A proclamação da república foi o maior erro político de todo o Ocidente

Uma idéia domina o discurso político mundial: a idéia da democracia. Tratada hoje como sinônimo de “liberdade”, de “bondade” e de todas as coisas positivas do Universo (até a tecnologia é associada à democracia, mesmo a Revolução Industrial tendo sido levada a cabo no maior Império de seu tempo), falar hoje em coisas como “monarquia” soa a um ridículo obscurantismo de saudosistas atrasados e obscurantistas, que querem manter privilégios às custas de um povo explorado por nobres de nariz empinado.

Nenhuma idéia poderia estar mais longe da realidade – e esta idéia é justamente a base fundamental de 99,999% das pessoas tentando analisar política no Ocidente todo hoje.

A democracia, afinal, é uma das seis principais formas de governo analisadas por Platão em A República – livro que o pensamento modernoso acredita ser ultrapassado só por ter alguns séculos de idade, quando, justamente ao contrário, é o livro mais importante de toda a ciência política mundial por nunca ter sido superado em quase 2500 anos.

Platão categoriza as formas de governo contando quantas pessoas, de fato, mandam. Se for uma só, pensando no bem comum, temos uma monarquia. Se for uma só, pensando apenas em si própria, temos uma tirania. Se forem poucas, uma aristocracia. Decaída, temos uma oligarquia. Até aqui, tudo bem, muito fácil. Se forem muitas, todavia, temos uma… politéia, o nome original do livro de Platão. Se forem muitas que pensam apenas em si próprias, teremos o regime corrupto e decaído: uma… democracia. Justamente a palavra que hoje tratamos como a positividade em si do vocabulário político.

O curioso é que, modernamente (desde que os Iluministas britânicos retomaram a palavra em sentido positivo, já em princípios do século XVIII), nem sequer possuímos mais o conceito de que um regime em que muitos governam possa ser degenerado, sendo preferível uma monarquia ou aristocracia. No século XXI, apenas consideramos que muitos devem ter algum poder, e este é o bem em si. Nem mais possuímos uma palavra em línguas modernas para designar um regime em que muitos mandem, mas o resultado seja péssimo para a sociedade.

Ao se entrar em qualquer livraria, 95% dos livros de ciência política estarão comentando sobre a crise da democracia. E todos se esbaldando em tentar defender a tal democracia. É até famosa a frase que “os problemas da democracia só se resolvem com mais democracia”, atribuída a diversos autores. Se largassem as modernices e lessem Platão com os termos originais, sem as tentativas de “atualização”, seu problema se resolveria em minutos.

Na prática, enquanto a democracia é o sistema mais primitivo de governo – o concílio tribal ao redor de uma fogueira definindo se alguém morre ou vive – a monarquia é o mais avançado.

Eric Voegelin mostra que cada povo possui um conceito chamado kosmion – a saber, a forma como este próprio povo se posiciona em relação à existência, à história, ao cosmo. O complexíssimo sistema monárquico europeu – que renderia um fruto no Brasil – reflete, em sua forma de governo, como cada povo se posicionava em relação ao cosmo. Cada um tinha o seu kosmion, todos interligados por laços de parentesco – como os próprios povos europeus. Cada um com sua religião. Com seus hábitos. Seus costumes. Seu temperamento.

A própria cultura européia – de onde tiramos mais de 90% de nossa visão de mundo – internalizou a monarquia durante quase toda a sua existência. Histórias de reis e príncipes que, por serem líderes naturais de seus povos, são entendidos como os “mocinhos” das histórias de maneira natural, existem desde a Ilíada e a Odisséia até Game of Thrones. Ninguém elogiaria uma filha que alegra o coração dos pais dizendo “Minha deputadinha”.

A nobreza é um comportamento elevado que era dado como natural – hoje, além de perigosas, são hilariantemente ridículas as tentativas do politicamente correto e do feminismo em tentar macaquear seus bons modos com a polícia da linguagem e dos costumes.

Somos filhos da era democrática, na qual tudo aquilo que seja minimamente associado à monarquia é considerado pejorativo, sem que, na prática, se tenha conhecimentos históricos e conceituais para se afirmar tal coisa. É comum, por exemplo, criticar os privilégios nababescos dos ministros do STF dizendo que “vivem como reis”.

Não apenas na monarquia brasileira: em qualquer monarquia desenvolvida no mundo, os reis e a aristocracia prestam muito mais contas à população do que a interminável burocracia do Estadodemocráticodedireito, que é justamente quem permite que políticos se encastelem em Brasília, e burocratas do alto estamento possam mandar no país sem nem nenhuma conexão com o povo – exatamente a única coisa que mantém os reis no poder.

Grandes cientistas políticos, como Bertrand de Jouvenel (ele próprio um nobre) já o notaram: bem ao contrário do prometido, a democratização do mundo pós-Primeira Guerra Mundial não diminuiu o poder do Estado, aumentando o poder do indivíduo – bem pelo contrário, é justamente a democracia que permite o controle absoluto de cada aspecto da vida.

Hans Hermann-Hoppe, o famoso anarco-capitalista, apesar de todos os seus erros e visão limitada, também percebe que o poder dos políticos era muito menor durante a monarquia, tendo aumentado sobremaneira assim que os Impérios caem na Europa e, em seu lugar, surge o voto da maioria mandando na minoria.

Os monarcas tratavam o Estado como sua propriedade particular – logo, qualquer perda de dinheiro público era uma perda para seu próprio patrimônio. Os democratas, bem ao contrário da propaganda ideológica, tratam o Estado como um meio para aumentar seu patrimônio particular, podendo torrar o erário sem uma visão de longo prazo – não à toa, a corrupção financeira é a marca da democracia, enquanto monarquias precisavam lidar com problemas administrativos que não invadiam a esfera privada individual.

Os efeitos práticos são nítidos: os países mais prósperos do Ocidente são quase todos monarquias parlamentares, à exceção da Suíça (e a América, ao contrário do que se pensa, não é uma democracia). É curioso falarem tanto sobre o “atraso” de uma monarquia, de como a nobreza supostamente “exploraria” o povo, e passar férias na Inglaterra, na Espanha, na Dinamarca, na Noruega ou na Holanda, esquecendo-se que são sistemas políticos indizivelmente mais avançados do que o brasileiro.

O imperador brasileiro tinha um poder tão menor do que um político de segundo escalão brasileiro que chega a ser preciso enxergá-lo com microscópio. O Poder Moderador era puramente administrativo, sem mando. Era o poder de ser um articulador entre outros poderes, de ser um exemplo de virtude reconhecida pelo povo quando havia cizânia.

Tal como o poder da rainha da Inglaterra hoje: pode ser consultada, pode incentivar e pode advertir. Imagine Lula ou Gilmar Mendes com tais poderes – e sendo sempre obrigados a serem exemplos de virtudes públicas, tendo cada passo observado de perto por uma imprensa azucrinante. Qualquer vereador do interior do Brasil hoje possui mais poder.

O século da democracia, tão incensada, foi exatamente o século do genocídio. Enquanto o pobre linguajar moderno apenas enxerga que exista democracia e “ditadura”, como se uma fosse oposto da outra, foram justamente agitadores da massa que, sem nobreza, sem virtudes, sem representarem um kosmion, dominaram legiões de apoiadores, não raro com voto popular e democrático (Hitler é apenas o exemplo mais óbvio, mas é uma lista que vai de Paul von Hindenburg a Slobodan Milošević), justamente para esmagar os que consideravam “inimigos”, fossem judeus, a elite, a classe média, os “burgueses”, os “poderosos”. A narrativa sempre rodeia os mesmos grupos.

No Brasil, o povo amava não apenas o Imperador: amava a imperatriz Leopoldina. Amava a Princesa Isabel, que além de libertar os escravos, fez um amplo programa de alfabetização, interrompido justamente pelo advento da república. Aliás, foram os republicanos que queriam manter a escravidão (como foi o Partido Democrata na América, e o Partido Republicano de Lincoln foi criado justamente para acabar com a escravidão).

A proclamação da República no Brasil foi um golpe militar, dado sem nenhum apoio popular, na calada da noite, por um grupo positivista e tecnocrata. Não à toa, o país passou mais de uma década praticamente sob lei marcial e vivendo sob risco de guerra civil o tempo todo.

Foi um experimento pioneiro na arte de destruir o mundo: tirando a França de Napoleão, o restante da Europa só experimentaria a derrocada da monarquia e a instalação da democracia com o fim da Primeira Guerra Mundial e a intervenção americana, que iniciou a era de “espalhar democracia” pelo mundo.

Foi com o fim da monarquia dos tsares que os bolcheviques causaram o maior genocídio do mundo, exatamente como o anarquista Bakunin previra, além de Dostoievsky (e olha que falamos da “pior” monarquia da Europa, extremamente autocrática e violenta). O fim da monarquia alemã gerou a primeira ditadura militar no país, além da primeira tentativa de cisão do país com comunistas governando de outro lado.

Sem a nobreza, o povo precisou de outros exemplos para si. No Brasil, foram os populistas: do coronelismo a Getúlio Vargas, dos ditadores militares a Lula. Na Alemanha, foi a raça. Na Rússia, a classe.

Tudo isso associamos a “ditaduras”, sem notar que, por pelo menos 14 séculos, o sistema monárquico não chegou a algo nem quer parecido com nazismo, comunismo ou ditaduras militares. Não é a democracia que traz paz: foi o fim da monarquia que destruiu a conexão do povo com o seu governo. Foi a democratização que trouxe o culto da uniformidade, da mesmice e da homogeneização.

O dia 15 de novembro não é uma data a se comemorar no Brasil. É data para se lamentar com luto eterno.

Crédito: Senso Incomum

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