Temos o prazer de apresentar a entrevista que fizemos com Guilherme Mazzafera, doutorando em Literatura Brasileira pela USP, com pesquisa sobre Otto Maria Carpeaux. Ele também é professor de Literatura, colunista do blog Letras in.verso e re.verso e atua como revisor e tradutor junto a HarperCollins Brasil no projeto de publicação das obras de J. R. R. Tolkien. Lançamos esta entrevista para enriquecer a visão de todos com respeito a obra deste gênio.

1 – J. R. R. Tolkien, sem dúvida, é um dos autores mais conhecidos da literatura inglesa tanto pelas adaptações de sua obra “O Senhor dos Anéis” como também pela sua maravilhosa escrita, forma, o mundo e o conteúdo que retrata. Quais pontos da formação acadêmica de Tolkien foram marcantes no seu desenvolvimento como escritor?

Sem dúvida a formação filológica e o rigor dela proveniente, que ao lado de seu admirável talento como contador de estórias, faz com que as narrativas imaginadas por Tolkien sejam das mais enraizadas e verossímeis em qualquer literatura. Nada é mero adorno: cada palavra de Tolkien é cuidadosamente pensada em termos etimológicos e metafóricos, embora como ele mesmo salientou mais de uma vez, os nomes costumam ter precedência sobre a história. Em outras palavras, a partir de algo essencialmente idiossincrático – o gosto pelo sabor de certos sons agrupados em vocábulos – o autor desfia gradualmente uma elaborada teia linguístico-literária que alicerça em profundidade cada palavra em um contexto geográfico-histórico-filosófico-teológico diante do qual só podemos concluir que não há palavra mais certa do que a escolhida. Outro aspecto vital de sua formação acadêmica seria uma visão de mundo ofertada pela Filologia no que se refere à reconstrução de espaços lacunares entre línguas e vocábulos, e por extensão, mesmo entre literaturas, algo bastante explorado pelo grande estudioso tolkieniano Tom Shippey no clássico The Road to Middle-earth [“A Estrada para a Terra-média”], que nos fala das realidades-asterisco sobre as quais Tolkien se debruça e que constituiriam uma espécie de força motriz de sua obra. Em certo sentido, Tolkien escrevia o que queria ler, e como acadêmico especializado em Inglês Antigo e Inglês Médio, as lacunas literárias a se preencher são consideravelmente vastas. O conhecimento deste repertório literário, que naturalmente, extravasa, e muito, o passado inglês, permite que sua obra dialogue de forma viva com tais textos, apropriando-se e recriando passagens e certos usos linguísticos que têm feito a alegria dos estudiosos aos lhes garantir infinitos temas de pesquisa. Por fim, cabe mencionar como essa ideia de reconstituição literária figura na própria moldura ficcional utilizada por Tolkien em “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, nos quais se coloca não como autor, mas sim, tradutor de uma obra escrita originalmente por seus protagonistas hobbits no que fora a fala comum (westron) de um período olvidado e que ele, Tolkien, tendo-a dominado, dedica-se a transpô-la para o Inglês Moderno. É claro que na hora dos vencimentos, o tradutor torna-se pseudotradutor, mas, é instigante perceber como a composição desta metaficção evoca por si mesma, certas referências literárias, sobretudo a Historia Regum Britanniae [“História dos Reis da Bretanha”] (c. 1136), de Geoffrey of Monmouth, que alegava ter traduzido a obra de uma língua bretã para o Latim e que até o século XVI foi lida como um livro de história, e delineia um embaralhamento profícuo entre os discursos literário e historiográfico, a ponto de ser perfeitamente lícito, a meu ver, qualificar a ficção de Tolkien, sobretudo a referente ao seu legendário da Terra-Média, como “história imaginativa” (“imaginative history”), como diz um outro avatar do Tolkien pseudotradutor em Lavrador Giles de Ham (1949).

2. Quais escritores o influenciaram?

A lista é imensa, embora seja possível discutir a aplicabilidade da noção de escritor aqui. As principais influências de Tolkien são provenientes antes de textos que de autores, partícipes de uma cultura majoritariamente anônima. Fala-se, assim, no poeta de Beowulf, o principal texto do corpus literário anglo-saxão e referência absolutamente central tanto na ficção quanto na vida acadêmica de Tolkien. Outros textos fundamentais seriam: Sir Gawain and the Green Knight, junto de Pearl e Sir Orfeo, que Tolkien traduziu do Inglês Médio para o Moderno, o Kalevala finlandês, de onde Tolkien derivou sua História de Kullervo (2015) que, posteriormente, seria recriada em chave autoral nas diferentes versões de Os Filhos de Húrin (2007), um dos três grandes contos da Primeira Era de seu legendário; a Edda Poética e a Edda em Prosa de Snorri Struluson, núcleos centrais da mitologia nórdica; as Sagas Islandesas, como as dos Volsungos, de Njal e de Eirik, o vermelho; o Mabinogion galês; e, inevitavelmente, a Bíblia e sua tradição exegética, com destaque para Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, e o arcabouço mitológico greco-latino e alguns de seus autores incontornáveis como Homero e Platão. Em termos de escritores mais modernos, sem dúvida Geoffrey Chaucer (1343-1400), sobre o qual Tolkien escreveu um “livro perdido” editado há poucos meses por John M. Bowers (Tolkien’s Lost Chaucer), e a tríade inglesa William Morris (1834-1896), Lord Dunsany (1878-1957) e E. R. Eddison (1882-1945). A partir da soma de tais influências, creio que a perspectiva adotada por Tolkien como autor (ele diria subcriador), é análoga a do poeta de Beowulf: um cristão apaixonado pela matéria pagã que procura ressignificá-la à luz de um novo conjunto de valores e necessidades. Assim, Tolkien acaba por compor uma obra inegavelmente fundada sobre um arcabouço religioso cristão que, incorporado organicamente, dispensa qualquer exposição ostensiva deste. Desta forma, Tolkien não apenas supera seu modelo inicial – os puxões de orelha que o poeta de Beowulf dá nos pagãos são literariamente fracos e tediosos – como consegue a proeza de angariar leitores dos mais variados de perfis, de católicos radicais a ateus convictos.

3. Há alguns aspectos biográficos da vida de Tolkien que o inspiraram a escrever algumas partes de sua obra como “O Senhor dos Anéis” ou “O Hobbit”? Sua participação na Primeira Guerra, por exemplo, ou as mudanças sociais advindas com o fim desta?

A experiência nas trincheiras é ponto nodal na biografia de Tolkien e permite análises exemplares como as que se encontram em Tolkien and the Great War (2005), de John Garth. No entanto, ela é também facilmente convertida em explicação alegórica, e assim os orques se tornam de pronto alemães ou russos, a depender do gosto do freguês. Não é difícil ver como uma guerra altera a face física e a espiritual de todo um mundo, como se nota no fecho agridoce de O Senhor dos Anéis: o quarteto hobbit deparando-se com a espoliação perversa de seu querido Condado, tendo de lutar suas próprias batalhas após o aprendizado no “vasto mundo” e, enfim, quando tudo parece se aquietar, um corte definitivo se instaura com a partida de Frodo, Bilbo e Gandalf para as Terras Imortais. Creio, no entanto, que a principal lição que Tolkien tira de sua experiência de soldado, que se alista com certa demora e não sem conflitos internos, é a falácia que motivou o empenho quase épico de milhares de jovens na Primeira Guerra Mundial: a ideia de que aquela seria uma “guerra para acabar com todas as guerras”. Nada menos tolkieniano. Alicerçada em uma cosmovisão cristã, consciente da queda, a obra de Tolkien trata, em grande medida, da “longa derrota” de que nos fala Galadriel em Lórien, sendo impossível a concretização de qualquer vitória definitiva, já que o mal não pode ser extirpado de uma só vez. Antes de Sauron houve Melkor, não nos esqueçamos. É claro que o fato de O Senhor dos Anéis ter sido escrito durante todo o período da Segunda Guerra não deixa de impingir seu peso sobre a narrativa, mas, vejo nessa insistência em escrever a despeito da escuridão do mundo um gesto de resistência contra o esfacelamento da experiência transmissível, tão precisamente diagnosticada por Walter Benjamin. Em certo sentido, a traumática experiência da Primeira Guerra exauriu o sentido épico outrora presente em qualquer descrição literária de batalhas e conflitos armados. O romance de Tolkien retoma um sentido mais antigo de épica, próximo da ideia da Quest, da Demanda medieval, mas também supera a ideia de uma única classe privilegiada, a dos cavaleiros, que se determina e é determinada pelas aventuras que lhes cabem, adotando o protagonismo múltiplo e uma espécie de ponto de vista anacrônico, hobbitocêntrico, de fácil identificação com o leitor, que também entra com pasmo e curiosidade neste vasto mundo de elfos, anãos, ents, orques e magos. Creio, no entanto, que há outro ponto biográfico mais relevante do que qualquer eventual transposição de experiências pessoais para a ficção. Trata-se do próprio locus originário das histórias de Tolkien, que se divide, digamos, em dois. No primeiro, temos a casa familiar, onde a maior a maior parte de sua ficção curta surge como histórias que ele contava aos filhos, seus primeiros ouvintes-leitores, críticos e atenciosos. O segundo espaço é a universidade e os diversos grupos informais que Tolkien montou e participou, sobretudo os Inklings, em cujas reuniões boa parte de O Senhor dos Anéis foi lido e debatido. A junção destes dois ambientes é a marca d’água da ficção tolkieniana, sendo O Hobbit a primeira síntese entre o contador de histórias da família e o filólogo especializado em línguas e literaturas esquecidas, equilíbrio que permite uma primeira leitura infantil, deslumbrada com a história, e infinitas outras, encantadas com a obra, em teses e dissertações mundo afora.

4. Alguns dados apontam uma amizade forte, embora marcada por divergências no campo literário, entre C.S Lewis e Tolkien. Tolkien não viu com bons olhos o primeiro conto publicado de “As Crônicas de Nárnia – O Leão, A Bruxa e o Guarda-roupa”, como também não avaliou bem “As cartas de um diabo a seu aprendiz” embora Lewis havia dedicado esta obra a Tolkien, tendo escrito uma dedicatória. Qual a sua opinião sobre a amizade entre estes dois autores? Houve algum influência do trabalho de um sobre o do outro? Se sim, em que medida? Qual a razão das criticas duras de Tolkien sobre a obra de Lewis?

Em uma resenha sobre a obra O Dom da Amizade, de Colin Duriez, que se dispõe a pensar a vida e obra dos dois autores em paralelo. Procurei descrever a relação deles como a de “Companheiros de viagem”, que partilhavam certo ideário, mas, valiam-se de métodos e perspectivas distintas. Tolkien era o escritor da concentração absoluta, do refinamento progressivo e dedicado, de poucas publicações, o que ajuda a explicar o efetivo caráter póstumo de sua obra, editada majoritariamente por seu filho Christopher. Lewis, prolífico e eclético, atuou em diversas frentes: crítica literária, ficção infanto-juvenil, ficção científica, diversas obras de apologética cristã, além de incursões pela poesia e outras modalidades narrativas. Uma boa síntese desta diferença encontra-se na percepção de Tolkien sobre o vestuário de Lewis como “desleixado”, algo que se refrata também em sua visão geral da produção literária do amigo, marcada, a seus olhos, pelo excesso alegórico nos livros de Nárnia e pela vulgarização presente na apologética cristã. Em contraponto a essa feição mais direta e ostensiva, Tolkien, segundo Duriez no livro citado, oferece uma “abordagem muito mais alusiva do artista criativo”, viés que se alicerça na complexa visão ético-literário-filosófica de seu ensaio mais famoso, a profissão de fé “Sobre estórias de fadas”. A natureza mais aberta e receptiva de Lewis também ressoa na maleabilidade com que absorvia as ideias do amigo, incorporando noções, perspectivas e mesmo termos especificamente tolkienianos em sua obra, como ‘Numinor’, ‘Númenor’ em Tolkien, contrabandeado por Lewis para Aquela fortaleza medonha possivelmente após ouvi-lo na leitura feita pelo amigo de sua narrativa “The Lost Road”. Essa troca de gentilezas apresenta momentos interessantes, como a provável homenagem à voz grave de Lewis na criação de Barbárvore, em O Senhor dos Anéis, enquanto Lewis dá vida ao filólogo Elwin Ransom, protagonista da Trilogia Cósmica, bastante inspirado no amigo hobbit. Além disso, Lewis dedica as Cartas de um diabo a seu aprendiz a Tolkien que, é verdade, parece não ter entendido muito o motivo. Se o termo dupla influência pode ser enganador, já que Tolkien não parece ter absorvido ideias e convicções literárias de Lewis, sendo excessivamente crítico e mesmo chato com o amigo, pode-se falar, talvez, em uma troca mais sutil e profunda, uma compensação. Desta, Tolkien muito se beneficiou graças ao apoio irrestrito de Lewis durante a composição de O Senhor dos Anéis e de sua apaixonada defesa pública das obras do amigo em excelentes resenhas de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Por fim, creio que a dimensão mais profunda da noção de amizade entre Lewis e Tolkien seja a partilha de uma atitude criativa, ficcional, alimentada pela imaginação e que tem em seu âmago a recuperação de certa unidade perdida, localizada, em especial, no em obras do medievo, mas não só. Segundo Duriez, Tolkien e Lewis se viam como “adversários do espírito moderno”, reagindo ao modernismo como estética e dogma intelectual, reação que gestou uma espécie de projeto literário comum, ainda que com realizações marcadamente idiossincráticas, que tinha por horizonte a escrita de “contos de fadas para adultos”. Um dos momentos mais expressivos deste anseio mútuo é a amigável aposta discutida em 1936 em torno da escrita de narrativas de viagem: a Lewis caberia viagem pelo espaço; a Tolkien, viagem temporal. Como de costume, Lewis responderá rapidamente ao chamado com sua Trilogia Cósmica (Além do planeta silencioso, Perelandra e Aquela fortaleza medonha), enquanto Tolkien comporá o esboço de uma primeira estória, “The Lost Road”, abandonada e retomada mais tarde em outra chave em “The Notion Club Papers”. Os dois textos foram publicados, respectivamente, nos volumes V e IX da série History of Middle-earth. Essa busca de unidade manifestava-se não apenas nas obras ficcionais dos autores, mas também comparecia em suas contribuições acadêmicas, por meio de uma apreensão da unidade como soma das partes, de modo análogo ao que Tolkien propunha para o entendimento dos mitos: “Pois o mito vive ao mesmo tempo e em todas as suas partes, e morre antes de poder ser dissecado”. É este o espírito que anima o poderoso ensaio de Tolkien a que pertence esta citação, “Beowulf: The Monsters and The Critics” (1936), em seu anseio pela fruição de uma “obra de arte unificada”, e que se faz sentir, no caso de Lewis, em English Literature in the Sixteenth Century e em Alegoria do amor, no qual a alegoria se faz conceito-chave para pensar diversas obras em suas diferenças como também para caracterizar um modo específico de pensamento literário medieval. Vale ainda apontar como a questão da amizade é um verdadeiro topos tolkieniano, atravessando sua vida pessoal na busca contínua por espaços informais de sociabilidade literária, como evidenciados na experiência do T.C.B.S. (Tea Club Barrovian Society), no Apolausticks, no Clube Viking, nos Coalbiters e, sobretudo, nos Inklings, que, segundo Duriez, era um “círculo indeterminado e não eleito de amigos que se reuniram em torno de C. S. Lewis”, de modo geral “cristãos críticos”, encontrando-se semanalmente nos aposentos de Lewis no Magdalen College e no já lendário pub The Eagle and Child, para ler em voz alta e comentar diversas criações ficcionais in progress. Boa parte de O Senhor dos Anéis teve sua primeira recepção neste restrito ambiente de solidariedade literária e não à toa a primeira impressão de A Sociedade do Anel contava com uma dedicatória ao grupo, que deveria ser mantida pelo lastro histórico que carrega. No mundo secundário da ficção tolkieniana, a amizade não é menos importante, presente desde o título no termo fellowship (sociedade/irmandade) e refratada em pares de personagens como Merry e Pippin, Frodo e Sam, Legolas e Gimli. Para quem tiver interesse sobre o tema, a leitura mais elucidativa é o livro A Amizade em O Senhor dos Anéis (Martin Claret, 2019), da pesquisadora Cristina Casagrande.

5. Por que Tolkien criticava o uso de alegorias?

Em seus próprios termos, porque a alegoria implicaria o domínio proposital do autor sobre o texto, que passa a ter, portanto, uma única interpretação abalizada. Neste cenário, a única tarefa do leitor seria aceitar de antemão uma interpretação dogmática, imutável, sobre a qual ele não teria agência enquanto construtor de sentido. Embora fosse um estudioso do período medieval, no qual a alegoria constituía-se como forma mentis para os literatos, Tolkien pensava diferente, e propunha, em lugar da alegoria, a noção de aplicabilidade, que convida o leitor a ser partícipe do processo interpretativo, relacionando a obra lida com seu próprio repertório de leituras e sentidos. Essa famosa diatribe de Tolkien contra a alegoria está imortalizada no prefácio da segunda edição (1965) de O Senhor dos Anéis, e surge após uma década de críticas alegóricas, que equacionam o romance tolkieniano sobretudo à Segunda Guerra Mundial. Extrapolando um pouco, é possível divisar em O Senhor dos Anéis uma crítica sutil à leitura alegórica e a defesa apaixonada da imaginação como meio de subverter uma realidade que se quer imutável. O ponto central encontra-se na decisão tomada no Conselho de Elrond sobre qual deve ser o destino do Anel. A opção convicta por destruí-lo é absolutamente vital ao instaurar uma ruptura epistemológica que o pensamento de Sauron é incapaz de processar, pois, corrompido como é, não consegue vislumbrar sequer a ideia de que seus inimigos seriam capazes de resistir às tentações do Anel, quem dirá destruí-lo. Assim, de certa forma, a Sociedade do Anel triunfa ao conceber uma leitura subversiva, não dogmática, do problema que precisam confrontar, e cujo sucesso depende tanto do caráter secretivo da missão quanto da arrogância de Sauron, que não se preocupa em guarnecer a Montanha da Perdição contra eventuais hobbits destruidores de anéis. Como lembra Tolkien, se fosse mero simulacro da História, O Senhor dos Anéis seria bem diferente, pois, certamente o anel teria sido tomado e usado contra Sauron, este não teria sido aniquilado, e sim escravizado, e Barad-dûr não teria sido destruída, e sim ocupada. É justamente ao se negar o papel de simulacro, instaurando subversivamente uma outra realidade, abrindo uma brecha no saber constituído, que a literatura, recuperando a arquifamosa distinção aristotélica, se mostra mais universal do que a história. Tolkien bem o sabe.

6. Como brilhante filólogo, Tolkien dedicou trabalho e tempo para desenvolver a escrita dos povos da Terra-média. Como você entende a importância deste trabalho?

Citando algo bastante aludido, mas ainda impressionante, um resenhista do jornal inglês The Guardian, em face de O Silmarillion, teria feito a seguinte pergunta: como, em pouco mais de cinquenta anos, um homem se torna o equivalente criativo de um povo? Esse alumbramento continua a perseguir cada leitor tolkieniano pelo senso de realidade que se desprende da obra. Como o próprio Tolkien diz, as histórias surgiram para que houvesse um contexto vivo em que as línguas que criava tivessem existência. Se a criação de línguas se afigura como seu “vício secreto”, uma espécie de hobby altamente específico, a formação acadêmica e o conhecimento profundo de diversos idiomas lhe permitiram inventar múltiplas línguas com graus variados de desenvolvimento, dentre as quais as modalidades de élfico Quenya (alto-élfico) e Sindarin (élfico-cinzento) são as mais completas. O mais impressionante para quem se dispõe a estudar estes idiomas – e sim, há pessoas que o fazem e bons materiais à disposição, como os estudos de Carl F. Hostetter e os cursos de Quenya e Sindarin de Helge Fauskanger, estes últimos com traduções para o Português publicadas pela Editora Arte&Letra, é que, embora não sejam línguas “perfeitas” e não se possa exatamente fundar um país que as adote como idioma oficial, Tolkien as desenvolveu com apurado rigor e coerência, de modo que pequenas unidades linguísticas carregam sentidos profundos e de grande importância na hora de compor nomes e caracterizar seus detentores. Por exemplo: “dôr”, em Sindarin, possui um sentido geral de “terra firme, por oposição ao mar”, presente em nomes como Doriath, Eriador, Gondor, Mordor. No caso deste último nome, o elemento “mor”, por sua vez, apresenta o sentido geral de “escuro, sombrio”, visível em nomes como Morgoth, Moria, Morwen, Moriquendi, Mormegil. Assim, Mordor = “mor” (sombrio) + “dôr” (terra) = Terra da Sombra. Além disso, Tolkien desenvolveu alfabetos próprios valendo-se de seus dons caligráficos e recuperando o uso antigo das runas anglo-saxônicas. Não foram poucos os leitores que tentaram desvendar o que estava escrito no Mapa de Thror em O Hobbit. Curiosamente, a edição da Martins Fontes manteve as runas neste mapa como no original, de forma que ao decifrá-las o leitor iria encontrar uma mensagem escrita em inglês. A edição atual da HarperCollins Brasil corrigiu este deslize, além de ter adotado, nas inscrições do Mapa, uma caligrafia mais próxima à empregada originalmente pelo autor. Em resumo, mais do que um “vício secreto”, o empenho de Tolkien em desenvolver línguas e alfabetos contribui de forma poderosa para instilar no leitor que adentra seu mundo secundário aquela “consistência interna de realidade” indissociável de toda boa narrativa. E as novas edições da HarperCollins Brasil têm se aproveitado disso ao inscrever as runas nas próprias capas dos livros, explicando o passo a passo de sua tradução para o Português em um breve apêndice no final dos livros, ancorando-os, ainda que ficcionalmente, no instigante campo da história material. A atuação de Tolkien como Calígrafo ainda é muito pouco estudada, sendo muito importante, neste sentido, a dissertação de mestrado feita por Eduardo Boheme junto ao Trinity College Dublin, que, partindo dos critérios estabelecidos ou defendidos por Tolkien sobre tradução literária, analisa como um determinado conjunto de poemas de Tolkien foi traduzido no Brasil, aplicando-se critério análogo a certos aspectos caligráficos de O Hobbit, tomando por base, nos dois casos, as edições até então publicadas pela Martins Fontes.

7. Quais mitos e lendas serviram de base para a construção dos personagens das obras de Tolkien?

Creio já ter falado um pouco sobre isso ao indicar os principais “autores” que o teriam influenciado, mas, talvez possamos coordenar um pouco aquelas múltiplas variáveis recorrendo ao trabalho do excelente pesquisador tolkieniano Diego Klautau, que tem se debruçado com afinco sobre o conjunto de matrizes literárias e filosóficas de Tolkien. Em seu artigo “Tolkien e suas referências”, Klautau propõe quatro eixos principais, provenientes das tradições céltica, germânica, helênica e hebraica. A matriz céltica incluiria Sir Gawain and the Green Knight (vinculado à matéria arturiana) e o Mabinogion galês, por exemplo. Já as referências germânicas se ligam às Eddas, às Sagas e ao corpus anglo-saxônico, Beowulf à frente. As matrizes gregas comparecem principalmente nas teorizações sobre mitologia e poemas heróicos, estando presentes inclusive nas formulações de certos termos-chave da poética tolkieniana como mitopeia e eucatástrofe, por exemplo. Destacam-se, ainda, leituras da Poética aristotélica e da República, que contém a história do anel de Giges, possível matriz do Um Anel, e do Timeu platônicos, o mito de Atlântida refratado na Queda de Númenor em O Silmarillion. Por fim, além de uma cosmovisão geral, que incorpora certa noção de providência divina, a matriz bíblica comparece sobretudo em uma possível releitura do Gênesis na criação do mundo retratada no Ainulindalë e na ideia do dilúvio presente no Akallabêth, a Queda de Númenor, narrativas que integram O Silmarillion. Um dos aspectos mais fascinantes das pesquisas sobre Tolkien é justamente a de tentar desvelar o aproveitamento produtivo que o autor fazia de tais matrizes literárias. Por exemplo: o roubo da taça do tesouro do dragão em Beowulf serviu de matriz para a cena análoga em O Hobbit, mas, Smaug é um dragão distintamente moderno no uso que faz da linguagem e na própria constituição de sua “personalidade bastante avassaladora”, mas, ainda carrega o aspecto mais bestial dos dragões de outrora. Moderno não necessariamente por falar, já que isso já ocorria no Fáfnismál, poema da Edda Poética que serve de inspiração para o diálogo Bilbo-Smaug, mas, ao acoplar, como nota Tom Shippey, a polidez rangente ao puro ímpeto violento. Uma visada mais ampla permite perceber a disseminação da ideia da voz como feitiço sobre os incautos e rígido mecanismo de controle em outro dragão tolkiekiano, Glaurung, e de modo talvez ainda mais enfático na figura se Saruman, a ponto de termos um emblemático capítulo de O Senhor dos Anéis intitulado justamente “A voz de Saruman”. Um bom mosaico sobre esta área de estudos encontra-se na seleta organizada por Jason Fisher, Tolkien and The Study of His Sources (2011). Mais próximo de nós, há, por exemplo o excelente mestrado de Fernanda Correia, defendido no Mackenzie, que se dedica à figura de Melkor, o primeiro Senhor Sombrio, mostrando-nos como ele não é uma variante nem do Loki nórdico nem do Satã bíblico, mas sim, um fusionamento bastante particular destas fontes em algo diverso e original.

8. Fale um pouco sobre a obra SILMARILLION, esta que ainda reside como pouco conhecida do grande público.

Primeiramente, é preciso lembrar que O Silmarillion é uma obra editada e em grande parte arranjada por Christopher Tolkien a partir dos escritos de seu pai, o que dilui um pouco qualquer sentido unívoco de autoria. O próprio Christopher, anos mais tarde, com maior conhecimento sobre o vastíssimo espólio paterno, já se mostrou menos convicto de certas escolhas feitas durante a composição do livro. Em certo sentido, foi uma obra que Tolkien escreveu por mais de cinco décadas e que, embora nunca a tenha finalizado, sempre tentava inseri-la de permeio ao publicar um novo livro. Certamente não um romance, O Silmarillion estrutura-se como uma espécie de compêndio mitológico do legendário tolkieniano. Uma comparação bastante gasta, mas que ainda tem certa validade, é a de que O Silmarillion seria uma espécie de Antigo Testamento do mundo de Tolkien, cujo Novo Testamento equivaleria a O Hobbit + O Senhor dos Anéis. Seu escopo é vastíssimo, passando pela história da criação do mundo através de uma música regida por Eru Ilúvatar e da qual participavam os Valar, os poderes do mundo; a dissenção ocasionada por um destes, Melkor, cuja animosidade pelos demais traz inúmeras consequências; o despertar dos elfos, os primogênitos de Ilúvatar; a formação de seus múltiplos clãs; a constituição de rixas internas com consequências trágicas; o surgimento dos homens e dos anãos e os feitos de importantes heróis como Túrin Turambar, Beren Erchamion e Tuor Eladar, cujas trajetórias individuais Tolkien desenvolveu com maior vagar, podendo ser encontradas, respectivamente, em Os Filhos de Húrin (2007), Beren e Lúthien (2017) e A Queda de Gondolin (2018), obras também editadas por Christopher Tolkien e referentes à Primeira Era do mundo. Este conjunto de eventos encontra-se entremeado pela intricada história das Silmarils, belíssimas gemas de luz criadas pelo artificioso elfo Fëanor e a disputa pela posse destas três joias causará muitas mortes e pesar entre elfos e homens. O Silmarillion ainda nos conta um pouco sobre a Segunda Era e o esplendor e miséria do reino de Númenor, e finda com algumas observações sobre os Anéis de Poder e a Terceira Era, quando os eventos relatados em O Hobbit e O Senhor dos Anéis têm lugar. Embora O Senhor dos Anéis tenha mais que o dobro do tamanho de O Silmarillion, a leitura deste tem oferecido muitas dificuldades aos interessados. Em parte pela profusão de nomes e eventos, relatados com considerável brevidade, mas, sobretudo, pela adoção de um estilo arcaizante de linguagem, com fortes ecos bíblicos, que muitas vezes obriga o leitor de língua inglesa a valer-se do dicionário e a conduzir uma leitura necessariamente mais vagarosa. Apesar das dificuldades, a leitura de O Silmarillion, e, caso haja fôlego, de suas múltiplas derivações, é passo essencial para a compreensão do que o próprio Tolkien chamou de “uma única longa Saga das Joias e dos Anéis”.

9. As traduções nem sempre são confiáveis devido a complexidade do conteúdo, pelo grande afastamento linguístico da língua original com a vernácula da tradução, pela incapacidade do tradutor e diversos outros fatores. As traduções da obra para o Português Brasileiro são tecnicamente bem realizadas? Quais traduções vocês recomendam?

Este assunto é bastante complexo e instigante e, por isso, peço licença para um pequeno excurso. As primeiras traduções de Tolkien apareceram de forma não oficial por aqui nos anos 1970, pela editora Artenova. Além de um resultado questionável tanto na parte de nomenclatura quanto na descritiva, no caso de O Senhor dos Anéis, a edição omite os seis Apêndices, ocultando dos leitores brasileiros diversas informações importantes sobre um mundo muito mais amplo do qual o livro que têm em mãos é apenas parte. Mas, em compensação, nos brinda com alguns nomes divertidíssimos como Gandolfo e Pipinho. O segundo movimento deu-se a partir dos anos 1990, com as primeiras traduções oficiais de O Senhor dos Anéis (1994), O Hobbit (1995) e O Silmarillion (1999), publicadas pela Martins Fontes. A melhoria em termos de qualidade tradutória é bastante evidente, e sua importância história é ainda maior por sua proximidade com os primeiros filmes de Peter Jackson, angariando toda uma nova geração de leitores. Os tradutores responsáveis por estes livros – Lenita Esteves (prosa) e Almiro Piseta (poesia) no caso dos dois primeiros, e Waldéa Barcelos no caso do terceiro – são exímios profissionais, mas, não necessariamente especialistas na obra de Tolkien. É neste momento, também, que uma figura absolutamente fundamental para a presença de Tolkien no Brasil começa a ganhar destaque: Ronald Kyrmse. Atuando como revisor técnico destes livros, Ronald assumirá a dianteira nas traduções de outras obras tolkienianas, a começar por Contos Inacabados em 2002, e permanece como a grande referência para fãs e estudiosos até hoje. A Martins Fontes trouxe muitas obras de Tolkien em boas edições, até sermos surpreendidos no começo de 2018 com a notícia de que a HarperCollins Brasil havia adquirido os direitos das obras do autor. Desde então, experimentamos algo sem precedentes, não só em termos da qualidade física dos livros, mas sobretudo na parte textual. Creio que o principal diferencial consiste na abordagem da HCB, que procurou construir um time de tradutores e revisores versados em Tolkien, e conduzir os trabalhos com o máximo de diálogo possível, a começar pela composição de um Conselho de Tradução, encabeçado pelo gerente editorial, Samuel Coto, e pelos tradutores Ronald Kyrmse, Reinaldo José Lopes e Gabriel Brum. Algumas das decisões do Conselho, sobretudo a escolha por traduzir orc por orque, e goblin por gobelim, causaram certa polêmica pelo inusitado da novidade. Embora talvez não se possa afirmar que são mudanças absolutamente necessárias, são opções sem dúvida previstas e fundamentas nos escritos de Tolkien, sobretudo em um texto específico sobre tradução que ele nos legou, A Guide to the Names in The Lord of the Rings” (Guia dos Nomes em O Senhor dos Anéis). Como a maioria dos leitores já percebeu, trata-se de mero costume que pode sim ser subvertido, respeitando a aplicabilidade dos leitores em questão, no caso, o Conselho de Tradução. O que os comentários abrasivos sobre os termos acima ignoram, na maioria das vezes, é um trabalho extremamente consciencioso em ofertar uma tradução que valorize o empenho literário de Tolkien, procurando preservar seus efeitos e ressonâncias. Assim, o Silmarillion atual, oferta de forma muito mais efetiva os frequentes ecos bíblicos e a linguagem arcaizante e paratática que o leitor de língua inglesa se depara ao abrir o volume e ao atravessá-lo com certa dificuldade. Creio que a retradução de O Senhor dos Anéis é exemplar em termos do novo Tolkien que a HCB tem procurado nos apresentar. A edição da Martins Fontes, a despeito de seus muitos méritos, que continuam em grande parte presentes na nova edição, possui três defeitos principais: 1) é incompleta, contando com múltiplas omissões do texto original, provável fruto de um trabalho editorial pouco rigoroso; 2) a tradução tomou por base a versão inglesa mais atualizada de então, a edição de 1994, que contém inúmeros erros que só foram corrigidos na década seguinte com a famosa edição de 50 anos capitaneada pelo casal tolkienista Wayne G. Hammond e Christina Scull; 3) a despeito da grande variedade de personagens, a sensação geral é a de que todos falam de forma mais ou menos igual, sem variedade de registros linguísticos. A nova tradução procurou dar conta destes descaminhos assegurando a completude do texto, o que torna a edição atual a primeira efetivamente integral em Português Brasileiro, tomando por base a edição mais completa e atualizada do original e ofertando maior variedade linguística, parte essencial na constituição dos personagens de Tolkien. Deste modo, um elfo e um hobbit soam muito diferentes ao falar, o que não impede, no entanto, que um hobbit como Frodo, detentor de uma cultura e curiosidade acima da média de seu povo, apresente considerável oscilação de registros, variando sua fala de acordo com seu interlocutor, algo também feito com grande habilidade por Gandalf. Naturalmente, não existe tradução perfeita, aliás, até hoje não existe de fato uma edição definitiva de O Senhor dos Anéis em inglês, o que fatalmente torna imperfeitas as traduções anteriores quando do lançamento de uma nova edição mais “atualizada” ou “corrigida”, mas, o trabalho de Ronald Kyrmse nesta retradução foi sem dúvida excepcional, com destaque, além das questões indicadas acima, para a esmerada tradução das dezenas de poemas entremeados ao livro, cuja variedade métrica e rímica é verdadeiramente espantosa. Respondendo de forma mais direta a pergunta: não tenho dúvidas de que as traduções da HCB são superiores, justamente porque puderam contar com as anteriores para saber o que manter e o que melhorar. Mas, ao fim e ao cabo, o gosto sempre interfere na apreciação de um livro. A questão é discernir se quem fala é o gosto ou um impulso dogmático e ultracanônico, Tolkien diria alegórico, que rejeita qualquer novidade em prol da memória afetiva. Eu, como muitos outros leitores, cresci com as traduções da Martins Fontes, que li com devoção até conseguir apreciar o original e perceber alguns dos problemas daquela edição. Hoje, tendo o privilégio de participar da revisão das novas traduções do trio de obras principais de Tolkien publicadas pela HCB, e atuando agora também como tradutor, digo sem receios que nunca houve época melhor para ser leitor de Tolkien no Brasil. Da minha experiência de contato direto com a equipe editorial, não posso deixar de mencionar o empenho, o profissionalismo e sobretudo a acessibilidade de todos para discutir eventuais dúvidas e dissidências, tendo sempre como norte compor a melhor versão possível das obras de Tolkien em Português.

10. A Amazon está desenvolvendo uma série de O Senhor dos Anéis, qual a expectativa de vocês?

Tento não ter muitas expectativas para não me frustrar como ocorreu com o segundo e terceiro filmes de O Hobbit. Mas, confesso que me incomoda muito essa necessidade urgente de transformar livros em filmes, vide a frequente pergunta “quando vai sair o filme do Silmarillion?”, geralmente feita por quem nunca leu o livro, como meio de alavancar as vendas dos livros, que ganham as “capas de filme” e maior espaço nas livrarias. Meu maior receio, na verdade, é que a Amazon planeje transformar Tolkien não em um novo “Game of Thrones”, o que não deixaria de ser irônico, dada a considerável influência do primeiro sobre o segundo, mas, sim em um novo Star Wars, no que se refere às infinitas possibilidades de um “universo expandido”. A escolha da Segunda Era como recorte temático parece reforçar este intuito, já que a escassez comparativa de escritos tolkienianos sobre o período exigirá considerável grau de invenção dos roteiristas e, se tal abordagem inventiva for bem recebida, abre-se e muito, a porta para outras possibilidades derivadas. Em uma época na qual uma série de sucesso quase sempre gera descendência, não seria nada improvável termos um spin-off sobre os Corsários de Umbar, outro sobre a formação de Rohan e ainda outro e por que não? sobre os Ents e a irreparável perda de suas Entesposas. A recente morte do filho e principal editor de Tolkien, Christopher, em 15 de janeiro, gerou algumas reações extremamente rudes e desrespeitosas, que ansiavam por saber sobre o “futuro da obra de Tolkien”, como se Christopher fosse um ambicioso e obsoleto testamenteiro dos escritos paternos. O que estas pessoas parecem esquecer é que, sem Christopher e seu diligentíssimo trabalho, materializado em mais de duas dezenas de livros derivados da obra do pai, a maior parte da Terra-média nos estaria vedada. É evidente que sem o universo expandido, Star Wars dificilmente seria ainda tão relevante como fenômeno cultural, mas a verdade é que Star Wars nunca foi uma obra ostensivamente autoral, não possuindo propriamente uma essência. É claro que possui feições características, temas-chave, bordões etc., mas, estes podem ser ressignificados por mãos e mentes talentosas e dispostas a tanto, e um exemplo claro é a trilogia Thrawn, de Timothy Zahn, que me parece bastante superior, em termos de coerência, a esta trilogia que há pouco se encerrou. Tolkien chegou a antever a possível construção de um universo expandido para sua própria obra, quando tenta explicitar seu intuito com o legendário a um pretenso editor: “Eu desenvolveria alguns dos grandes contos na sua plenitude e deixaria muitos apenas no projeto e esboçados. Os ciclos deveriam ligar-se a um todo majestoso e ainda assim deixar espaço para outras mentes e mãos, munidas de tinta, música e drama.”  E, sabiamente, arremata: “Absurdo.” O absurdo aqui, a meu ver, refere-se não apenas à escala megalomaníaca do que Tolkien tentou impor ao projeto, e que em grande parte realizou. Refere-se, também, à clara consciência de que se trata de um projeto absolutamente pessoal, enraizado em suas preferências e idiossincrasias. E, mais do que isso, em uma compreensão profunda que conduz a um uso altamente particularizado da linguagem, fruto de muito estudo e apaixonado convívio com textos e vocábulos. Penso que outras mentes e mãos até podem elaborar pequenos enredos coerentes, mas inventar um nome que seja, com a ressonância linguístico-mitológica de Lothlórien, Nimrodel ou Eärendil, é trabalho para um verdadeiro autor. Como disse Tolkien a seu editor Stanley Unwin ao entregar o manuscrito de O Senhor dos Anéis, “Ele está escrito com meu sangue, tal como é, grosso ou fino, e nada mais posso fazer”. É claro que boas adaptações são possíveis, e Peter Jackson já o provou, para o bem e para o mal. Mas, este possível anseio de rapinagem produtivista em cima de uma obra tão esmerada e que exige uma fruição parcimoniosa me preocupa bastante. No fim, só me resta torcer para que a série seja boa ou ruim o suficiente para atrair novos leitores para os recônditos do legendário tolkieniano.

11. Quais as obras, se é que há como escolher, que vocês consideram as mais primorosas deste autor?

É muito difícil escolher um único título, mas, se forçado a tanto, ficaria com O Senhor dos Anéis (1954-55). A pungência da obra-prima de Tolkien exige um leitor contemplativo, capaz de sopesar os eflúvios da fantasia de livre curso com uma forte carga de realismo, fantasia exata, equilíbrio sem o qual o livro não se sustenta e que se arvora em tema essencial: “sem o elevado e o nobre, o simples e vulgar é totalmente vil; e sem o simples e ordinário, o nobre e heroico não possui significado.” Além disso, lembremo-nos da preciosa observação de W.H. Auden sobre a obra, em que a vitória da demanda do anel encontra-se alicerçada, sobretudo, na capacidade imaginativa de seus heróis, orgulhosamente ausente em Sauron, cujo arrogância o impede de sequer conjeturar a viabilidade da destruição do Anel por seus antagonistas. É na liga orgânica entre o lúdico gozo da subcriação e o senso ético da imaginação que, para mim, reside o veio profundo e urgente da ficção tolkieniana. Penso que uma biblioteca tolkieniana básica também não pode prescindir de O Hobbit (1937) e O Silmarillion (1977), que nos conduzem, no primeiro caso, por um mundo mais contido e ingênuo, mas, com consideráveis ressonâncias apenas intuídas de uma história mais ampla, e, no segundo caso, por vastidões cosmogônicas, embates épicos e tragédias pessoais e coletivas. Da ficção curta, considero indispensáveis estas três pequenas joias: Lavrador Giles de Ham (1949), Ferreiro de Bosque Grande (1967) e Cartas do Papai Noel (1976). Por fim, impossível não recomendar a profissão de fé filosófico-literária de Tolkien, o incontornável ensaio “Sobre estórias de fadas” (1947).

12. Defina Tolkien em uma frase

Ler Tolkien é experimentar a imaginação como arcabouço histórico, fantasia exata.

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