Arte

Grande Mojica!

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Muitos conhecem José Mojica Marins como cineasta e ator de um único personagem – o Zé do Caixão – chegando mesmo a confundir criatura com criador. Mas eu o conheci como pessoa e diretor de teatro. Nunca foi reconhecido como deveria por nenhum de seus talentos: produtor, diretor, ator, professor ou político, muitas das faces desse ser humano gentil, inteligente, talentoso, bom pai de família, amigo dos amigos, uma personalidade controversa por ser muito à frente de seu tempo. Acredito que tenha morrido pobre, em sua casa no bairro da Mooca, sem lei Rouanet que patrocinasse seus projetos.

Em 1983 fui sua assistente de direção teatral em uma peça em cartaz no, hoje demolido, Teatro das Nações, na Av. São João, famoso também por ser palco das comédias de Dercy Gonçalves. A peça chamava-se “O Ritual do Sexo” e tinha como chamada nos letreiros da entrada “Nudez total” e “Nu frontal”. Eu estava no primeiro ano da faculdade de Artes Cênicas e fui pedir uma oportunidade para aprender algo de útil como pessoa de teatro depois de assistir a essa peça ao lado de Antunes Filho e Ulisses Cruz, que foram conferir a montagem bem escondidos no escurinho da plateia, como anônimos, para não se exporem, já que eram diretores de teatro de grandes companhias de teatro-cabeça, seja lá o que isso signifique para a Arte ou para a Cultura.

Mojica me atendeu prontamente e disse sem rodeios: “Não posso pagar nada, depois te explico, venha amanhã às nove da manhã”.  Dia seguinte eu estava lá para ser a assistente de direção do José Mojica Marins, que usava camisa social e calças jeans. “Sente-se ao meu lado e pegue o maço de cigarro que está no meu bolso”. Foi a primeira instrução, já que suas unhas compridas impediam que ele pegasse o objeto que estava no bolso da frente da camisa. “Fique aí vendo, que você vai aprender muito comigo. O Glauber Rocha quando foi meu assistente não sabia nem pegar numa câmera”. Ele estava certo. Foi uma das experiências mais ricas que vivi em minha carreira teatral. Grande Mojica!

Para os que se impressionaram de uma garota católica trabalhar como estagiária em uma peça pornô, quero dizer que o título da peça era uma falsa propaganda que revoltava os populares que pagavam o ingresso, pois a “nudez total” era bem de longe e à meia-luz; e o tal “Nu frontal” acontecia na última cena, no escuro, de forma que ninguém via nada. Mas por que o Mojica, cineasta, montaria uma peça de teatro?

Era uma época de censura, eu vivi para ser testemunha ocular dessa História. Desde 1969 o filme “O Despertar da Besta” , que ele escreveu, produziu e dirigiu estava finalizado e pronto para distribuição. Muito dinheiro havia sido gasto na produção, dinheiro do bolso do Mojica, sem lei de incentivo e o filme foi censurado e sem prazo de liberação. Até a casa dele foi empenhada para pagar a produção. Nessa situação de emergência, sem recursos nem para as despesas do dia-a-dia, surgiu um financiador que tinha escrito essa peça em que Zé do Caixão era personagem-narrador e o tal produtor/financiador/autor/ator da peça interpretava um demônio chamado Leviatã.

A história da peça era mais ou menos assim: uma moça do interior vai para a cidade grande e conhece um rapaz, apaixona-se, transam, mas na verdade ele está incorporado pelo espírito do demônio Leviatã.  Ele vai viajar para contar à família dele do casamento, mas no meio do trajeto sofre um acidente e ela recebe uma carta da mãe dele contando de sua morte. Ela está grávida, tem pesadelos com o Leviatã e se mata no final para não ter a criança demoníaca. Meio plágio de “Bebê de Rosemary”, em versão tupiniquim. Enredo muito forte…

Fui para ajudar a ensaiar a terceira atriz que faria o papel principal, pois a primeira ficou doente e a segunda sofreu um acidente de moto e quebrou a perna. A terceira era uma jovem que Mojica encontrou em um dos muitos cursos que ministrava nas pequenas cidades de Minas Gerais, sua experiência era apenas de animar festas infantis. Eu tinha que aprender a ensaiar os atores como Mojica o fazia, contrariando todos os professores, livros e autores da faculdade de teatro.

Mojica era filho do Circo, a escola cênica mais eficiente e tradicional do mundo, em que os artistas não têm tempo nem dinheiro para gastar em laboratórios e muitos ensaios conjuntos, pois precisam praticar suas próprias performances diariamente. Nada de Stanislavski, Brecht, Boal ou Kusnet.  Seu método era simples.  Na cena em que a protagonista lia a carta comunicando a morte do namorado, ele subiu ao palco, arrancou o papel das mãos da atriz, e demonstrou: “Fique aqui de lado e olhe: Não é assim que você deve ler uma carta! O locutor vai estar em off e você tem que ir ouvindo o que ele fala e sentindo a emoção no rosto aos poucos até chegar ao desespero”, e ele interpretava como devia ser e finalizava: “Agora você faz igual a mim que fica bom”. Grande Mojica! A atuação dele era definitiva, qualquer coisa diferente daquilo era falso, menor.

Em outra ocasião, ocorreu outro fato curioso e constrangedor logo depois de eu aprender a fazer o melhor sangue com casca de ferida falsa da minha vida, melhor que em todas as aulas de maquiagem artística, em que ele empregava Ki-suco misturado com chocolate em pó e água. Ainda com as minhas unhas sujas, porque ele nem tocava nesses pós, com razão, fomos tomar um café no bar ao lado do teatro, quando um homem muito doente, olhos amarelados e abatido veio falar conosco. Ele queria se apresentar e perguntar ao Zé do Caixão se ele, que estava com câncer de fígado em estado adiantado, iria para o inferno, pois sua doença era decorrente do alcoolismo e ele era responsável pelo seu vício. “Pare com isso de inferno ou morte agora. Pense na sua família e reze para Deus, que se ele quiser você se cura e nem sabe como”, falou o Mojica, para motivar o rapaz. Grande Mojica!

Nas últimas vezes que estivemos juntos ele me fez uma proposta tentadora: “Vera, vou me candidatar a vereador. A classe artística não tem ninguém que a represente, precisamos dar espaço e voz para os artistas, o pessoal do circo, do cinema e dos bastidores, da produção, os dramaturgos, os músicos. vê se me ajuda. Faz uma rifa para a gente poder fazer santinhos, sei lá, você é criativa, inventa qualquer coisa!” Peguei um monte de bugigangas que eu tinha e vendi. Não deu. Ele só obteve a candidatura em 2004, e foi derrotado. Até hoje não temos ninguém que represente a Cultura e a Arte na Câmara de Vereadores de São Paulo. Grande Mojica! Teria feito História na Política.

Hoje soube que morreu aos 83 anos, de pneumonia. Rezemos como ele queria que todos fizéssemos diante da morte, que é o milagre derradeiro para aqueles que deixam o legado de Cultura, Arte e motivação para todas as gerações. Grande Mojica!

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Vera Amatti

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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