A coroa sinaliza que clubes apoiam (ou recebem apoio) da Casa Real Espanhola. A origem desse apoio, porém, é mais complexa e necessita de um mergulho na própria história do futebol daquele país para entendê-la. É importante ressaltar que a presença da realeza no futebol espanhol não é notória apenas na coroa, estilizada ou não, no escudo dos clubes, mas na própria adoção do nome ‘Real’ em várias agremiações (Real Madrid, Real Betis, Real Valladolid, Real Zaragoza, entre outros), Federações Territoriais e na própria denominação da Federação Espanhola (Real Federación Española de Fútbol).
No final do século XX, a tauromaquia era a diversão nacional na Espanha. Em contraposição a essa atividade, fortemente arraigada na cultura do país, cidades portuárias (ou bem próximas a portos) permitiam grande conexão internacional, principalmente com os britânicos, recebiam e adotavam as novidades vindas da grande ilha, entre elas esportes criados ali, como o cricket e o futebol. Era o caso de Bilbao e Barcelona (duas cidades pertencentes, respectivamente, ao País Basco e à Catalunha, regiões tradicionalmente separatistas). Na primeira, a alta integração entre nativos e funcionários de empresas britânicas em atividade na Espanha foi um dos motivadores para a criação de um clube local, o Athletic Bilbao, em 1898. E a administração de Barcelona, desde o final do século retrasado, investiu na formação da imagem da cidade como um polo de modernidade dentro da Espanha, sendo o futebol, esporte em plena ascensão, um símbolo de suas aspirações. Já a capital Madri, grande centro financeiro espanhol, não era portuária, mas recebia muitos britânicos por conta de atividade comercial, o que também levou a cidade a incorporar as disputas futebolísticas em seu cotidiano.
Outras cidades, menores, e sem esse grau de integração com o estrangeiro, apresentavam alta resistência ao novo esporte, mantendo as touradas como sua diversão principal. Portanto, na pré-história do futebol espanhol, a predominância era dividida entre as cidades de Bilbao, Barcelona e Madri.
Onde entra a monarquia nessa história? Em 1902 foi disputado o primeiro torneio de futebol no país, a Copa da Coroação (atual Copa Del Rey), no reinado de Afonso X, bisavô do atual rei espanhol, Felipe V. Carlos Padrós, presidente da Federação Madrileña de Futebol, organizou o campeonato com a finalidade de homenagear a coroação do monarca, que havia completado 16 anos e assumiria o trono. Foi disputada por cinco clubes: Barcelona, Madrid (o futuro Real Madrid), New Foot-Ball (de Madri), Español (o atual Espanyol) e Viscaya (o Athletic Bilbao reforçado por jogadores do País Basco). Na final, o Bilbao venceu o Barcelona por 3 a 1 e ficou com o troféu.
O rei Alfonso X acabou se revelando um entusiasta do esporte, muito por motivações políticas. Com Barcelona e, principalmente, Bilbao, dominando o futebol espanhol no começo do século (sediados em regiões totalmente antimonarquistas), aproximou-se dos clubes que vinham surgindo em outras cidades, permitindo o uso do maior símbolo da monarquia, a coroa, em seus escudos, além da adoção do nome ‘Real’ antes da denominação oficial da agremiação. Em 1909, dirigentes do Club Deportivo de la Sala Calvet oferecem a presidência de honra ao rei Alfonso X, que retribui permitindo a utilização da coroa no escudo e o Real no nome, com o clube passando a se chamar Real Club Deportivo de La Coruña. No mesmo ano, depois de um racha no Sevilla, surge o Betis. Pedro Rodríguez de la Borbolla, parente do presidente do clube e ministro do rei Alfonso X, consegue que o rei outorgue ao clube o título de Real e autorize a coroa no escudo.
Nos anos seguintes a relação entre os clubes e a monarquia ‘vira moda’, e vários são autorizados a mostrar isso em seus nomes e escudos. inclusive em território ‘inimigo’, como a Sociedad de San Sebastian (virou Real Sociedad) e o Español de Barcelona (hoje o Real Espanyol). O Madrid Football Clube, fundado em 1902 e que desde o início revelou sua simpatia pela monarquia, recebeu a agraciação tardiamente: virou Real Madrid somente em 1920. O caso extremo de simpatia ao regime político veio do Mallorca, que foi fundado em 1916 com o nome de Alfonso X FBC. Em 28 de junho daquele ano, o rei Afonso X honrou a equipe com o título de Real Sociedad, que passou a se chamar Real Sociedad Alfonso X.