Com roteiro de Marv Wolfman e com os belos desenhos de George Pérez a necessária e maravilhosa saga Crise nas Infinitas Terras reuniu os maiores heróis da editora DC Comics: Super-homem, Mulher-maravilha, Lanterna Verde, Batman e Flash. A cronologia da famosa editora estava confusa demais, o que começava a afetar as vendas das revistas. Muitos heróis surgidos nos anos 30, como por exemplo, SuperHomem em 18 de abril de 1938 e Batman na revista Detective Comics em 1939 , ao longo dos anos haviam tido suas origens recontadas, o que demandou uma  urgência em recriar o legado criativo de décadas numa única cronologia coesa.

Lembremos que no começo o amado último filho de Krypton não voava, cabendo-lhe somente pular de prédio em prédio e ter força física ampliada, similarmente, Batman nas suas primeiras aventuras usava um revólver e não havia o conceito de Batcaverna. Esse período ficou conhecido como Era de Ouro (1938-1950). Precisando de uma nova repaginação para seus personagens, a fim de ganhar a nova geração, em meados da década de 50, Superman e companhia ganham um “reboot” com pequenas diferenças em relação a estória original, seria o começo da Era de Prata (1956-1970). Os quadrinhos desde 1948 passariam a ser considerados como influenciadores de delinquência juvenil e de outras formas de estilos de vida considerados como aberrantes ou anormais. O Dr. Fredric Wertham em seu trabalho mais conhecido, “Seduction of the Innocent”, argumentou que personagens como Batman e Robin seriam homossexuais, sendo parceiros amorosos um do outro.

Dr. Frederic não pode ser considerado o único responsável pela visão restritiva da época, mas, certamente, seus artigos e o livro mencionado acima contribuíram para endurecer o modo como essa literatura era vista por muitos políticos, intelectuais e mesmo o público. Para evitar que leis fossem criadas para regular a indústria de quadrinhos o “Comics Code Authority” foi criado, não sendo obrigatório a associação, sendo uma forma de mostrar a sociedade o compromisso de quadrinhistas e editoras com uma temática alinhada com o considerado de bom tom para a época. Devido a esta atmosfera as estórias de super-heróis são recheadas de humor, tom moralizante e, no geral, infantis embora os desenhos houvessem recebido uma construção artística mais realista, com anatomia mais bem trabalhada, perspectiva e maior detalhamento nas expressões faciais. A Era de Bronze conteudisticamente seria o oposto, retratando muitos dilemas sociais em suas histórias como o Racismo e valorizando mais elementos dramáticos.

Aproveitando o conceito de terras paralelas, surgido em “Flash de dois mundos” publicada em 1961, as diferentes versões dos heróis famosos junto com os heróis recém adquiridos da extinta “Charlton Comics” – Besouro Azul, Capitão Átomo e Questão, entre outros, ganhariam terras próprias. A confusão mencionada ao começo somente seria solucionada com a extinção do conceito de infinitas-terras, que seria retomado posteriormente, e com a colocação dos personagens mais famosos e notórios da editora numa única terra. Em 12 edições, o evento marcou a história dos quadrinhos, sendo lembrado e amado por fãs no mundo todo. Depois dele os heróis surgiriam em suas revistas com estórias sobre suas origens e tudo que se teve antes, nas outras Eras, seria ignorado.

Poderia algo tão grandioso ser transportado para a TV? Não, óbvio, mas havia de ser mais bem pensado e estruturado. As séries como Arrow, Lendas do Amanhã, Supergirl, Raio Negro e Batwoman, ao fim do crossover, foram postas na mesma Terra, o que permitirá que crossovers se tornem mais fáceis e, provavelmente, mais frequentes, pois, não há mais a necessidade criativa de criar uma razão e meio para uma viagem dimensional. A ideia é bem-vinda, como tantas outras que alegraram os espectadores, mas, como de costume, mal trabalhada.

Por meses fomos bombardeados com noticias falando como retornariam a seus papéis Tom Welling, Smallville-Clark Kent/Superman, John Wesley Shipp, Flash da serie dos anos 90, Burt Ward, que viveu o Robin na séries Batman e Robin (1966-1968), Kevin Conroy, dublador americano da voz de Batman nas animações Batman a série animada, Batman do Futuro e na trilogia de games Batman: Arkham, Jonah Hex interpretado por Johnathon Schaech e Ashley Scott, que viveu a Caçadora na, infelizmente curta, série Birds of Prey dos anos 90. A mera menção desses nomes foi para uma grande parcela do público um sinal de um evento televisivo grandioso e singular a tudo que foi feito antes.

De fato, os produtores fizeram questão de agradar os fãs como bons fan-services, que agradaram, surpreenderam, alegraram, mas, na maioria dos casos, sem conexão com a trama principal. O roteiro é fraco e raso, com momentos de brilhantismo e sensibilidade, reconhecemos, porém, bons momentos pontuais não definem o todo. De fato isso já era esperado quando o ator Michael Rosenbaum – Lex Luthor/Smallville, negou participar, por não haver roteiro pronto, nem ideia de como se daria o retorno de seu personagem.

A estória dá sinais de ter sido montada às pressas, o que decepciona em alguns momentos como no retorno de Tom Welling a seu antigo papel e da atriz Erica Durance (Lois Lane), que participou de Supergirl, como a mãe da personagem principal, Alura Zor-El. Os atores estão bem e a vontade nos antigos papeis o que oferece toda uma naturalidade e continuidade do que já havíamos visto na memorável série, porém, o enredo os coloca sem funcionalidade na trama, ademais, o modo como eles percebem o perigo eminente, a destruição de todo o seu universo, é inesperado e decepcionante.

Esse momento contrasta visceralmente quando o flash/Barry Allen de John Wesley Shipp, decide se sacrificar no lugar do Flash atual. Os flashbacks que aparecem de cenas da antiga série somadas a boa atuação e um raro belo momento criativo e inteligente do roteiro garantem uma sensacional cena. O Superman de Brandon Routh, do filme Superman: O retorno e continuação, do inesquecível Christopher Reeve, também foi outro momento nostálgico e cativante. A cena de luta entre este e o Superman de Tyler Hoechilin rendeu bons momentos de ação e a sua morte teve a performance dramática encenada na medida certa. Ezra Miller como o Flash do universo cinematográfico, foi uma surpresa inesperada, aplaudida por muitos, contudo, que não agrega algo significativo ao resultado final.

Na verdade, os atores estão excelentes em seus respectivos papéis com exceção de Caroline Dries/Batwoman, que possui uma atuação apequenada em comparação aos outros, e de Osric Chau/Ryan Choi que, embora se esforce, não logra dar peso aos diálogos que lhe ofereceram e sua participação acaba opaca e pouco significativa.  

A direção trabalha bem as cenas e a equipe de efeitos especiais soube usar bem cada centavo que obteve dos produtores. Um melhor trabalho dos roteiristas teria oferecido uma produção épica, se tivessem centrado mais no potencial dramático, de suspense e ação que a ideia central possibilita.

Stephen Amell, encerra sua participação nesse universo com um Arqueiro Verde devotado a sua missão e com uma caraterização sombria e misteriosa do personagem Espectro. Sua luta final e consequente sacrifício para salvar o multiverso é outro momento de ouro.

No fim, temos a Terra-Prime, com os heróis das séries principais reunidos junto ao Raio negro, uma boa decisão trazer este personagem a tona, o Monstro do Pântano, serie excelente, mas, descontinuada, na Terra 19, Titãs na Terra 9, Doom Patrol na Terra 21, o Superman de Richard Donner na Terra 93 e a próxima série, anunciada pela HBO Max, Lanterna Verde, na Terra 12. Um episódio final com tons infantis entrega algo superior ao visto anteriormente pela DC/CW na TV, mas, ao mesmo tempo inferior ao que poderia haver sido se mentes melhores o houvessem escrito.

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