Hoje comemora-se o feriado de Carnaval. Para Muitos é o momento mais esperado do ano, onde as pessoas saem de casa para esbaldar-se de festividade desenfreada “soltando os seus demônios interiores”. Para os religiosos e mais conservadores, é uma ode à promiscuidade, paganismo e depravação e para outros, é uma manifestação da identidade e cultura nacional em sua origem. Todos os pontos de vista fundamentam-se naquilo que apoiam como verdadeiro. Todavia, a terceira opinião, de que o Carnaval é uma festa de origem nacional, que manifesta a cultura popular, está completamente envolta em falácias de um discurso pronto e sem fundamento, existindo, portanto, uma serie de mitos a serem quebrados, ao estilo Adam Savage e Jamie Hyneman, para quem capta as referências, a respeito do Carnaval.

O primeiro grande balaústre a ser sobrepujado em relação as falácias disseminadas sobre o Carnaval, está relacionada a frase pronta dos ignóbeis: “o Brasil é o pais do Carnaval”. Uma vez que está festividade já era realizada a muitos séculos, onde narra-se que na Roma antiga já se realizavam festividades semelhantes, onde misturavam-se pessoas das mais variadas classes da pólis e até mesmo invertiam-se os papeis, onde o nobre travestia-se de plebeu, ao passo que o plebeu praticava um arremedo da nobreza, de onde surgiu a figura do “Rei Momo”, que dissertar-se-á sobre sua origem mais além.

Esta pratica de inversão de papeis, seguiu-se até a Idade Média, onde a festa nominada Festun Fatuorum, pelos romanos antigos, dedicada as colheitas e celebrada comumente no início do mês de março. Ao contrário do que é ilustrado no clássico de Vitor Hugo, O Corcunda de Notre-Dame, onde o clero não participava ativamente da inversão de papeis, e da festividade dos loucos, ocorreu na realidade um encorajamento aos religiosos de misturarem-se as demais camadas sociais e celebrarem, conforme demonstra uma declaração dos Eminentíssimos Bispos da Faculdade de Teologia de Paris, que em 1445, sob a justificativa da necessidade dos fiéis exteriorizarem a insensatez e loucura da segunda natureza do homem, para ser dissipada ao menos uma vez no ano, fazendo analogia aos barris de vinho que quando não abertos de tempo em tempo, tendem a estoura-se. Neste sentido, desde aquele período a festividade do carnaval já era um “beneplácito temporário para a libertinagem”, onde, até mesmo os símbolos e dogmas da igreja, eram escarnecidos sem reprimenda.

No que tange a origem do Rei Momo, conforme é descrito por Hesíodo e Posteriormente por Cicero em seu diálogo sobre a natureza dos deuses, que Momo era a semideusa que personificava o sarcasmo e foi responsável por julgar entre os deuses Zeus, Posseidon e Atena, qual faria a melhor criação, onde não se satisfez com nenhuma das criações dos três deuses. No século XVI, o espanhol Agustin de Almacan menciona em sua obra El Momo. La moral y muy graciosa história del Momo, como um rei esdrúxulo, em clara zombaria à figura de Jesus Cristo, quando os soldados romanos lhe puseram uma coroa de espinhos. Aos poucos a zombaria ao sagrado foi dando lugar a irreverência, sendo ao Rei Momo, aos poucos atribuídos traços de personalidade estabanada e irreverente, onde o primeiro registro do personagem dentro da festividade brasileira ocorreu em 1910, encenado pelo palhaço Benjamin de Oliveira, conhecido como o primeiro palhaço negro do Brasil.

Em relação aos desfiles e as escolas de samba, refletirem a cultura de subúrbio, no qual os avessos ao militarismo enchem a boca ao falarem. Ledo engano cometem estes, uma vez que ao observar-se o desfile das escolas de samba, bem como os critérios avaliativos no qual elas são pontuadas e classificadas, em nada foge de uma fanfarra militar ao observar-se a rigidez e disciplina que regem os movimentos sincronizados dos sambistas, a uniformidade nos figurinos, a harmonização entre a música com a coreografia. Tudo isso valendo ponto, não foge do rigor dos desfiles militares. Até porque o surgimento dos desfiles organizados das escolas de samba teve seu início na década de 30, em plena era Vargas, e a pedido do próprio Vargas, deu-se grande ênfase na valorização da cultura nacional ao escolher-se os temas para os desfiles. Mas tais critérios não vieram unicamente por imposição do governo, uma vez que a escola de samba mais antiga, a Deixa Falar, no seu desfile de 1929, sua comissão de frente era integrada pela Cavalaria da Policia Militar do Rio de Janeiro, e tal tendência seguiu-se nos anos seguintes, influenciando até mesmo o figurino dos sambistas. Ou seja, as escolas de samba muito devem e pouco se afastam do militarismo.

Outra falácia a ser superada, é a de que o samba surgiu como uma manifestação cultural dos menos favorecidos. Uma vez que ao analisar-se o contexto no qual o samba foi criado e os protagonistas de sua criação, verifica-se um círculo de pessoas letradas, e bem abastadas. Primeiramente, ao estudar-se as primeiras gravações do estilo musical, que os pioneiros Pixinguinha e Donga gravaram em 1917, ao dissecar-se os principais instrumentos utilizados em nada se afastam dos utilizados em uma banda de jazz, com uma leve influência do tango. Isso sem contar que muito antes do dito nascimento do samba, as músicas brasileiras já eram ouvidas na Europa e conforme narra Hermano Vianna, muito aclamadas por ser um “misto de coreografia africana e fandangos espanhóis e português”, sendo aclamado até mesmo na corte portuguesa onde a rainha Maria I, recebeu o musico Caldas Barbosa, mestiço filho de escrava. Outro ponto que contribui para tese de que o samba teve sua origem na alta classe, é o cenário onde este se consagrou. O lugar descrito como “berço do samba”, era a casa no Rio de Janeiro de uma baiana chamada Hilária Batista da Silva, apelidada de “tia Ciata”, neste local reunia-se reiteradamente a alta elite intelectual carioca, para ouvir as músicas da dupla Pixinguinha e Donga, apontados como os pais do samba. Neste sentido exclui-se da verdade qualquer afirmação de que o estilo musical foi concebido como uma manifestação cultural dos menos favorecidos pecuniariamente, mas não sendo negada sua raiz afro miscigenada com influências musicais ibéricas.

Segundo teoriza Narloch no seu Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, esse desespero por abraçar e enaltecer símbolos que seriam difundidos falaciosamente como de origem nacional: Feijoada, Futebol, Carnaval, dentre outros, é o desespero por uma busca indentitária para estampar-se nos brasileiros, visando suprir uma orfandade criada com a queda da monarquia como regime governamental. Uma vez que até então todos se identificavam sob a égide de súditos de Dom Pedro II. Tal patriotismo exacerbado e desesperado por ícones refletiu-se nos mais variados segmentos artísticos, onde pintores com Almeida Junior focaram-se em retratar cenas simples do cotidiano do sertão, como em seu quadro intitulado o violeiro de 1899. No mesmo caminho seguiu a música, onde as letras do samba enalteciam o fictício malandro carioca e na literatura, Menotti del Picchia e Guilherme de Almeida tremulavam a bandeira do movimento Verde-Amarelismo, ou Escola de Anta, adotando o animal como símbolo. Tal movimento verde-amarelista apedrejou até mesmo os ditos pais do samba, tecendo críticas pesadas aos mesmos ante suas influencias norte americanas, forçando-os a “abrasileirarem” mais ainda suas composições.

Neste sentido, de enaltecer figuras folclóricas do imaginário indentitário nacional, simulando uma natureza suburbana para o nascedouro do ritmo que move o carnaval e também na escolha das letras e dos temas alegorizados nos desfiles, ao passo que seus idealizadores, como por exemplo Carlos Alberto Ferreira Braga, conhecido como Braguinha, compositor de várias marchinhas clássicas de carnaval, era bem-nascido, e estudante de arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes. Neste sentido, não é de hoje o movimento que tenta transformar em algo cult a favela, e da mesma forma sínica que hoje em dia, onde os “socialistas de iPhone” sobem nas favelas, tiram fotos com a comunidade, desfrutam dos lazeres e da cultura do local, mas passam longe das mazelas sofridas por quem vive nessas comunidades, como a pobreza, falta de saneamento, criminalidade dentre outras coisas que não estampam em seu discurso pronto sobre cultura nacional.

Conforme comprovado, o Brasil não é o pais do carnaval, uma vez que esta festividade já era comemorada na Europa muitos séculos antes das primeiras caravelas aportarem em nossas praias, bem como é muito anterior a colonização do Brasil a figura do Rei Momo nas festividades europeias, assim como o samba não foi originado nos subúrbios, sendo portanto, uma miscigenação de ritmos afro-ibéricos apreciado inicialmente pela elite intelectual carioca, que somente após uma forte onda de nacionalismo e busca desesperada por símbolos nacionais é que evoluiu para o estilo musical ouvido nos dias de hoje, e assim como os desfiles das escolas de samba inspiraram-se no layout dos desfiles e fanfarras militares tendo em vista a disciplina e uniformização ao movimentarem-se os sambistas. Neste sentido entende-se como superada e desmistificada a aura de “macumba para turista” que se emana na cultura carnavalesca, busca estampar símbolos nacionais.

Referencias bibliográficas:
NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Editora Leya. 2009.
HESÍODO. Teogonia. Editora Hedra. 2013.
HUGO, Vitor. O Corcunda de Notre-Dame. Zahar Editora. 2015.
BOTTON, Alain de. Religião Para Ateus. Editora Intrínseca. 2011.
VIANNA, Hermano. O Misterio do Samba, Zahar Editora. 2008.
NETO, Lira. Uma História do Samba. Companhia das Letras. 2017.
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