Se na Idade Média havia o entendimento de que os filósofos-teólogos medievais eram anões erguidos sobre ombros de gigantes (Sócrates, Platão), o espirito da Semana de Arte Moderna cria ser um gigante a enfrentar anões. A ruptura com o passado e a busca por novas formas de expressão artística revela certo pedantismo e arrogância. A semana de 22 não foi mais que um episódio sem muita relevância diante de tudo que se passou nas letras brasileiras, depois dela e, inclusive, antes. Para ser gentil, foi uma semente.

Alfredo Bosi em História Concisa da Literatura Brasileira complementa: “O roteiro de Mário de Andrade diz bem de um artista de 22 cuja poética oscilou entre as solicitações da biografia emocional e o fascínio pela construção do objeto estético. A Pauliceia Desvairada abre-se com um prefácio interessantíssimo em que o poeta declara ter fundado o Desvairismo: nessa poética aberta há afinidades com a teoria da escrita automática que os surrealistas pregavam como forma de liberar as zonas noturnas do psiquismo, únicas fontes autênticas de poesia. Ao ditado do inconsciente viriam depois juntar-se as vozes do intelecto. Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo o que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. Daí a razão deste Prefácio interessantíssimo. (…) Um pouco de teoria? Acredito que o Lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada.”

Como diz Sodré: A historiografia brasileira convencionou a realização das manifestações da Semana de Arte Moderna como início de uma nova etapa em nosso movimento literário, a do Movimento Modernista, ou Modernismo. A semana tem sido superestimada, sem dúvida alguma, pois, sua importância meramente episódica, embora característica sob muitos aspectos do verdadeiro caráter do movimento, foi muito menos do que pretendem fazer crer alguns de sues participantes e alguns de seus cronistas.

Historia da Literatura Brasileira-Fundamentos Econômicos

Muitos intelectuais se distanciaram das ideias preconizadas por aquela semana marcada por um desvairismo, e uma subserviência a movimentos artísticos europeus que grande parte dos envolvidos na elaboração da semana de 22 não somente careciam de ter sobre eles uma maior compreensão e conhecimento como também apropriada crítica.

Escritores como Guimarães Rosa e Rachel de Queiroz, entre muitos outros, não podem ser enquadrados pela crítica séria e cuidadosa como frutos das teatrais e medíocres aspirações que uma certa elite econômica e intelectual teve ao elabora semelhante tolice. Nossa literatura já havia produzido grandes autores e continuaria a produzi-los, da mesma forma, nossa intelectualidade, com raras exceções, em todas as épocas desde a colonização teve suas grandes personalidades.

Nossa literatura, que segue sendo grandiosa é resultados das transformações econômicas sociais e culturais, da busca por conhecimento e estudo metódico de nossos grandes autores e da genialidade destes. Devemos acrescentar que o desconhecimento da riqueza intelectual e cultural de nossa terra era um traço comum nos organizadores de dita semana de Arte Moderna. Claro, houve grandes autores e primorosas inteligências, dirá o falso e pomposo crítico, todavia a experimentação e ousadia não viriam se não depois de 1922.

Respondemos a isso com um único nome: Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, cuja última fase artística revela maturidade, profunda sapiência e coragem para trabalhar a estética segundo o que a mente do autor desejava sem apego ao Parnasianismo ou Simbolismo ou qualquer outro movimento. Nem em bravura ou experimentarismo foram os paladinos da Semana de Arte Moderna precursores. O grande intelectual e poeta Bruno Tolentino afirmou: “Às portas do Terceiro Milênio Cristão, não vejo como seguir atrelando nossas luzes e letras à herança falida de um breve momento, de um mero movimento que nunca passou de um arrepio na epiderme sadia de uma tradição tão sólida quanto ignorada.” (Banquete de ossos , publicado em 1998)

Foto retirada do site: https://www.figuradelinguagem.com/literatura/mario-de-andrade/

Mario de Andrade carregou por bastante tempo o espirito destruidor e de ruptura com o passado que ecoava durante toda a exposição de arte moderna de 1922. Sua inteligência não pode ser negada, contudo, como sobriamente analisa Antônio Cândido no seu livro Iniciação a literatura: “Mário de Andrade adotou como base da sua obra o esforço de escrever numa língua inspirada pela fala corrente e os modismos populares, não hesitando em usar formas consideradas incorretas, desde que legitimadas pelo uso brasileiro. Com isso, foi o maior demolidor da pureza vernácula e do culto da forma. O preço que pagou foi certo pedantismo às avessas, que muitas vezes dá à sua linguagem sobretudo na fase inicial da luta renovadora, uma afetação inversa à que desejaria anular. Apesar disso, ela é não apenas original e expressiva, mas muito harmoniosa, sempre que sublimou os excessos combativos de programa, pois tudo o que escrevia era baseado no saber seguro e na grande capacidade de reflexão.

Analisar a figura de Mario de Andrade, e por conseguinte suas obras, merece um estudo da influência que teve a a Semana de Arte Moderna de 22 na mentalidade deste autor, que foi o organizador e grande pensador por trás dela. Podemos perceber que quando deixou de lado o esprito da SAM (Semana de Arte Moderna de 22) como muito bem colocou Cândido, ele conseguiu desprender sua mente de caminhos fixos, que considerava necessários, para deixar que sua inteligencia e observação livres para debruçar-se sobre um escrito que muito agradaria ao leitor.

Mario de Andrade era uma mente sedenta por conhecimento, o que o levou a ser autodidata em estudos literários e, especialmente poesia, e sobre História. Mário era um hábil pianista, tendo começado desde criança seus estudos e, depois, se aperfeiçoado no Conservatório Musical de São Paulo, onde viria a ser catedrático de História da Música. Essa sua formação como também toda sua biografia é interessante e importante de ser estudada com seriedade e sobriedade.

O intuito de “grafar as inconsequências da fala popular” como ele mesmo dizia, era o intuito de mostrar a sonoridade que este captava no dia a dia, era o desejo de retratar “alma brasileira” do jeito que este a via e compreendia. A gramática era um algo secundário e talvez desnecessário em ser observada diante da riqueza da fala. A intencionalidade, deixo claro ser isto nossa opinião, pode ser louvada, mas, o desenvolvimento de tal ideia deve ser visto, revisto e analisado pela racionalidade. Não cremos ter sido este feliz ao tentar colocar em prática suas ideias, porém, não deve ser sepultado, ou engrandecido, com duas ou três frases um autor sem antes haver um estudo sólido sobre seus escritos.

Com este autor findamos aqui a trilogia dos contos de Natal e desde já agradecemos toda a paciência, comentários e criticas. Trazemos O Peru de Natal , um dos belos trabalhos de Mário de Andrade.

Texto retirado do site: https://capituvemparaojantar.com/o-peru-de-natal-de-mario-de-andrade-2/

O Peru de Natal: Ritual de passagem

Como encarar a morte e tristeza diante de uma celebração que emana vida e alegria? Mario de Andrade oferece um conto onde soube dosar bem a ironia e a crítica sutil que promove sobre as relações sociais e familiares.

“O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidade materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.”

A retratação do pai como agente propiciador do necessário para a sobrevivência, embora incapaz de promover certos prazeres desejados é feito com uma ironia bem construída. O conto funciona como um ritual de passagem onde a família, antes de baixo do jugo disciplinar do chefe da família, agora, através da figura do filho Juca, busca viver segundo outras diretrizes.

“Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
— É louco mesmo!…
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal.”

O Peru de Natal é algo que a disciplina paterna não permitiria haver se não fora para receber visitas. Ser bem visto socialmente é mais importante que cativar a própria família. Juca, todavia, deseja agradar a si mesmo e, por consequência, permite a sua família viver algo que sua subserviência a costumes e regras antigas não permitiria que o fizessem. A loucura de Juca serviu bem a todos.

“Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de bem-casados. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha.

Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar.
E agora, Rose!…”

Juca surge como a liderança natural , necessária e desejada. Seu intuito é de permitir que a dor pela perda do pai, dor esta que faz a família esquecer de suas posturas restritas e mesquinhas, não afogue a busca por uma vida diferente e, talvez, melhor. A família pode ser feliz e celebrar o ato de viver sem crise de consciência. O Peru de Natal traz uma esperança de que novos caminhos podem ser inaugurados e que a loucura de Juca é o que se precisa para romper com o passado. A figura do pai pode ser agora, merecedora de alguma contemplação e saudade. A família conquista o direito a seus pequenos prazeres e a deixar de viver somente o necessário a viver o desejado. A vida é muito mais que rotina, se não pode ser o ano todo, que ao menos em boa parte tenhamos como companheira a felicidade regada a algumas extravagâncias.

Próxima semana teremos um estudo sobre Dom Casmurro de Machado de Assis

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