios, cohabitações inconsistentes, permissividade sexual), desemprego, violência urbana, instabilidade generalizada, estilos suicidas de vida, desequilíbrios e devastações ambientais, patologias sociais, aumento da criminalidade e do terrorismo, do consumo de drogas, da alienação cultural, do vazio espiritual, do não ter ao que se ater, da falta de um sentido “humano” de vida.
As sombras da barbárie
“A Europa parecia destinada a tornar-se o modelo de humanidade”, mas foi sucumbida por sombras que obscureceram seu brilho cultural e expuseram a face da barbárie que ela não tem sabido lidar e sempre quis ocultar.  Se as promessas da modernidade não se realizaram, quem as realizará? E como? Vale a pena realizá-las? O que, de fato, elas queriam? Que concepção de “pessoa humana” elas tinham? Se fracassaram historicamente, são defensáveis? E o que poderá substituí-las, transcendê-las, para motivar novas esperanças? Esta é a sensação que fica quando terminamos de ler a obra de Mark Mazower.   É de se lamentar que o autor tenha escrito 464 páginas para falar da “Europa no século XX” e, especialmente, dos seus terríveis dramas ideológicos, e não fazer sequer uma citação do papa João Paulo II, em toda a obra. Ao contrário do que se pensou, a Igreja sobreviveu ao século XX. E o papa Wojtila, mais do que ninguém, ao abrir e fechar as portas do ano Santo de 2000, confirmou que o que a Igreja oferece como “fundamento e valor de vida” é superior a todas as ideologias temporais. Ela continua tendo o que dizer e anunciar como perspectiva de vida. “A raiz do totalitarismo moderno – diz o papa, na encíclica Centesimus Annus –  deve ser individuada, portanto, na negação da transcendente dignidade da pessoa humana”. Uma síntese que poderia servir de epígrafe ao trabalho de Mazower. 

do livro “O Bosque Vivido”, apontamentos sobre literatura e arte. por Professor Hermes Rodrigues Nery