História

Conselhos de um Irmão: de Quintus T. Cicero para Marcus T. Cicero

Contexto: Eleições em Roma, Busca do Cônsul

No século I a.C., Roma vivia seus últimos anos como uma república, seu poderio militar e territorial já estava consolidado no mundo antigo e líderes influentes em seus meios ganhavam cada vez mais espaço e audácia frente a um senado incerto e duvidoso. Mas antes desta grande erupção vir à tona, as eleições eram o grande momento para que novos rostos se virem ao governo.

Em 64 a.C., o advogado, político, escritor, orador, filósofo e um dos mais conhecidos nomes da história romana, Marcus Tullius Cicero, empregava todos os seus esforços ao cargo máximo no cenário político, o de cônsul. Cicero já era experiente na política e conseguiu o feito de ser eleito próximo as idades mínimas para os cargos: Questor em 75 a.C. (31 anos), Edil em 69 a.C. (37 anos) e Pretor em 66 a.C. (40 anos), com isso, ia ele aos 43 anos em busca do degrau mais alto da hierarquia romana.

Mas não estava sozinho, ao lado dele havia seu irmão, Quintus Tullius Cicero, general e político que produziu um memorando que denominou de: Pequeno Manual Sobre Eleições. Seu objetivo era ajudar na campanha de seu irmão que estava próxima, e ao que tudo indicava não seria fácil.

O motivo principal era o de que Cicero não possuía ascendência nobre, ambos nasceram em Arpino, ao sul de Roma e tiveram que escalar ardorosamente em suas carreiras. O candidato a cônsul cresceu através de seu trabalho como advogado, defendendo romanos eminentes, mas além disto, sua facilidade em falar em público bem como seu conhecimento da filosofia grega e do cenário romano, fizeram com que fosse possível a um homem do baixo clero ter chances de vitória em altos cargos.

Seu irmão observou com perspicácia as fraquezas de seus adversários, que por mais que fossem nobres, não tinham boa popularidade frente a seus semelhantes, com isto, destacou todos estes pontos e fraquezas maiores em seu manual, que a frente observaremos juntos. E claro, semelhanças aqui não serão meras coincidências caro leitor.

Como Ganhar uma Eleição

Quintus Cicero é direto em seus conselhos, ele logo recorda quem seu irmão é, primeiro humildemente reconhece que suas palavras pouco somariam frente a experiência que Marcus possuía, em segundo ele pede para que seu irmão jamais deixe de se lembrar quem ele é, o que almeja e onde está. Bastaria todos os dias olhar-se no espelho e repetir a si mesmo “Eu sou um forasteiro. Eu quero ser cônsul. Isto é Roma” (2014, p.33).

Em relação a seus adversários, basicamente há somente dois que poderiam trazer a derrota a seu irmão, que são: Antonius e Catilina. Algumas características colocam ambos em lados bem opostos, o primeiro é bastante covarde frente as leis e muito irresponsável em uma eleição, enquanto o segundo é demasiadamente corajoso, a ponto de se colocar frente a justiça de corpo aberto inúmeras vezes.

Quintus admite que Catilina não tem medo de nada, nem mesmo da lei, que foi criado na “depravação com a própria irmã” (2014, p.45) e que chegou a matar cidadãos romanos como capanga de Sulla (partidário do ex cônsul Lúcio Cornélio Sula, 138-78 a.C.) entre tantos outros horrores declarados em nota.

Mas ele não se restringe a somente falar dos defeitos dos adversários de seu irmão, ele também coloca inúmeros conselhos realistas e pragmáticos, semelhantes a Maquiavel na Itália renascentista. Alguns deles transcendem o tempo, podendo ser considerado a eleições até mesmo de agora:

Procure em cada lugar homens que o representarão como se eles mesmos estivessem concorrendo ao cargo. Visite-os, converse com eles, conheça-os. Reforce a lealdade deles para com você de maneira que funcionar melhor, usando a linguagem que eles compreendem. (2014, p.80)

Já que toquei no assunto dos seguidores, deixe-me dizer também que você precisa ter uma ampla variedade de pessoas em seu entorno diariamente. Os eleitores o julgarão com base no tipo de turma que você atrai, tanto em qualidade quanto em quantidade. Os três tipos de seguidores são os que o cumprimentam em casa, os que o acompanham ao Fórum e os que o acompanham onde quer que você vá. (2014, p.85)

Possuir uma boa orientação ao qual o fará direcionar melhor seu esforço é indispensável, por isto, Quintus doa boas páginas de seu manual a este tema, mas também oferece dicas de como portar-se frente aos homens: “Deixe as portas da sua casa abertas, claro, mas também abra seu rosto e sua expressão, pois eles são a janela da alma” (2014, p.98 e 99) ora, não adianta dar atenção a todos tendo em sua expressão aborrecimento e distração, este conselho vale até para nós em nosso convívio. Sê sempre atento e afetuoso para com todos, assim, sempre se sentiram à vontade com você.

Com uma experiência própria, Quintus sabe que políticos tendem a sempre dizer sim a todo e qualquer pedido, mas detém esta ideia, mostrando situações ao qual um sim lhe traria muitos problemas, como a de tomar partido contra um amigo. Deste modo, é sábio dizer não, mas sempre de forma cortês para evitar ao máximo perder simpatia para com aquela pessoa. Em relação as promessas, este trecho traz de forma clara e precisa seus efeitos no outro:

Se você quebrar uma promessa, o resultado será incerto; e o número de pessoas afetadas, pequeno. Mas se você se recusar a fazer uma promessa, o resultado é certo e gera rancor imediato num grande número de eleitores. A maioria dos que pedem sua ajuda nunca vão realmente precisar dela. Por isso, é melhor que algumas pessoas no Fórum fiquem desapontadas quando você as decepcionar do que ter uma multidão irada na frente de sua casa quando você se recusar a prometer o que eles querem. (2014, p. 106)

Bastante maquiavélico este conselho, mas bem realista em um cenário republicano. Em sua última página, Quintus novamente elenca todo o conhecimento que seu irmão possui, e que este manual e tão somente para orienta-lo de forma sequente para que não se esquecesse de nada.

No trecho final, Quintus escreve: “É óbvio que eu nunca diria que tais preceitos se aplicam a todos que almejam um cargo público – eles se dirigem apenas a você” (2014, p.121) mas é nítido que há funcionalidade atemporal para este manual, e que Cicero fez bom uso dele. Será que bons políticos ao redor do globo passaram os olhos por estas palavras? E você? Que conselho deu a seu irmão hoje?

Em 63 a.C. Cicero foi eleito Cônsul de Roma.

Referências:
CICERO, Quintus Tullius. José Ignacio Coelho Mendes Neto. Como Ganhar uma Eleição. São Paulo: Edipro Ed 1, 2014.
Imagem de destaque: Voto grego num altar a Esculápio pelo cônsul Lúcio Minúcio Natal (133–134)

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Vitor Guerino

Me chamo Vitor Guerino P. de Oliveira, tenho 24 anos e resido na cidade de São Paulo. Graduando em história e estudante assíduo de filosofia - minha maior paixão - e política, estou sempre presente na vida acadêmica publicando artigos científicos relacionados bem como em seminários e entre outros estudos focados. Minha especialidade mora na História Antiga, bem como sua Filosofia. Sou também cursado em ciências políticas, fluente em inglês e atuo na área de pesquisas. Colunista do jornal Duna Pess.
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