Ingressos custando R$ 8.800 por pessoa para um show de rock no Brasil já foram todos vendidos, e em poucos dias. O show é parte de um evento que conta com apresentações de outros conjuntos musicais, e cujos ingressos também já estão esgotados; fato que causou espanto em muita gente. Como ingressos tão caros foram vendidos tão rapidamente?

É, no mínimo, curioso pensar que em um país como o Brasil em que milhares de crianças passam fome e vivem abaixo da linha da miséria, algo assim possa ocorrer. Cogitemos que os compradores, quiçá, sejam todos estrangeiros ricos… Uma vez que pensar que compatriotas o tenham feito, é, digamos, inquietante.

Evidentemente, as pessoas são livres para gastar seu dinheiro da forma como bem entenderem. No entanto, o que causa interrogações é que não se vê esse mesmo entusiasmo quando o tema é educação ou serviços acadêmicos. Uma tradução a 80 reais é cara. Uma aula a 100 reais é cara. Um livro a 500 reais é caro. Um curso a 1.000 reais é caro. Um show a R$ 8.800 não é caro? Cabe, magistralmente, esquadrinhar: qual seria o critério?

Gosto pessoal?

Decerto, é compreensível que ver um “ídolo” ao vivo (ainda que a tantos metros de distância e por algumas poucas horas) possa parecer mais empolgante do que um ano de estudos, por exemplo; contudo, ao se pensar friamente sobre a indagação supracitada, qual das situações teria mais chances de transformar a vida de uma pessoa: um show de rock ou uma educação de alta qualidade?

Analisemos o fato à luz do Consumo Consciente (também denominado Consumo Responsável ou Inteligente) assunto que tem sido trabalhado em disciplinas como Antropologia do Consumo; e significa justamente consumir com inteligência e sem desperdícios, pressupondo, necessariamente, um comportamento em que os consumidores figuram como pesquisadores inteligentes. O ponto focal está na decisão de comprar qualquer coisa ou comprometer-se com um negócio que é pensada previa e cuidadosamente. Por meio dessa perspectiva de custo-benefício (isto é, meditar sobre que benefícios há – curto ou longo prazo – nessa compra ou nesse negócio) levanta-se as seguintes ponderações:

Que melhoramentos isso trará para a minha vida e para a vida de minha família?

Que tipo de conhecimentos é possível adquirir?

Consigo empreender a partir das informações obtidas?

Quanto valor essa compra (negócio) agrega a meu currículo acadêmico?

Essa compra (negócio) retornará para mim de que maneira(s)?

No que essa aquisição me ajuda a tornar-me mais produtivo, mais ativo e mais criativo em minha ocupação profissional ou em minha vida familiar cotidiana?

Que espécie de investimento é esse? Que lucros poderei obter?

O que sou capaz de construir após minha aquisição?

A vida inteligente é um conceito bastante amplo de pensamento e de comportamento saudável que está completamente relacionada à Educação, ao Consumo Consciente, à Economia Inteligente, ao Desenvolvimento Humano Integral e à vida auto-suficiente.

Especificamente no que concerne à educação, considera-se essa área como um setor de investimento em capital humano. O capital humano pode ser descrito como conhecimento, habilidades e talentos de um indivíduo, adquirido através da educação, treinamento e experiência, o que o ajuda a ser mais produtivo e, assim, melhorar o potencial de geração de renda, simplesmente porque a educação tem um impacto positivo no desenvolvimento econômico geral do país. Estudiosos como Gary Becker (Becker, G.S. 1964. Human Capital: A Theoretical and Empirical Analysis with Special Reference to Education. New York: National Bureau of Economic Research) e Jacob Mincer (Mincer, Jacob A., 1974, Schooling, Experience, and Earnings. National Bureau of Economic Research) enfatizam o fato de que investindo-se em seres humanos obtém-se algumas formas de benefícios no futuro. Para os pesquisadores Robert Lucas (Lucas, R. 1988, On the Mechanics of Economic Development, Journal of Monetary Economics, 22 (1), pp. 3-42) e Paul Romer (Romer, P. 1986, Increasing Returns and Long-Run Economic Growth, Journal of Political Economy, 95 (5), pp.1002-1107) o capital humano é um dos componentes mais importantes do desenvolvimento econômico sustentável de um país, pensamento que encontra acolhida na linha de raciocínio do acadêmico e macroeconomista Robert Joseph Barro (Barro, R. J. 1991, Economic Growth in a Cross Section of Countries, Quarterly Journal of Economics, 106 (2), pp. 407-443) que considera que a educação e o crescimento econômico são assuntos altamente correlacionados.

De acordo com a UNICEF, Educação é o investimento mais poderoso para o futuro, visto que a educação não é apenas boa para as crianças, é boa para as nações. Investir em educação não é apenas a coisa certa a fazer, é economia inteligente.

“A educação pode colocar as pessoas no caminho da boa saúde, capacitação e emprego. Pode ajudar a construir sociedades mais pacíficas (…) As evidências mostram que, em média, cada ano adicional de educação aumenta a renda de uma pessoa em 10% e aumenta o PIB de um país em 18%. Alguns pesquisadores estimam que, se cada criança aprendesse a ler, cerca de 170 milhões de pessoas a menos viveriam na pobreza (…) Estas questões, e outras mais, são abordadas em um novo relatório da UNICEF: O Caso de Investimento para Educação e Equidade , que lancei hoje…” (Yoka Brandt, Diretora Executiva Adjunta do UNICEF, Fórum de Davos, 2015)

UNICEF

A vida inteligente pode e deve começar. Estamos no século XXI. Não é possível que a mentalidade das pessoas continue como no tempo das cavernas…

Crédito da imagem: Blog Descomportamento