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Tolkien e suas Fontes de Inspiração: Criando Gandalf.

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Nos épicos de fantasia ambientados em um universo inspirado na Europa Medieval, quase sempre existe a figura do mago. Um ser dotado de sabedoria e conhecimentos ocultos, que sempre atua como a “voz da razão” do protagonista, nos momentos em que este precisa de uma bússola moral para lhe guiar em sua missão. Dependendo da narrativa o mago serve somente como conselheiro ou as vezes põe a mão na massa e luta ao lado do protagonista, unindo habilidades militares com sua magia, e nesta linha narrativa é comumente utilizado como um “Deus Ex Machina”, quando as chances estiverem contra o protagonista e aparentemente tudo estiver perdido.

A figura do mago é de basilar importância na narrativa da trilogia O Senhor dos Anéis, que imortalizou mundialmente o cronista e linguista John Ronald Reuel Tolkien. Em seu conto, toda a aventura vivida pelo hobbit Frodo Bolseiro, se deve ao fato de Gandalf ter lhe confiado a missão de levar O Um Anel até o único lugar onde a joia poderia ser destruída. E graças a essa missão o pequeno hobbit se viu envolto em vários perigos. Mas, com a ajuda e orientação do mago a Sociedade do Anel foi capaz de vencer a ameaça de Sauron.

Mas de onde veio a inspiração para que Tolkien desenvolvesse um personagem tão misterioso e profundo como o mago Gandalf? Por ser um cristão devotado, Tolkien baseou-se em vários elementos e personagens do cristianismo para desenvolver sua trama, todavia, por se tratar de uma estória ambientada em um universo paralelo ao nosso, a Terra Média contém também muitos elementos da cultura pré-cristã europeia, e dentre estes elementos, a inspiração para a criação de Gandalf, foi o deus nórdico Odin.  

Existem muitos pontos em comum entre a personagem tolkiniana e o deus pagão. A primeira delas está relacionada ao panteão no qual ambos se encontram. Por um lado, Odin é um deus integrante da família dos Æsir, uma casta de deuses guerreiros que embora tenham uma longevidade muito superior a humana, não são plenamente imortais. Por outro lado, Gandalf faz parte da raça dos Maiar, seres celestiais dotados de habilidades e longevidade, sobre-humanas, mas, que igualmente não são totalmente imortais.

No que tange as ações praticadas, tanto Gandalf quanto Odin se aventuram pelo mundo sob a forma de um velho peregrino de chapéu cônico de abas largas, e que apresentam para aqueles são visitados por eles uma série de enigmas e aventuras a percorrer, como Snorri apresenta em suas Eddas, tanto a em verso quanto a em prosa, Odin como um deus que viaja em meio aos humanos, e travestido de um andarilho aborda as pessoas em seu caminho, propondo-lhes desafios e enigmas, onde em diversos casos originam-se as epopeias narradas nas eddas. Já tanto em A Sociedade do Anel quanto em O Hobbit, a rotina das personagens Bilbo e Frodo é quebrada com a visita do “peregrino cinzento”, que lhes leva a embarcar nas aventuras que são o ápice das duas estórias. 

Ambos também cavalgam em equinos extraordinários, onde, de um lado está Sleipnir, um cavalo de oito patas, filho de Loki e Svadilfari, o equino conduz o deus em uma velocidade surpreendente, fazendo-o atravessar os nove reinos rapidamente. Do outro lado, Gandalf pode contar com Scadufax, que assim como seu irmão de oito patas é considerado a montaria mais veloz de seu universo.   

Por fim, é claro o paralelo entre as personagens, tendo em vista que ambos sacrificaram suas vidas, e como fruto do sacrifício, renasceram com seus poderes ampliados de forma colossal.

Desta forma como é descrito no poema Hávamál que integra a Edda em Verso, Odin, almejando ampliar seus poderes ocultos, realizou um auto sacrifício, onde o deus atravessa seu corpo com sua lança mágica, batizada de Gungnir, e ainda ferido pela lança, suspende seu corpo amarrado pelos pés, amarrado aos galhos da árvore Yggdrasill. Por nove dias e nove noites o deus permaneceu suspenso de ponta cabeça, ferido e sem beber ou comer nada, até que no nono dia, quando já estava praticamente morto, lhe são revelados todos os segredos mágicos das runas e Odin se desprende das amarras e torna-se o senhor supremo e deus da sabedoria, magia, guerra e morte.

Em contraponto, o sacrifício de Gandalf se deu de forma mais altruísta. Conforme é narrado em A Sociedade do Anel, quando a comitiva do anel percorria os Salões dos Anões de Moria, após sofrerem um ataque dos Orcs, a comitiva se vê cercada por um Balrog, e Gandalf conhecendo os poderes da terrível criatura, e ciente de que não seria possível vence-la, sacrifica-se permitindo que o restante da comitiva escape da criatura, e enquanto impedia o Balrog de avançar (you shall not pass), a ponte de Khazad-dûm se quebra e Gandalf cai junto com a criatura no Abismo Negro. Durante a queda o mago e a criatura continuam a digladiar-se até caírem em um lago no fundo do abismo, e após ter escalado a Torre de Durin, a luta perdurou até que Galndaf use seu último fio de vida para matar o Balrog, e depois disso morre de exaustão.

No pós morte, o mago é levado ao Salão de Mandos, onde Vala, o espírito superior permite que Gandalf ressurja e continue sua missão. De volta a Terra Média, o mago recebe dos elfos uma indumentária branca e é elevado ao cargo de Mago Branco, a mais elevada honraria na ordem dos Istari. Mas, sua ascensão não foi meramente hierárquica, após retornar dos mortos a vitalidade, força, sabedoria e poder do mago de viram ampliados vertiginosamente, a ponto de conseguir derrotar Saruman, o mago corrompido que havia lhe derrotado em um combate anterior.

Com tantos pontos em comum, é mais que evidente, que o deus nórdico patriarca dos Æsir, Odin serviu de forte fonte de inspiração para que Tolkien pudesse criar Gandalf, o mago sábio e misterioso que foi fundamental para a narrativa das obras que tornaram o autor mundialmente aclamado. Além de ser um personagem querido e admirado por todos os fãs desse majestoso e complexo universo criado pela mente visionaria de J.R.R. Tolkien, que mesmo após décadas de sua publicação ainda nos cativa!

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Marcos Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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