Crônicas

Esperança em tempos de histeria e Coronavírus

Tempos de crise e situações extremas geralmente despertam o pior que há no ser humano, em busca da sobrevivência, nada mais importa. A ética e a moral se transformam em um obstáculo diante da luta pela vida. Retorna o homem a seus instintos mais básicos, se torna um animal em meio à adversidade da natureza.

Lord of the Flies (Brasil: O Senhor das Moscas), um romance de William Golding, retrata bem isso em seu livro e muitos filmes que surgiram foram de medianos a geniais ao retratar a luta da alma humana por manter sua humanidade. O Poço / El Hoyo/  The Platform dirigido pelo estreante  Galder Gaztelu-Urrutia, realiza um filme cheio de camadas, possibilitando que diferentes interpretações sejam passiveis de ser, não somente plausíveis, como complementares.

Com 46 anos, tendo produzido filmes como El ataúd de cristal (2016) e La casa del lago (2011), ele nos apresenta um filme que mescla terror, drama e até mesmo surrealismo, repleto de cenas fortes, cruas e marcantes de violência, medo, desespero e repugnância, típicas do subgênero do terror conhecido como Gore.

Ivan Massagué é um ator espanhol que atua em produções cinematográficas desde o ano de 2001 e embora tenha ficado fora do radar de grandes produtoras, diante de sua atuação como Goreng, essa realidade irá mudar. Seu personagem acorda no Poço, uma prisão vertical onde em cada andar ficam dois presos, o número de andares fica em suspense boa parte do filme, mas no fim é revelado como superior a 250.

Uma plataforma desce do andar de número 0, repleta das mais finas iguarias, feitas com esmero, cuidado e elegância. O fato que em certa cena Goreng ter visto seu prato favorito na plataforma e ter lembrado que ele havia sido questionado sobre sua comida favorita, pode ser a indicação que a plataforma oferece as comidas preferidas dos presos, uma das pontas soltas que atiça a curiosidade do espectador.

A plataforma fica somente dois minutos por andar e não é permitido que nenhum preso fique com comida, eles devem comer enquanto a plataforma está no respectivo andar, caso quebrem essa regra, o ambiente gera um calor ou frio capazes de matar os prisioneiros.

O que o protagonista fez para estar em tal prisão? Ele se voluntariou para poder ficar afastado do vício do cigarro e para ler o livro Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, recurso do absurdo e inusitado usado com requinte pelo roteiro. Ele começa no andar 48 e encontra o  velho Trimagasi (Zorion Eguileor) que a despeito de sua aparência frágil tanto pela idade avançada como  pelo tamanho, inspira medo. Não há comida para todos os presos, e estar num andar muito baixo, significa morte certa ou um sofrimento infernal. “Só há três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem.” Afirma Trimigasi e de fato, o filme revela ser tanto metafórico como realista tal assertiva.

O diretor revela ter uma habilidade acima da média tanto no jogo de câmera como no uso da luz e escuridão, o que é utilizado para dar mais força as interpretações dos atores, e transmitir ao espectador as sensações que este deseja. As alusões a Bíblia estão presentes na obra e pode-se afirmar que o filme é uma busca por salvação, não através da saída física do cárcere, mas de resgatar a esperança que é possível mudar a mente daqueles que os colocaram ali, através de um mensagem que simbolize a luta da alma humana contra: tanto a podridão que habita dentro de si, como também contra um sistema que compele o ser humano a ter o altruísmo e amor fraternal como um desperdício e até mesmo algo ridículo.

Goreng a cada mês, como todos os demais prisioneiros, muda de andar indo para uns onde a comida não chega e para outros onde é melhor alimentado. Diante da sua quase submissão e desesperança, a personagem Imoguiri (Antonia San Juan), coloca a seguinte frase: “Somente uma solidariedade espontânea pode trazer mudanças”. Depois disso o personagem começa a repensar o valor de sua existência e o que deve ser feito diante do horror em que vive. O final ambíguo e de grande simbolismo encerra a obra com uma esperança que não conclui ter sido agente de real mudança, mas segue sendo cheia de possibilidade.

Diante da realidade de medo e pânico criada por uma mídia desonesta, do negacionismo de ignorantes diante do mal real, visto do ponto de vista médico, do estado se tornar agente de atitudes ditatoriais em diferentes estados e prefeituras e da falta de amor e zelo para com o bem estar do próximo, vale, e muito, ter esperança que mesmo na mais difícil e caótica situação, o ser humano não precisa ser seu próprio demônio.

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Carlos Alberto

Formado em Letras pela UFPE e fluente em inglês e espanhol com certificados internacionais em ambas as línguas. Escreve artigos sobre literatura , educação, cinema e política. Palestrante e debatedor dos temas já mencionados.
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