Crônicas

Onde Judas perdeu as botas (que o Judeu fabricou!)

Quando você quer ir a um lugar onde nunca este antes, e ao observar a distância, e ver que é muito distante de sua residência, logo vem a sua mente: “É lá onde Judas perdeu as botas”, a não ser que você resida em Caixa Prego, pois não estará muito longe.

Brincadeiras à parte, a expressão “onde Judas perdeu as botas”, é usada diariamente, sem que se saiba sua origem, que remonta a muitos séculos atrás, tão longe quanto “Caixa Prego” e onde Judas perdeu as botas por assim dizer.

A termologia surgiu ao fundir-se a figura de Judas Iscariotes com o mítico Judeu Errante. E para compreender melhor o motivo dessa fusão é necessário observar inicialmente quem seria o Judeu Errante e o elo de conexão entre as duas figuras.

Os primeiros relatos que se tem dessa figura remontam ao ano de 1228, onde um bispo da Armênia, em visita a Inglaterra em algumas versões, e em outras em visita a Constantinopla, afirma que um judeu que foi testemunha ocular do martírio de Jesus ainda estaria vagando pela terra até o ano de sua narração. E que tal homem havia sido amaldiçoado com a imortalidade física por ter cometido um insulto a Jesus.

Existem várias personagens bíblicas no qual é atribuída a identidade do Judeu Errante. A primeira delas e menos fundamentada é o soldado de nome Malco, que conforme é relatado no Evangelho de João 18:10, seria o soldado que durante a prisão de Jesus teve a orelha decepada, e posteriormente foi curado por Jesus. Outra também pouco provável, é o porteiro do palácio de Pôncio Pilatos, de nome Catáfito, que segundo o Evangelho de João 18:20-22, bate no rosto de Jesus. Todavia, a evidência deixada no Evangelho de João, da identidade do Judeu Errante, sendo esta considerada a mais contundente de todas está em João 21:20-23, aponta para Judas, onde o evangelho descreve:

“E Pedro, voltando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara também sobre o seu peito, e que dissera: Senhor, quem é que há de te trair? Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor, e deste que será? Disse-lhe Jesus: eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu. Divulgou-se, pois entre os irmãos o tido de que aquele discípulo não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até que eu venha, que te importa a ti?”

O Evangelho mostra, que se for da vontade de Cristo, o traidor Judas ficará vivendo na Terra até a segunda vinda de Jesus. Levando a entender que a maldição de Judas é permanecer vagando pela Terra através dos séculos ao estilo Connor MacLeod (para quem entende a referência), até o fim dos tempos. Mas… o que suas botas perdidas têm a ver com isso?

As botas, estão relacionadas a outro personagem no qual é atribuída a maldição da imortalidade por ofender Jesus. Este personagem seria um sapateiro de nome Ahsverus, nome no qual majoritariamente é chamado o Judeu Errante. E após Jesus ser condenado, enquanto carregava a cruz até o calvário, no momento em que Cristo não aguenta o peso da cruz e cai, antes de ser ajudado por Simão Sirineu, todo o incidente ocorreu em frente a sapataria de Ahsverus, que negou água a Cristo e começou a zombar de Jesus e gritado para que Cristo  “caminhasse”, e por tal ofensa o preço que pagou seria ter que caminhar por toda a Terra até o fim dos tempos, não conseguindo estabelecer-se em nenhum local, levando uma vida nômade.

No século XVII, ao personagem são atribuídos ainda mais dons, havendo relatos de que ele envelheceria de forma normal e a cada virada de século magicamente rejuvenesceria até a idade que havia no momento em que insultou Jesus. Também lhe são atribuídas faculdades regenerativas instantâneas e hipnose, onde ao ver uma pessoa de atitude ímpia, o errante lhe persuade a mudar de vida, e evitar um fardo igual ao seu.

Os relatos de suas andanças pelo mundo apontam que ele pisou em vários países, tendo inclusive segundo folclores regionais visitado Pernambuco e Minas Gerais. Sua lenda inspirou várias obras literárias, como o conto escrito em 1797 pelo inglês Samuel Taylor Coleridge, intitulado A Balada do Velho Marinheiro, onde é narrada a história de um homem condenado a imortalidade. O conto também serviu de base para uma canção da banda britânica Iron Maiden.

Outra figura da literatura mundial que também foi inspirada pela lenda foi Mary Shelley a criadora de Frankenstein, em sua crônica O Mortal Imortal, escrita em 1833.

Mas não foram só os escritores estrangeiros que foram inspirados pela lenda, Castro Alves em 1870 escreveu o poema Ahasverus e o Gênio, onde há um contraponto entre o Judeu Errante e o Jin arábico, sendo ambos criaturas dotadas de poderes, mas condenadas a eternidade. Outro brasileiro que vislumbrou-se na lenda foi Machado de Assis, que em 1896 escreve o conto Viver, onde relata um encontro entre o errante e o titã Prometeu, e de forma análoga a obra de Castro Alves faz um comparativo entre as bênçãos e maldições das figuras míticas.

Existem várias outras referências à lenda na cultura popular, desde histórias em quadrinhos, como O Vingador Fantasma da DC Comics, e Sandman de Neil Gaiman, como também nos cinemas, tendo com dois filmes que beberam direto desta fonte e a expressaram de forma mais clara, o filme Highlander de 1986, onde somos apresentados a um personagem que está fadado a atravessar os séculos vendo seus entes queridos envelhecerem e morrerem, e condenado a se digladiar com seus semelhantes. E o segundo filme, que faz referência a lenda, e o tão criticado Drácula 2000, estrelado por Gerard Butler no papel de Drácula, que na mitologia do filme seria Judas, que após trair Cristo foi condenado a uma imortalidade vampírica.

Neste sentido, compreende-se que a expressão “onde Judas perdeu as botas”, é oriunda de uma amálgama de mitos medievais que se fundiram, evoluíram e serviram de inspiração para muitas outras histórias, fazendo com que a busca de Judas por suas botas perdidas nunca termine.

Referência Bibliográfica:
COLERIDGE, Samuel Taylor. A Balada do Velho Marinheiro. Disal Editora. 2019
ALVES, Castro. Espumas Flutuantes. Martin Claret. 2013
ASSIS, Machado. Varias Histórias. Martin Claret. 2013
Fantasticursos. Lendas Medievais – A maldição eterna do judeu errante. 2017
BRUNEL, Pierre. Dicionário de Mitos Literários. José Olímpio. 2005
JOACHIM, Sébastien. Poética do Imáginário: Literatura do Mito. Editora UFPE. 2010
LAGERKVIST, Pär. A Morte de Ahasverus. Editora Globo. 1964
PRATA, Mario. Mas Será o Benedito. Editora Planeta. 2014
PEREIRA, José Carlos. O Encantamento da Sexta-Feira Santa. Annablume. 2005
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Marcos Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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