Muito tem se falado recentemente do polêmico ato do príncipe Harry da Inglaterra, ter deixado para trás seus deveres como membro da família real para viver uma vida de plebeu no Canadá. Todavia, a polêmica do príncipe Harry já se iniciou na escolha de sua noiva, a atriz Meghan Markle, que não possui nenhum vínculo com a realeza ou título nobiliário. Neste sentido, o casamento entre as figuras de alta estirpe, desde os períodos muito antigos, tem que ser estrategicamente planejado, uma vez que são alianças com outras famílias ou nações, que podem tanto representar grandes avanços para a monarquia, quanto declínio, guerra ou disputas internas. Por isso desde períodos muito antigos tem-se registros de casamentos entre membros de uma mesma família, objetivando a centralização do poder para evitar o revés das disputas internas e o enfraquecimento e divisão do poder do rei.

Um dos registros mais antigos, que se tem de casamento entre pessoas da mesma família, é o narrado por Eusébio de Cesareia, que em sua crônica de número 60, relata o casamento entre Cleópatra – regente do Egito, com seu irmão, Ptolomeu XIII, e após a morte deste em uma guerra contra Cleópatra, ela sob influência de Caio Julio Cesar, casou-se com seu outro irmão, Ptolomeu XIV, sendo importante lembrar que os pais de Cleópatra eram irmãos, assim como os pais do faraó Tutancâmon também eram irmãos, e este também casou-se com uma meio irmã. O objetivo de tais uniões era o fortalecimento da linhagem em questões identitárias e políticas.

Tal prática de comunhão entre irmãos ou entre pais e filhos, não é observada em nenhuma outra civilização naquele período além do Egito, sendo até mesmo vista como um tabu pelos gregos antigos, que se horrorizaram com a tragédia escrita por Sófocles, intitulada Édipo Rei, que narra a trajetória de um homem que ao tentar fugir de seu destino, que seria matar o seu pai e desposar sua mãe, acaba por realizar tal feito, trazendo consequências trágicas para a cidade de Tebas, onde ocupa a regência. Tanto é verdade que a palavra “incesto” nasceu na cultura greco-romana como um verbete latino para algo impuro. Todavia, o casamento entre consanguíneos de linhas colaterais não lhes era uma prática estranha, como é observado no matrimônio de Leônidas I, rei de Esparta, com Gorgo, que segundo é narrado por Heródoto, em Polymnia, livro VII, seria filha de Clêomenes I, meio irmão de Leônidas.

A prática de celebrar casamentos entre primos ou sobrinhos perpetuou-se do período antigo, passando pela Idade Média, chegando até o modernismo, e a queda do estado monárquico, em grande parte da Europa. Esta prática, nominada como endogamia, consiste na união entre membros de uma mesma linhagem, com o objetivo de preservar o poder nas mãos de um grupo escolhido preservando uma dinastia, sendo muito comum não só na Europa, mas também na Índia, no Japão Feudal e até mesmo entre os Incas.

Desta forma, observa-se o matrimônio dos nobres não como uma questão de afinidade, mas, sim, como uma questão de interesses políticos de uma coletividade, uma vez que poderiam ocorrer casamentos com membros de outras famílias quando fosse necessário celebrar uniões de forças com essas famílias, celebrar a paz, ou homologar qualquer outro interesse em comum entre duas grandes famílias, como é o caso do imperador Dom Pedro I, que ao contrair matrimônio com a imperatriz Maria Leopoldina, foi realizado com o intuito de unir forças entre as famílias Bragança e Habsburgo.

Tais casamentos arranjados foram muito comuns por toda a Europa até o século XIX, onde ao analisar-se a árvore genealógica da Rainha Vitória da Inglaterra, que era casada com Albert da Saxônia, seu primo em primeiro grau e a descendência do rei Cristiano IX da Dinamarca, que era casado com Luisa de Hesse-Cassel, sua prima de segundo grau, veremos que George V, rei da Inglaterra, era neto paterno de Vitória e neto por parte de mãe de Cristiano XI, assim como o Czar Nicoulau II era neto por parte de pai do Rei Cristiano. Ou seja, Carlos V e Nicolau II eram primos distante, e conforme é possível observar na foto que ilustra essa matéria, passariam facilmente por gêmeos univitelinos. Outro vulto de grande importância para a época, que também era neto da rainha Vitória, foi Guilherme II, que governava a Alemanha durante a 1º grande guerra.

Conforme observado acima, de forma majoritária, toda a nobreza da Europa possuía graus de consanguinidade, fato este que serviu para pretexto de anulações de matrimônios onde ocorriam divergências políticas, como foi o caso do rei Luis VII da França, que se divorciou de Eleonor de Aquitânia em 1152, sob o pretexto de consanguinidade próxima, que era vedada pelo direito canônico naquela época, que só permitia casamentos em um grau distante de parentesco.

No contexto biológico, a união entre os consanguíneos é vista como algo nocivo, tendo em vista a propensão a uma série de deficiências, uma vez que a herança genética paterna e materna sendo a mesma, ela estará sujeita as mesmas falhas, que seriam preenchidas ao fundir-se com a herança genética de outras pessoas. Por este motivo Alexis, o filho de Nicolau II, era hemofílico, fato este que acabou abrindo brecha para que a família do Czar abrisse as portas para Rasputin e caisse em desgraça.

Outro fator comum além da hemofilia e do daltonismo, é a má formação física, que se torna hereditária, como no caso dos Habsburgo, onde era comum o prognotismo, uma anomalia que faz com que a mandíbula seja sobressaída. Tal anomalia foi apelidada de “queixo Habsburgo”, e é possível identificá-la ao observar os retratos do rei Carlos II da Espanha, que em decorrência dessa herança genética possuía dificuldade na dicção e na mastigação.

Outra figura histórica que também sofreu anomalia congênita, foi o faraó Tutancâmon, que sofria de escoliose que lhe dificultava a locomoção de forma tão severa, que alguns estudiosos afirmam que o faraó sofria de síndrome de Klippel-Feil, uma anomalia congênita que consiste na ausência ou fusão de ossos no sistema vertebral. Além disso, ao examinar a sua famosa múmia, verificou-se que sua arcada dentária superior era projetada para a frente, uma característica comum dos membros linhagem real Tuteméses, no qual pertencia.

Neste sentido, observa-se como reiterada a prática de casamentos arranjados e consanguíneos entre as altas estirpes governantes das grandes nações do início dos registros históricos, até o fim da monarquia como regime governamental majoritário. Todavia, ao observa-se essa prática, sob o prisma político, deve-se levar em conta o fato de que a figura do monarca, que regerá uma nação, deve ter seus atos políticos estrategicamente planejados, uma vez que um rei vive para o reino, e não é possível separa-lhe a vida pública da vida privada, por isso, como um sacerdócio, o rei abdica de seus interesses pessoais ao contrair matrimônio com uma figura que representará grandes benesses para a nação no qual o rei governa. Sendo desta forma um ato de altruísmo a contração de matrimônio por parte dos monarcas, e uma necessidade para a nação.

Fontes:

CESAREIA, Eusébio de. Crônica, 60, Sobre os que governaram o Egito e a cidade de Alexandria após Alexandre da Macedônia. Dos escritos de Porfírio

SÓFOCLES. Édipo rei. Trad. Trajano Vieira. São Paulo: Perspectiva, 2005.

HERÓDOTO, Histórias, Livro VII, Polímnia, 239

JUNIOR, Hilário Francisco. A Idade Média: O nascimento do Ocidente. Editora Brasiliense

DUBY, Georges. AIRES, Philippe; HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA 2: Da Europa feudal a Renascença, Editora Companhia de Bolso. 

BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. Editora Edições 70.

CARTER, Miranda. OS TRÊS IMPERADORES. Editora Objetiva.

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