O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as perfeições de todos os santos, foi para que nele achássemos junto o que nos outros se acha dividido. Como o maná tinha o sabor de todos os manjares, Santo Inácio é um compêndio de todos os santos. (Sermão de Santo Inácio, canto VII)

Comemoramos neste 31 de julho o dia de Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus. Todos os anos nesta data historiadores, jornalistas, teólogos e jesuítas publicam com justiça artigos em sua homenagem. Não vou me fazer exceção, humilde professora e devota da Companhia, que tem o privilégio de colocar em prática a fé inaciana que nos move às orações e aos Exercícios Espirituais, bem como a pedagogia da Ratio Studiorum, a metodologia tradicional que se tornou universal por sua proposta didática de união entre a razão da mente e a espiritualidade do coração como caminho certo rumo ao conhecimento.

Diferentemente de meus colegas estudiosos de jesuitismo, hoje presto homenagem ao aniversariante pela pena de Vieira ao analisar trechos de seu “Sermão de Santo Inácio”, pregado em Lisboa, no Real Colégio de S. Antão, no ano de 1669. Será ele, portanto, que está muito mais próximo a Inácio na cronologia e no espírito que eu, a prestar essa homenagem ao Santo que todos nós deveríamos (ou gostaríamos de) ser.Você pode ter acesso ao texto na íntegra aqui “Sermão de Santo Inácio”  

Vieira inicia seu sermão (hoje Homilia) destacando Santo Inácio dos demais santos, por seu chamado especial:

“Admirável é Deus em seus santos, mas no santo que hoje celebra a Igreja singularmen­te admirável. A todos os Santos manda Cristo neste Evangelho que sejam semelhantes a homens: Et vos similes hominibus (Lc. 12, 36). Mas assim como há grande diferença de homens a homens, assim vai muito de semelhanças a semelhanças. Aos outros santos manda Cristo que sejam semelhantes aos homens que servem aos senhores da terra; a Santo Inácio manda-lhe Cristo que seja semelhante aos homens que serviram ao Senhor do céu”. (I)

Ele aborda os fundamentos da santidade que diferenciaram Santo Inácio. Por maiores que sejam os santos que serviram aos homens, em nome de Deus, maior que todos foi Santo Inácio, que serviu diretamente a Deus, como explica em relato sobre sua biografia:

“Jazia Santo Inácio, (não digo bem), jazia Dom Inácio de Loiola, malferido de uma bala francesa, no sítio de Pamplona. (…) Con­siderava-se capitão, e espanhol, e rendido, e a dor lhe trazia à memória, como Roma em Cipião, e Cartago em Aníbal, foram despojos de Espanha. Os Cides, os Pelaios, os Viriatos, os Lusos, os Geriões, os Hércules, eram os homens com cujas semelhanças heróicas o anima­va e inquietava a fama; mais ferido da reputação da pátria que das suas próprias feridas. Cansado de lutar com pensamentos tão vastos, pediu um livro de cavalerias para passar o tempo. Mas, ó providência divina! Um livro que só se achou, era das vidas dos santos. Bem pagou depois, Santo Inácio em livros o que deveu a este. Mas vede quanto importa a lição de bons livros. Se o livro fora de cavalerias, sairia Santo Inácio um grande cavaleiro: foi um livro de vidas de santos, saiu um grande santo. Se lera cavalerias, sairia Santo Inácio um cavaleiro da ardente espada; leu vidas de santos, saiu um santo da ardente tocha. Toma Inácio o livro nas mãos, lê-o ao princípio com dissabor, pouco depois sem fastio, ultimamente com gosto, e dali por diante com fome, com ânsia, com cuidado, com desengano, com devoção, com lágrimas.”

E sobre o papel da leitura que modificou sua alma:

“Lia as vidas ou as mortes valorosas dos mártires, e com sede de derramar o sangue próprio, quem tinha derramado tanto alheio, sacrifica-se a ir buscar o martírio a Jerusalém, oferecendo as mãos desarmadas às algemas, os pés aos grilhões, o corpo às masmor­ras, e o pescoço aos alfanjes turquescos. Lia finalmente as vidas e as peregrinações dos apóstolos, e soando-lhe melhor que tudo aos ouvidos as trombetas do Evange­lho, toma por empresa a conquista de todo o mundo, para dilatar a fé, para o sujeitar à Igreja, e para levantar novo edifício sobre os alicerces e ruínas do que eles tinham fundado. Isto era o que Inácio ia lendo, e isto o que juntamente ia trasladando em si e imprimindo dentro na alma.” (I)

Uma das diferenças profundas de Inácio para outros santos foi o início de sua conversão. A iluminação que a outros veio por visões, obras e tradição, a ele veio pela leitura de dois livros que ele foi obrigado a ler, em sua convalescença por estar acamado: A vida dos Santos e Imitação de Cristo. Dois livros, apenas, que mudaram sua vida e o tornaram santo. Duas boas leituras que valeram por uma biblioteca. Duas obras que Deus colocou em suas mãos como presentes e dons para sua santidade. Daí para reconhecer sua missão de levar o Evangelho a todos os povos, em todos os continentes da terra, foi um átimo. Antes disso, entretanto, passou por todas as provas para encontrar a missão que Deus lhe confiaria:

“Do patriarca, pai de tantos patriarcas, S. Bento, estendendo o Monte Cassino por todo o mundo, tomou Santo Inácio as escolas e a criação dos moços. Para quê? Para que na prensa das letras se lhes imprimam os bons costumes, e estudando as humanas aprendam a ser homens. Do patriarca S. Bernardo, anjo em carne, e por isso irmão de leite de Cristo, tomou Santo Inácio a angélica pureza Em ambos foi favor especial da Mãe de Deus, mas em Santo Inácio tão singular, que desde o dia de sua conversão, nunca mais, nem no corpo, nem na alma, sentiu pensamento contrário. E sendo os maiores inimigos da castidade os olhos, naqueles em quem punha os olhos Santo Inácio infundia castidade.” (I)

A seguir, Vieira justifica a universalidade da missão de Santo Inácio, pois é possível se identificar com ele em sua humanidade presente nos diversos papéis que exerceu:

“Nasceu fidalgo, foi corte­são, foi soldado, foi mendigo, foi peregrino, foi preso, foi estudante, foi graduado, foi escritor, foi religioso, foi pregador, foi súdito, foi prelado, foi legislador, foi mestre de espírito, e até pecador foi em sua mocidade; depois, arrependido, peniten­te e santo. Para quê? Para que todos achem tudo em Santo Inácio. O fidalgo achará em Santo Inácio uma ideia da verdadeira nobreza; o cortesão, os primores da verdadeira polícia; o soldado, os timbres do verdadeiro valor. O pobre achará em Santo Inácio que o não desejar é mais certa riqueza; o peregrino, que todo o mundo é pátria; o perseguido, que a perseguição é o caráter dos escolhidos; o preso, que a verdadeira liberdade é a inocência. O estudante acha­rá em Santo Inácio o cuidado sem negligência; o letrado, a ciência sem ambição; o pregador, a verdade sem respeito; o escritor, a utilidade sem afeite.O religioso achará em Santo Inácio a perfeição mais alta; o súdito, a obediência mais cega; o prelado, a prudência mais advertida; o legislador, as leis mais justas. O mestre de espírito achará em Santo Inácio muito que aprender, muito que exercitar, muito que ensinar, e muito para onde crescer. Finalmente o pecador, por mais metido que se veja no mundo e nos enganos de suas vaidades, achará em Santo Inácio o verdadeiro norte de sua salvação; achará o exemplo mais raro da conversão e mudança de vida; achará o espelho mais vivo da resoluta e constante penitência e achará o motivo mais eficaz da confiança em Deus e na sua misericórdia, para pretender, para conseguir, para perseverar e para subir ao mais alto cume da santidade e graça, com a qual se mede a glória.” (VII)

A cada dia 31 de julho sentimos a presença de Santo Inácio, de seus ensinamentos, de seu exemplo de humildade e sabedoria, pois apesar de ter sido o leitor proficiente que foi, não se furtou à vaidade do conhecimento epistemológico, nem do orgulho ou da arrogância acadêmica, tão comuns nas universidades de todos os tempos, mas preferiu convidar a todos para o aprendizado que vem da experiência de estar em comunhão com  Jesus Cristo; ““Não é o muito saber que sacia e satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente” (Exercícios Espirituais 2, 4)

 

 

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