Iniciamos com este texto nossas Críticas Literárias. Estaremos publicando mensalmente uma crítica a autores ou livros de nossa Literatura Brasileira e Mundial. Iniciaremos nesta e nas próximas duas semanas com três contos que se entrelaçam e se complementam dentro desse Espírito Natalino. Começamos com A Missa do Galo, do Gigantesco Machado de Assis, na próxima semana traremos a crítica ao Conto de Natal de Rubens Braga e fechamos essa trilogia daqui a duas semanas com Mário de Andrade em seu conto O Peru de Natal. Então, vamos começar com o genial Machado de Assis.

Criticar Machado de Assis sempre é um trabalho chato e perigos: chato por haver uma massa de falsos críticos que somente desejam ler elogios pomposos a tudo que ele escreveu e perigoso, pois, Machado é o autor brasileiro que mais recebeu estudos, tanto dentro como fora do Brasil, então corro o perigo de falar o mais do mesmo. Não quero ser pedante, nem cair em atropelos. Então convido você leitor, a ter paciência e, quem sabe, ajudar-me a acrescentar algo, tanto sobre o autor como à esta obra.

Machado não pode ser colocado em nenhum rótulo, tampouco suas obras podem ser enquadradas como “presas” a alguma determinada concepção estética advinda das tantas escolas literárias que frutificaram no Brasil. Como afirma o crítico José Verissimo em Estudos de Literatura: “O Sr. Machado de Assis, raro traço de originalidade, se não deixou arrastar por nenhuma delas, ou sequer seguiu alguma, senão enquanto condizia com o seu temperamento”. Machado trouxe para sua escrita elementos que julgou pertinentes, apropriados e que foram lapidados e moldados por sua genialidade. Nelson Werneck Sodré em sua História da Literatura Brasileira – Fundamentos Econômicos complementa o que foi dito por Verissimo: “Antes de Machado, os nossos livros viviam entregues ao capricho duma imaginação alvoroçada. O verbalismo inócuo, o estilo pomposo, representavam a suprema elegância. (…) Machado de Assis, justamente o contrário de tudo isso, foi o equilíbrio, a sobriedade, a analise. (…) O gosto da minúcia, a elegância inata no escrever, o apuro da forma – sempre clara e retilínea – são nele os traços fundamentais, desconhecidos nos demais escritores de então, quase de uma maneira absoluta.

Missa do Galo manifesta em suas poucas linhas a sobriedade e sutilezas machadianas, apresentando-nos uma mulher enigmática e um frase que ecoa em nossas mentes ao fim da leitura: e se?

“Nogueira, já idoso, relata algo que vivenciou em sua juventude. Machado primeiro situa, com sua costumeira brevidade, o tempo e o espaço onde se dará o evento a ser narrado.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses (espaço), que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolhera-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios (tempo).

Tendo nos apresentado o palco, cabe agora sabermos mais dos atores (personagens). O escrivão Meneses é um adúltero e isto revela mais sobre o caráter de sua esposa conceição que o do próprio:

“Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas afinal, resignara-se, acostumara-se,e acabou achando que era muito direito.

A Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.”

Neste trecho temos uma mulher resignada com sua vida em submissão à figura do marido infiel e descuidado. Machado começa a criar um jogo de espelhos. O que vemos, narrado em primeira pessoa, é puramente a impressão de um primeiro encontro sem grande significado com Conceição, a captura de uma faceta desta mulher em relação ao marido. Esta descrição, obviamente, não representa o todo da personagem. Como afirma a ensaísta Ruth Silviano Brandão Lopes em seu artigo A narrativa literária: um jogo de espelhos:

É possível pensar a narrativa literária através da palavra espelho, que pode ser apreendida como uma grande metáfora do reflexo, da imitação, da mímese, neste caso colocando-se uma das questões mais antigas da Literatura: sua relação com o Real, ou, mais propriamente, como o conceito de Real.

Ao esperar o vizinho que iria para a Missa do Galo, Nogueira se depara com conceição com a qual engaja uma conversa, onde a personagem vai apresentando uma sensualidade sutil que a faz ter uma beleza não vista antes pelo jovem rapaz.

“Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo.”

Como diria o articulista Ariel Engel Pesso: “A própria impressão do narrador muda: se antes Conceição era santa, agora ela é boa, muito boa; se era simpática, agora é linda, lindíssima – vejamos que ela não é; ela fica, portanto torna-se. Se, antes, estava ébrio de Dumas, agora parece estar ébrio de Conceição.” O autor complementa: “Não parece ser por acaso que Conceição é identificada com Cleópatra: “Os quadros falavam do principal negócio deste homem [Meneses]. Um representava ‘Cleópatra; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres’” (ASSIS, 1899, p. 85). Ora, o único quadro que permanece na mente de Nogueira é, justamente, o que reflete a mulher enigmática, e isso não parece ser uma escolha inocente de Machado.” A primeira imagem de Conceição difere da segunda e isso por ser narrado em primeira pessoa, não permite ao leitor saber até que ponto as impressões representam o que de fato aconteceu, o real.

Este conto seduz e dos três foi o que mais me cativou mesmo tratando-se de uma releitura. Aqui não é o dito e o que concretamente ocorreu, mas, sim, o que poderia ter ocorrido que prende a mente do leitor mesmo após a leitura haver findado.

Na próxima semana estaremos analisando e fazendo nossa crítica ao grande crítico e escritor Rubem Braga em seu Conto de Natal. Amigo leitor, convido você também a ler outros contos com essa temática como: Conto de Natal do Eterno Dickens e A Pequena Vendedora de Fósforos do grandioso Hans Christian Andersen, pérolas da literatura mundial. Então sentem na cadeira e aproveitem!!

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