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Brasileiros realmente falam português?

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Sob o título “Brazil: A country without a language” (Brasil: um país sem uma língua) e o subtítulo “Brazilians speak Portuguese. But do they really?” (Brasileiros falam português. Mas eles realmente falam?” Estudante de Doutorado na Universidade Ártica da Noruega traz à baila a antiga polêmica sobre a língua portuguesa falada no Brasil, extremamente enriquecida por Tupi-Guarani, incrementada por palavras de origem africana e com uma vasta quantidade de estrangeirismos (barbarismos) que vão desde palavras de origem escandinava até termos de origem japonesa, ou seja, um conjunto robusto semântico que distancia o português falado no Brasil do português falado em Portugal, a pátria-mãe da língua. 

Em matéria para a Science Nordic, Tammer Castro apresentou suas considerações e levantamentos realizados em sua pesquisa a respeito da controversa questão, os quais seguem reproduzidos na íntegra:

“Por muitos anos, fatores socioeconômicos desencadearam ondas de brasileiros que se mudaram para o exterior, em busca de melhores oportunidades. Muitos de nós escolhem Portugal, porque aparentemente não há necessidade de aprender uma nova língua. Ao chegar, os brasileiros descobrem que a barreira lingüística entre o português brasileiro e o europeu ultrapassa as distinções de sotaque e se estende ao contexto social, gerando situações desconfortáveis ​​e desagradáveis. 

“Você fala brasileiro, não português”

Como parte da minha pesquisa de Doutorado na Universidade Ártica da Noruega, passei vários meses em Portugal, interagindo ativamente com a comunidade brasileira para tentar investigar o que acontece depois que eles são expostos a essa nova realidade linguística.

Como pessoa que nasceu no Brasil, mas que foi cresceu nos Estados Unidos, e depois foi morar na Noruega nos últimos quatro anos, senti particular curiosidade sobre as implicações sociais de ser um residente quando a barreira do idioma é menor, pelo menos na superfície.

Acontece que os brasileiros não são estranhos a muitos dos problemas que ocorrem em comunidades de imigrantes em outros lugares. Curiosamente, muitos mencionaram que foram discriminados por falarem brasileiro, o que tecnicamente ainda não foi categorizado como uma língua. 

De fato, no Brasil, somos ensinados que a língua que falamos é o português, então alguma confusão está prestes a acontecer quando ouvimos que muitos falantes de português europeu usam o termo brasileiro para se referir à língua usada no Brasil.

Mude a maneira como eles falam

As diferenças entre o português brasileiro e europeu fizeram com que um pedaço da população portuguesa tratasse o primeiro como uma variante quebrada, e não um português adequado como falado na Europa.

Naturalmente, para evitar a discriminação e facilitar sua integração na sociedade, muitos brasileiros em Portugal se esforçam para aprender o português europeu. Isso pode ser visto como um mecanismo de defesa. No contexto dos Estados Unidos, por exemplo, os sulistas que se deslocam para o norte muitas vezes tentam mascarar seu “sotaque sulista” de modo a não serem rotulados como rurais, sem educação ou caipiras ​​- entre outros adjetivos não tão lisonjeiros.

Outros afirmam que não deveriam ter que mudar a maneira como falam, porque o português é português, seja no Brasil, em Portugal, na África ou na Ásia. No entanto, todos os brasileiros que participaram do meu estudo mostraram alguma influência do português europeu, quer tenham feito um esforço consciente para aprendê-lo ou não. 

Como é tipicamente o caso das línguas em contacto, a primeira língua pode ser influenciada por muitos anos de exposição diária a uma segunda língua, mesmo num contexto em que as duas línguas são tão semelhantes – e, ao mesmo tempo, tão diferentes.

Deve haver uma divisão?

Devo dizer que não discordo particularmente dos portugueses. De fato, sou muito a favor de uma divisão oficial entre brasileiro e português, já que os dois sistemas evoluíram gradualmente em diferentes direções. 

No contexto escandinavo, noruegueses, suecos e dinamarqueses ainda conseguem se entender, apesar de falarem línguas diferentes. A principal diferença é que, uma vez que norueguês, sueco e dinamarquês foram politicamente definidos como três idiomas distintos, não é possível afirmar que o sueco é “dinamarquês errado”, por exemplo.

Até esta divisão se tornar oficial, esta continuará a ser uma questão sensível para a comunidade brasileira em Portugal, a quem se diz que não falam a única língua oficial do seu país, mas sim um “dialecto falhado”, cheio de imperfeições gramaticais. Se o brasileiro oficialmente se tornar uma língua, pelo menos os imigrantes brasileiros em Portugal não ouviriam mais que não podem falar apropriadamente sua própria língua.”

Tammer Castro é membro do Departamento de Língua e Cultura da Universidade Ártica da Noruega, na área de PesquisaScience Nordic 

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Clarissa Xavier

A professora é voluntária e colabora com artigos nas áreas de educação e estudos religiosos para periódico e livros do Grupo Duna.
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