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Pobres (mas nem tanto) Cavaleiros de Cristo do Templo (Banco) de Salomão!

Todos os meses repete-se o ciclo, o salário é creditado na conta e as contas a pagar vem, e como Sísifo, que eternamente tem que subir a montanha carregando a pedra, para quando chegar no topo ela cair e ele iniciar novamente esse processo. Todos tem que repetir mensalmente a via sacra de filas de bancos e casas lotéricas. Esse ciclo repetitivo é realizado incansavelmente todos os meses, mas poderia ser pior, sem as instituições bancarias, que administram e gerenciam os pagamentos, recebimentos e demais transações bancarias, ao invés de ir ao banco para pagar o receber, teríamos de carregar conosco todo o valor que nossos empregadores nos entregariam em espécie, e ir em cada um dos nossos credores pagar pessoalmente nossas contas. Algo que seria muito mais trabalhoso e perigoso, levando-se em conta a necessidade de transportar consigo nosso voluptuoso salário.

E se hoje podemos realizar essa terceirização das movimentações financeiras por meio das instituições bancarias, que atualmente nos permitem até mesmo pagar as contas ou realizar transferências de valores pelo celular, devemos isso a um grupo de monges guerreiros que na idade média fundaram uma ordem com o intuito de proteger os peregrinos que viajavam para a Terra Santa.

Os Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão, ou simplesmente Templários, foi uma ordem militar monástica, fundada em 1118, tendo como primeiro líder o Grão Mestre Hugo de Payens, o nome da ordem se deu em decorrência de seu quartel general estar instalado no Monte do Templo em Jerusalém, fato este que além de inspirar o nome da ordem, também serviu de base para várias lendas em torno dos templários, tais como serem possuidores de relíquias sagradas como o santo graal e a arca da aliança, bem como envolvendo-os em uma aura de hermetismo. Todavia, a razão pela qual a ordem religiosa foi fundada, foi a função de proteger os peregrinos que viajavam para a terra santa, e vinham sendo brutalizados pelos sarracenos, bem como impedir o seu avanço na península ibérica e expulsar os infiéis das terras santas.

Com a crescente onda de cristãos que atendiam ao chamado do papa de expulsarem os muçulmanos das cidades santas, o grito de “Deus vult” fez com que a causa das cruzadas movesse os olhos do mundo ocidental para a “guerra santa”, e assim as peregrinações aumentaram vertiginosamente, bem como o fluxo de camponeses ou filhos mais novos dos nobres, buscando uma acessão não hereditária no oriente. E desta forma, ao serviço prestado pelos templários de garantir a incolumidade dos peregrinos, foram agregando-se funções chegando ao ponto dos pobres cavaleiros de cristo passarem a administrar as finanças e o patrimônio dos cristãos, criando assim um embrião do sistema bancário atual, e sendo desta forma os templários a primeira instituição bancaria da história. Mas de onde nasceu essa ideia? E como funcionava o serviço bancário prestado pela ordem do templo?

A ideia surgiu da simples necessidade dos peregrinos manterem em segurança sua fortuna, e assim sendo, para um viajante trilhar seu caminho levando consigo todo o valor que iria gastar em sua viagem era muito arriscado, além de dispendioso viajar carregando arcas de moedas ou tesouros. Por isso, o viajante se dirigia até a sucursal da ordem do templo instalada mais próximo de sua residência, e lá ele depositava seu tesouro e em troca recebia um documento com selo oficial da ordem, para que quando chegasse em seu destino, pudesse receber o valor ao apresentar o documento de “título ao portador” expedido no local onde depositou sua fortuna. Além de ter em deposito  e administrar os valores de outrem, a ordem também passou a realizar empréstimos com a pompa de uma multinacional.

Deste modo, os pobres cavaleiros de cristo, cujo símbolo de sua pobreza é representado por dois guerreiros cavalgando em um único cavalo, passaram a tornar-se um dos maiores poderios econômicos do mundo, superando até mesmo muitos reis. Motivo pelo qual foram alvos da ganancia de várias figuras de autoridade, incluindo o rei francês Felipe IV, que em conluio com o papa Clemente V, apontaram em desfavor dos templários, uma série de acusações, que iam de usura, a sodomia, idolatria a Baphomet, dentre outras heresias. Neste sentido foram efetuadas prisões torturas e execuções dos templários, e seus bens e terras expropriados em favor do rei francês. Deste modo em 1312 o papa expediu a bula Vox Clamantis, extinguindo definitivamente a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão.

Todavia, mesmo a ordem do templo tendo sido extinta por um decreto papal, seu legado perdura até hoje, e cada vez que vamos a um banco ou realizamos uma transação financeira, devemos isso a eles!

Referência Bibliográfica:
RALLS, Karen. Os Templários e o Graal. Editora Record. 2004.
FANTHORPE, Lionel, FANTHORPE, Patrícia. Templários: Segredos e Mistérios. Editora Rosari. 2005.
SILVA, Pedro. História e Mistério dos Templários. Editora Ediouro. 2001.
LE GOFF, Jaques. A Idade Média e o Dinheiro. Editora Civilização Brasileira. 2014.
MORRISSON, Cécile. Cruzadas. L&PM Pocket. 2009.
LAMY, Michel. Os Templários: Esses Grandes Senhores de Mantos Brancos. 2007.
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Marcos Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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