A agenda da ONU e a influência no Sínodo da Amazônia, com o Corredor Triplo A, que visa a internacionalização da Amazônia.

Na íntegra entrevista com Hermes Rodrigues Nery, Coordenador do Movimento Legislação e Vida, concedida ao jornalista Lorenzo Bertocchi (La Veritá, Milano).

Sobre a Fundação Gaia: qual ideologia a suporta?

A ideologia da The Gaia Foudation está nas premissas filosóficas e objetivos políticos engendrados na ECO-92, de onde saiu a “Carta da Terra” e a Agenda 21, hoje ampliados nos objetivos da Agenda 2030. O viés malthusiano contido no conceito de “desenvolvimento sustentável” já vem desde o relatório “Os limites do crescimento”, de 1972, do Clube de Roma. Para entender bem tal ideologia, recomendo a leitura do artigo “The hoax behind the 1992 Earth Summit”, publicado pela Executive Intelligence Review (Volume 18, Number 37, September 27, 1991).

Tais são os objetivos políticos: 1) fim da soberania nacional: “o conceito de um mundo global substituirá o de uma ‘comunidade de princípios’ baseada na soberania nacional inviolável. As florestas, os rios, os minerais e outros recursos biológicos de uma nação não seriam mais vistos como parte de seu patrimônio nacional, para serem aproveitados pelo bem-estar e desenvolvimento de sua população. Em vez disso, eles seriam considerados a ‘herança’ da humanidade, garantindo uma regulamentação global juridicamente vinculativa”; 2) Despovoamento: com a falácia neomalthusiana de que o crescimento populacional põe a perder a sustentabilidade dos sistemas biológicos da Terra, justificando assim o controle populacional por métodos como o aborto e a esterilização, etc.; 3) apartheid tecnológico: o desenvolvimento das nações emergentes seria submetido ao apartheid tecnológico, com restrições ao acesso de tecnologias avançadas, dificultando as chances de crescimento “para superar o subdesenvolvimento, enviando muitos de volta para tempos pré-industriais”. Um exemplo disso: “as nações subdesenvolvidas teriam a tecnologia de refrigeração em larga escala negada, de modo crítico para resolver as necessidades alimentares da sua população”; 4) crescimento econômico zero, tendo como prioridade as preocupações ambientais com o chamado “desenvolvimento sustentável”, “na prática, o desenvolvimento das nações pobres deve cessar para salvar o meio-ambiente”; 5) o atraso forçado: “sob a bandeira da defesa dos ‘direitos indígenas'” estaria se encorajando “as nações em desenvolvimento a retornarem aos dias ambientalmente sustentáveis da Idade da Pedra”; 6) arrecadação da dívida com o desenvolvimento sustentável: em vez das nações pobres utilizarem de seus recursos para se desenvolverem, seriam ‘forçadas a canalisar ainda mais seus recursos para o pagamento da dívida” com os países ricos, pressionadas, muitas vezes, a entregar parte de seus territórios para “proteção ambiental”; favorecendo os que financiam o movimento ambientalista e 7) Paganismo: com objetivo principal de “mudança de paradigma cultural”, destruindo a ideia do homem como “imagem e semelhança de Deus”, “substituindo por crenças pagãs que igualam o homem a todas as outras espécies animais”. 

Tais objetivos políticos contrariam a sã doutrina católica (moral e social). Para compreender melhor esta mudança de paradigma cultural, e o modus operandi de agentes e organizações da ONU (e outros organismos internacionais) para instrumentalizar os setores mais progressistas da Igreja para a aceitação da agenda ecológica com tais pressupostos filosóficos e objetivos políticos, recomendo a leitura do livro “Poder Global e Religião Universal”, de Juan Cláudio Sanahuja, que faz um diagnóstico muito preciso dessa questão. Poder Global e Religião Universal

Ecologismo e ecumenismo convergem para tais fins, colocando em risco à sã doutrina católica. Muito preocupante portanto como bispos e cardeais (que deveriam ter o compromisso com a defesa da sã doutrina católica), abraçaram a agenda da “Carta da Terra”, e colaborado para que o projeto de poder global da ONU, por uma “nova religião mundial, anticristã, sincrética, niveladora e panteísta” seja executado (com estratégia chomskiana), para que o culto a Gaia (a Mãe Terra) substitua lenta e gradualmente a verdadeira fé católica. Uma religião universal “que abandona a mensagem salvífica de Cristo”. Por isso causa estranheza e perplexidade entre os católicos a constatação de que muitos dos ideólogos e ativistas ambientalistas com essa mentalidade transitam hoje com muito desenvoltura nas dependências do Vaticano, dando palestras e influenciando a atual política ecológica da Igreja, como por exemplo, o globalista Martín von Hildebrand, fundador da Gaia Amazonas (vinculado à The Gaia Foudation), com sede em Londres.

Quais movimentos políticos estão ligados?

Há hoje uma proliferação de OnGs trabalhando para disseminar e executar a agenda elaborada na ECO 92, de modo especial, na questão da Amazônia, há um interesse especial da Coroa Britânica (a Casa de Windsor), em apoiar muitos grupos ambientalistas, visando relativizar o conceito de soberania, para justificar no momento apropriado a “internacionalização da Amazônia”. São grupos que agem integrados (Greenpeace, Amigos da Terra Internacional (FOEI), Programa das Nações Unidas – PNUMA, União Mundial para a Natureza (UICN), a FAO, a UNESCO, a OIT, o Fundo para a População das Nações Unidas – FNUAP, dentre tantos), com a mesma pauta de interesses, com recursos obtidos pelo Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, Cruz Verde Internacional, agências da ONU (como a UNESCO), etc.  O príncipe Philip (marido da Rainha Elizabeth II), por exemplo, viabilizou o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que financia muitas dessas atividades. Para a mudança de paradigma cultural, aliando ecologia e religião, temos a ação de vários grupos, dentre eles, Indigenous Environmental NetWork, Religions for Peace, o Forum Mundial de Redes da Sociedade Civil (UBUNTU), etc. Todas essas organizações apoiam a Carta da Terra, a Ética Planetária de Hans Kung, e outras iniciativas que contrariam a sã doutrina católica. Para Sanahuja – “a visão cristã é inconciliável com o imanentismo panteísta da Carta”. E ressalta que  “a legítima preocupação com o meio ambiente, que faz parte da doutrina católica – expressa, entre muitos outros documentos, nas Encíclicas Sollicitudo Rei Socialis e Centesimus Annus, nada tem a ver com o paradigma ecologista da nova ética ou religião universal, no qual se entrelaçam o relativismo moral, o sincretismo religioso e o panteísmo”, contidos na Carta da Terra. E que “o disfarce espiritualista do ecologismo permite que aquilo que para alguns pode parecer um espaço de diálogo inter-religioso responda, na verdade, à tentativa de impor um dogma da nova religião sincrética universal”. Por isso os católicos ficaram perplexos com a menção da Carta da Terra na encíclica Laudato Si, e a forma como a Pontifícia Academia das Ciências abriu as portas para que muitos muitos ativistas globalistas, como Martín von Hildebrand (defensor da Carta da Terra), passassem a fazer palestras em suas dependências, participar de eventos, etc., permitindo que a The Gaia Foudation e tantas outras organizações impregnadas da ideologia onusiana, estivessem dando o tom na política ecológica do Vaticano, no atual pontificado.

Como a abordagem do Vaticano aconteceu?

Desde o início do pontificado de Francisco, através da Pontifícia Academia das Ciências e a Pontifícia Academia das Ciências Sociais, tem havido uma atípica intensificação de trabalhos conjuntos entre o Vaticano e a ONU, sintonizados no esforço de alcançarem as metas da agenda 2030 (aquelas gestadas na ECO-92). Nesse sentido, o papel do arcebispo argentino D. Marcelo Sánchez Sorondo (chanceler da Pontifícia Academia das Ciências) tem sido fundamental, pois ele escancarou as portas da PAC para ativistas globalistas de mentalidade onusiana, o que causou perplexidade entre os católicos.

Dentre esses ativistas, por exemplo, Jeffrey Sachs, conhecido por ser um dos maiores defensores do controle populacional e com posições públicas pró-aborto. Ele tem sido um dos mais assíduos como palestrante em várias conferências sobre temas diversos para promover a agenda da ONU no Vaticano. (vídeo: Vatican Youth Symposium 2018)

Conferência do Vaticano é criticada por apoiar políticas de aborto e controle de população. NOVA YORK, 8 de maio (C-Fam) Uma conferência do Vaticano para promover a próxima encíclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente destacou os defensores do aborto e do controle da população. 
Ao mesmo tempo, os críticos alertam que o alarmismo das mudanças climáticas prejudica os pobres. Conferência do Vaticano

Como destacou Benedetto Rocchi, da Universidade de Florença:

A agenda defendida por Sachs trata-se de “um programa político perturbador que inclui comida vegetariana, uso exclusivo de carros elétricos, eliminação total de combustíveis fósseis e penalidades pesadas para governos e instituições que não cumprem. É a nova ditadura mundial em nome da mudança climática. E com a bênção da Santa Sé”.

O Estranho caso de Jeffrey Sachs, abortista e colonialista tão amado pelo Vaticano

E acrescenta: “Sachs foi generosamente financiado, através do Instituto da Terra que ele dirige na Universidade de Columbia, por algumas das maiores multinacionais do mundo, incluindo General Electrics, GlaxoSmitKline, HSBC, Merck, Monsanto, Nestlé, Novartis, PepsiCo e Pfizer”.

Os encontros dos ativistas globalistas onusianos no Vaticano ficaram mais intensos no período de preparação da encíclica ecológica Laudato Si, que o próprio Leonardo Boff (da teologia da libertação) se ufana de ter contribuído para a sua elaboração. Boff trabalha há anos para disseminar os objetivos políticos da ECO 92, da Carta da Terra, e o sincretismo panteísta da nova religião universal, por isso ecologia e ecumenismo andam juntos. 

Boff: Ajudei o papa a escrever a ‘Laudato si’. Haverá uma grande surpresa. Talvez padres casados ou mulheres diáconos.

Em dezembro de 2014 foi criada a Rede Global de Sustentabilidade, com uma declaração conjunta de líderes religiosos, assinada pelo papa Francisco e outros, visando também uma ressignificação das religiões. Willian Vendley (coordenador-geral do Religions for Peace) também passou a frequentar o Vaticano, sendo recebido pelo cardeal Peter Turkson. Os católicos ficaram também chocados com a presença de Paul Ehrlich (outro defensor do aborto seletivo e a esterilização em massa) para participar em Roma, como conferencista em evento do Vaticano. Paul Ehrlich no Vaticano

E teve ainda naquele encontro, John Bongaarts, chefe do Conselho Populacional da ONU. Muitos católicos ficaram indignados com isso, o que fez Stefano Gennarini, do Centro para a Família e os Direitos Humanos  (C-Fam) se manifestar contra essa guinada da Pontifícia Academia das Ciências para acolher aqueles que sempre agiram para corroer a sã doutrina católica. Quem É Jeffrey Sachs e Por Que Ele Estava no Vaticano?

As críticas de católicos notáveis em todo o mundo, em nada fez com que Sorondo revisse essa política de aproximação com as forças globalistas. Pelo contrário, declarou com entusiasmo: “estamos atualmente assistindo ‘um momento mágico’, porque pela primeira vez o magistério do papa (…) é paralelo ao ensino das Nações Unidas”. Com isso, aquilo que Michel Schooyans e Sanahuja denunciaram, em relação aos pressupostos ideológicos das conferências internacionais da ONU dos anos 90, estava agora sendo disseminado pelo clero mais progressista, utilizando a sua capilaridade em todos os países do mundo, para utilizar as estruturas da Igreja para fins contrários á sã doutrina católica. Marcelo Sanchez Sorondo, Oscar Maradiaga, Peter Turkson e Cláudio Hummes, dentre outros, tem sido não só responsáveis por isso, mas agentes executivos dessa agenda, dentro da Igreja. Sánchez Sorondo: “Por primera vez el magisterio del Papa converge con el de Naciones Unidas”

E em particular ao monsenhor Sorondo e ao cardeal Cláudio Hummes?

Marcelo Sánchez Sorondo e Cláudio Hummes se tornaram mais próximos a partir de 2011, quando Hummes foi nomeado membro da Pontifícia Comissão para a América Latina (CAL) e Sorondo como conselheiro. Dias antes da nomeação, Hummes havia sido nomeado pela CNBB para presidir a Comissão Episcopal para a Amazônia. Sorondo já era chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e Pontifícia Academia das Ciências Sociais desde 1998. Com a publicação da encíclica Laudato Si, seis meses antes da Conferência da ONU sobre a Mudança de Clima (2015), Hummes e Sorondo passaram a trabalhar mais juntos para garantir a execução da agenda ecológica proposta por Bergoglio em sua encíclica.

Em fevereiro de 2017, Hummes e Sorondo promoveram o seminário “Direito Humano à Agua”, no Vaticano, que contou com a presença do papa Francisco, , aonde receberam o ativista globalista Martín von Hildebrand, ocasião em que ele fez uma exposição na Pontifícia Academia das Ciências, do seu controverso projeto “Corredor Triplo A (Andes-Amazônia-Atlântico)”. Veja o link da sua exposição.E aqui o vídeo. Na fala de Hummes, por exemplo, no referido seminário, ecoou parte do pensamento de James Lovelock, autor do livro “A vingança de Gaia”. Assista o vídeo Hummes orador no painel Amazônia

A pergunta que se faz é: ao acolher Hildebrand num evento na Pontifícia Academia das Ciências, na presença de Hummes, Sorondo e até mesmo Francisco, aonde ele defendeu publicamente o projeto do Corredor Triplo A, estaria o Vaticano apoiando a sua proposta? Por isso encaminhamos ao Senado Federal brasileiro um dossiê sobre as atividades de Martín von Hildebrand e seu projeto, e solicitamos que os senadores convoquem o cardeal brasileiro D. Claudio Hummes para dar explicações sobre o Corredor Triplo A. Isso porque esse projeto é um atentado explícito à soberania nacional e integridade territorial brasileira. Em atenção aos questionamentos feitos por muitos católicos (que sentem grande desconforto com essas atuais políticas do Vaticano), o Movimento Legislação e Vida, com tantos outros movimentos do País, solicitamos que a Sala de Imprensa da Santa Sé faça uma nota pública sobre a posição do Vaticano em relação ao Corredor Triplo A (se há ou não apoio), e que D. Cláudio Hummes, como presidente da REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e relator-geral do Sínodo da Amazônia, apresente as suas explicações ao parlamento brasileiro.

Em que sentido a soberania do Estado brasileiro é afetada?

A Internacionalização da Amazônia é objetivo político da agenda da ECO-92. O projeto do Corredor Triplo A já está pronto há 30 anos. O cenário atual (especialmente midiático) está preparando o terreno político para essa séria questão, que é uma ameaça á soberania nacional e a integridade territorial brasileira. O clero progressista recebeu o ativista globalista Martín von Hildebrand (o criador do Corredor Triplo A) como palestrante convidado no Vaticano. A ONU vai movendo bem as suas engrenagens e instrumentalizando os setores progressistas da Igreja para os seus fins, daí o Sínodo da Amazônia estar vulnerável a tais pressões. Nesse sentido, nós, católicos, especialmente os leigos, estamos chamando a atenção sobre essa grave questão e esperamos que os cardeais não aceitem que o Vaticano participe de uma iniciativa que é uma ingerência na soberania nacional brasileira, num contexto de implementação de uma agenda que quer privar o desenvolvimento responsável das nações emergentes.

Print Friendly, PDF & Email

Facebook Comments

Comments are closed.