Ciúmes, Paranoias e Devaneios… Uma crítica a Dom Casmurro, de Machado de Assis

Ciúmes, Paranoias e Devaneios… Uma crítica a Dom Casmurro, de Machado de Assis

Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer ( Ítalo Calvino – Por Que Ler os Clássicos)

O grande dramaturgo William Shakespeare em sua grande obra Otelo, através da figura luciferiana de Iago, coloca:

Acautelai-vos senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras!” (Cena II, ato III)

Um demônio de olhos verdes. Lindo, atrativo, sedutor, todavia, perigoso, sorrateiro e destrutivo. Não foi Otelo a primeira obra a tratar sobre este tema, tampouco foi a última. Em nossas terras, Machado de Assis versou de modo genial sobre isso com seu eterno Dom Casmurro.

O crítico literário José Guilherme Merquior salienta que: “Das três funções históricas da arte literária: edificação moral, divertimento, e problematização da vida, a literatura da era contemporânea – a literatura da civilização industrial – cultiva preferencialmente a última.”

Machado de Assis com este livro realiza com esplendor as três funções:

Edificação moral: Machado entrega um evento e mostra a degradação moral de seu personagem principal, graças ao modo como este lida com a dúvida e o ciúmes. Embora a moral daquilo que foi narrado não foi colocada de forma explicita e lúdica, como numa fábula,  o escritor incube ao leitor que retire deste escrito a lição. Machado entrega nas mãos do leitor a moral (mensagem e lição) em reticências, o convidando para colocar o seu ponto final.

Divertimento: Ler este livro é um prazer da primeira a última página. Nele, Machado achou o equilíbrio perfeito dos elementos que são encontrados tanto na sua Fase Romântica como na Realista. O humor obscuro, sútil, natural e até inocente, a crítica a comportamentos e instituições, a escrita leve, sóbria, não apegada a detalhes, criam um enredo que encanta e diverte.

Problematização da vida: Bem, não temos que perder tempo ressaltando ou provando o óbvio. A obra é uma viagem dentro da mente humana. Não há superficialidade ou dramas mal trabalhadas. A obra foge de soluções simplistas. Não há heróis ou vilões, e sim, humanos falhos.

Vemos o jovem Bento Santiago, puro e inocente, apaixonar-se pela jovem Capitu, duas almas com essências opostas e que se unem por capricho do destino. Bento em suas próprias palavras afirma que: “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor, à força de repetição.”  Se temos de um lado o singelo Bento, do outro lado temos a mulher em corpo de menina, sagaz e dona de uma sabedoria e entendimento de mundo para além da idade e experiência de vida que possui. Bento é um sonhador enquanto Capitu é uma personagem pragmática, realista. O autor ao longo da obra nos apresenta traços da personalidade de Capitu, narrados pelo personagem-narrador:

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Eu não sabia o que era obliqua, mas, dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas.”

A sagacidade da personagem e sua facilidade em ocultar seus intentos e ações, tornam a futura obsessão do adulto Bento em algo plausível e crível, embora impossível de ser determinado como verídico. Ela o traiu? Seria Capaz? Nunca saberemos a resposta. Como Afirma Alfredo Bosi:

“Na verdade, um romance de Machado não se deve resumir: e como fazê-lo se o que neles importa não é o fato em si, mas a constelação de intenções e de ressonâncias que o envolve? Ainda que Capitu não houvesse cometido o adultério (e o romance não dá nenhuma prova decisiva), tudo nela era a possibilidade do engano, desde os olhos de ressaca oblíquos e dissimulados, que se deixavam estar nos momentos de raiva com as pupilas vagas e surdas, até às mesmas ideias que já em menina se faziam hábeis, sinuosas, surdas, e alcançavam o fim proposto, não de salto, mas, aos saltinhos”

Nunca houve um flagra do possível caso de Capitu com Escobar, grande amigo do nosso aflito amigo desde a época de seminário, sendo inclusive dele a ideia que libertaria o jovem Bento da promessa da mãe, convencendo esta de tornar um órfão em Padre:

“- Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você…

– Entendo, entendo, é isso mesmo.

– Não acha? continuou ele. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se não é a mesma cousa, ou eu mesmo consulto, se quer e se ele hesitar, fala-se ao Sr. bispo.

Com a morte de Escobar, Bento contempla a gota de caos que transbordaria todo o ciúme que sempre habitou dentro de si:

“Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…”

“As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas, o cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã

Machado ao optar por narrar esta estória através do olhar e mente de Bento Santiago, fez acertadamente, pois, foge de possíveis fórmulas prontas e caminhos predizíeis. Não sabemos o que se passa na mente de Capitu nem de Escobar. Tudo é visto através da mente do Dom Casmurro, do homem que nunca obteve a resposta à suas indagações, já que, Capitu nunca disse sim ou não diante do perturbado cônjuge. Como afirma Ligia Chiappini Moraes Leite no livro O foco Narrativo: “O NARRADOR, personagem central, não tem acesso ao estado mental das demais personagens. Narra de um centro fixo, limitado quase que exclusivamente às suas percepções, pensamentos e sentimentos.

“- Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!

– A separação é cousa decidida, redargui pegando-lhe na proposta. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio; cada um iria com a sua ferida. Uma vez, porém, que a senhora insiste, aqui vai o que lhe posso dizer, e é tudo.

Não disse tudo; mas, pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. Capitu não pôde deixar de rir, de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui; depois, em um tom juntamente irônico e melancólico:

– Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!

Concertou a capinha e ergueu-se. Suspirou, creio que suspirou, enquanto eu, que não pedia outra cousa mais que a plena justificação dela, disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. Capitu olhou para mim com desdém, e murmurou:

Sei a razão disto; é a casualidade da semelhança… A vontade de Deus explicará tudo… Ri-se? É natural, apesar do seminário não acredita em Deus; eu creio… Mas, não falemos nisto; não nos fica bem dizer mais nada.

Shakespeare encerra Otelo com a certeza que não houve traição, que tudo foi um plano vil do seu servo e “amigo” Iago. Ele morre pedindo perdão a Cassio, a quem acreditava ser amante da esposa, por seu ódio sem razão. Há uma redenção, uma moral mais clara e palpável. Bento Santiago, carregava no seu nome o traço vil que culminaria na sua derrocada. “SantIago“, o facínora que entorpeceu a mente de Otelo, não estava presente nesta obra como um personagem ficcional visível, contudo, estava ativo e participante desde a primeira vez que nos foi apresentado o sobrenome do próprio Bento. Este foi traído por si mesmo, entorpecido pelo pior que havia em si. O demônio de olhos verdes sempre habitou o corpo do filho de D. Gloria. Bento não morre fisicamente, mas, em vida segue como morto, apodrecendo diante de todos. Não há uma redenção ou pedido de perdão diante da morte da esposa e depois do filho.

Encerro com a palavra de Douglas Tufano em seu livro Estudos de Literatura Brasileira:

Machado vai além das aparências e procura atingir os motivos essenciais da conduta do homem, descobrindo neles o egoísmo, a luxúria, a vaidade. Por trás dos atos aparentemente bons e honestos, ele surpreende as intenções verdadeiras, o orgulho e a cobiça, desmascarando a hipocrisia humana. Seu humor tinge-se, então, de pessimismo, de uma ironia amarga e cruel. A vida surge como um campo de batalha, onde os homens lutam e procuram destruir-se para gozar poucos momentos de prazer e satisfazer seus desejos de riqueza e ostentação. A natureza assiste ao drama humano com indiferença, e a religião não é senão uma máscara para encobrir o egoísmo dos indivíduos.”

Então amigo leitor, será você o seu próprio inimigo? Dentro dos seus relacionamentos será você mesmo que os envenena? Quantos Iagos, Dons Casmurros e Capitus existem neste mundo? 

Na próxima semana traremos a figura de Joaquim Nabuco para este espaço. Pedimos aos leitores que deixem seus comentários e compartilhem este texto para assim podermos continuar este trabalho.

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