História

Pandemias na História: Gregos e sua relação com as doenças

Atenas em Grande Morticínio e Guerras

O mundo hoje vive em um claro cenário epidêmico, as pessoas sem exceção estão se cuidando para impedir que o vírus atual (Covid-19) bata em suas portas, mas este não é definitivamente o primeiro encontro nosso com uma pandemia, houveram outros, e por certo, muito piores e devastadores.  Ao longo de toda história humana, tivemos inúmeros momentos em que o homem foi afligindo por doenças desconhecidas que acabaram por dizimar parcelas consideráveis de suas populações. Tais manifestações virais chegaram a ser bem descritas em certos momentos, mas elas permanecem as sombras do conhecimento e passam despercebidas por escolas e estudiosos inclusive, talvez por localidade, ou por simples opção dos docentes e historiadores.

Ao pensar em doenças e história, logo o leitor tropeçara seus pensamentos na peste negra que assolou a Europa Medieva. O conhecer de todos, em relação a esta tragédia humana, não se dá somente por estar mais próxima ao nosso tempo, mas também pela imensa magnitude de danos que ela causou. Em certos lugares, houve baixa populacional de 75%, como um exemplo, e isso impregnou na mentalidade por longas gerações, fazendo com que a relação de homem com a morte se tornasse mais forte e presente.

Regredindo pelo tempo, chegamos em Atenas, mais precisamente por volta dos anos 430 a 429 a.C. onde uma epidemia se alastrou pelo solo helênico (Grego) atingindo principalmente os povos atenienses que além de ter de tratar desta peste, tinha também de lidar com uma guerra contra Esparta. O historiador e general grego, Tucídides, narrou seus danos e até mesmo sintomas. Ele mesmo contraiu a doença e acabou vencendo-a, diferente de muitos outros, como por exemplo o mais famoso general e orador ateniense, Péricles.

Como já dito, Atenas e Esparta estavam em guerra, uma longa guerra, que envolvia não somente ambos os Estados, mas também toda classe de povoados ao redor ou fora da região helênica. Grandes aglomerados de pessoas eram comuns naquele tempo, exércitos eram a todo momento armados e postos em incursões, seja por terra ou por mar, e suas missões envolviam saques e cercos a outras cidades, isto de ambos os lados. Muita morte se sucedia nestas investidas, e o contato era próximo e comum.

A Epidemia em Atenas

A descrição que Tucídides faz desta epidemia é uma das mais ricas e famosas da história, ela colocou muitos pesquisadores médicos a tentar descobrir o que se passava em Atenas naquela época. A seguir está parte destes relatos:

Dizem que ela apareceu anteriormente em vários lugares (em Lemnos e outras cidades), mas em parte alguma se tinha lembrança de nada comparável como calamidade ou em termos de destruição de vidas. Nem os médicos eram capazes de enfrentar a doença, já que de início tinham de tratá-la sem lhe conhecer a natureza e que a mortalidade entre eles era maior, por estarem mais expostos a ela, nem qualquer outro recurso humano era da menor valia.

Dizem que a doença começou na Etiópia, além do Egito (…) Subitamente ela caiu sobre a cidade de Atenas, atacando primeiro os habitantes do Pireu, de tal forma que a população local chegou a acusar os peloponésios de haverem posto veneno em suas cisternas (não havia ainda fontes públicas lá). Depois atingiu também a cidade alta e a partir daí a mortandade se tornou muito maior. Médicos e leigos, cada um de acordo com sua opinião pessoal, todos falavam sobre sua origem provável e apontavam causas que, segundo pensavam, teriam podido produzir um desvio tão grande nas condições normais de vida.

Aquele ano, na opinião de todos, havia sido excepcionalmente saudável quanto a outras doenças, mas se alguém já sofria de qualquer outro mal, todos se transformavam nela. Em outros casos, sem causa aparente, mas de súbito e enquanto gozavam de boa saúde, as pessoas eram atacadas primeiro por intenso calor na cabeça e vermelhidão e inflamação nos olhos, e as partes internas da boca (tanto a garganta quanto a língua) ficavam imediatamente da cor de sangue e passavam a exalar um hálito anormal e fétido.

No estágio seguinte apareciam espirros e rouquidão, e pouco tempo depois o mal descia para o peito, seguindo-se tosse forte. Quando o mal se fixava no estômago, este ficava perturbado e ocorriam vômitos de bile de todos os tipos mencionados pelos médicos, seguidos também de terrível mal-estar, em muitos casos sobrevinham ânsias de vômito produzindo convulsões violentas, que às vezes cessavam rapidamente, às vezes muito tempo depois.

Externamente o corpo não parecia muito quente ao toque; não ficava pálido, mas de um vermelho forte e lívido, e cheio de pequenas bolhas e úlceras; internamente, todavia, a temperatura era tão alta que os doentes não podiam suportar sobre o corpo sequer as roupas mais leves ou lençóis de linho, mas queriam ficar inteiramente descobertos e ansiavam por mergulhar em água fria – na realidade, muitos deles que estavam entregues a si mesmos se jogavam nas cisternas – de tão atormentados que estavam pela sede insaciável; e era igualmente inútil beber muita ou pouca água.

Os doentes eram vítimas também de uma inquietação e insônia invencíveis. O corpo não definhava enquanto a doença não atingia o auge, e sendo assim, quando os doentes morriam, como aconteceu a tantos entre o sétimo e o nono dia de febre interna, ainda lhes restava algum vigor, ou, se sobreviviam à crise, a doença descia para os intestinos, produzindo ali uma violenta ulceração, ao mesmo tempo que começava uma diarréia aguda, que nesse estágio final levava a maioria dos doentes à morte por astenia.

A doença, portanto, começando pela cabeça, onde primeiro se manifestava, descia até alastrar-se por todo o corpo; se alguém sobrevivia a esta fase, ela chegava às extremidades e deixava suas marcas nelas, pois atacava os órgãos sexuais, dedos e artelhos, e muitos escapavam perdendo-os, enquanto outros perdiam também os olhos. Em alguns casos o paciente era vítima de amnésia total imediatamente após o restabelecimento; não sabia quem era e não reconhecia sequer seus próximos. (1987, p.115, 116)

A abundância de detalhes pode-nos fazer pensar sobre tal veracidade, entretanto, por ter contraído esta doença, Tucídides saberia mais do que ninguém sobre ela, principalmente por estar envolta de todo o caos gerados pelo acumulo constante de enfermos e falecimentos. Como dito, ao longo da história pesquisadores releram a obra e tentam descobrir qual mal ali se passava, mas acabaram frustrados pelo alto acumulo de ocorrências. O palpite mais próximo de alguns estudiosos foi o de “febre tifoide eruptiva” ou em “tifo” (1987, p.115). Além deste ambiente de enfermidade dentro das muralhas, a fora havia o exército Espartano que se aproveitava para devastar as regiões próximas a capital ateniense. O momento realmente era difícil de lidar, mas a guerra continuo e prosseguiu ainda por vários anos, tendo a doença superada no ano seguinte.

Toda esta descrição não se compara ao nosso Covid-19 ou outros vírus que passamos e superamos pouco tempo atrás, a história nos mostra que há superação, há união e em grandes quantidades, e que os médicos, sempre na linha de frente, prestarão, prestam o serviço mais humano que possa existir. As nossas informações, tecnologia e até mutuo contato entre Estados auxilia para que o cenário de hoje, por mais que nos pareça estranho, jamais se compara ao de muitos outros pela história.

Referências:
TUCÍDIDES. Mário da Gama Kury. História da Guerra do Peloponeso. São Paulo: Editora Universidade de Brasilia. Ed 1, 1987
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Vitor Guerino

Me chamo Vitor Guerino P. de Oliveira, tenho 24 anos e resido na cidade de São Paulo. Graduando em história e estudante assíduo de filosofia - minha maior paixão - e política, estou sempre presente na vida acadêmica publicando artigos científicos relacionados bem como em seminários e entre outros estudos focados. Minha especialidade mora na História Antiga, bem como sua Filosofia. Sou também cursado em ciências políticas, fluente em inglês e atuo na área de pesquisas. Colunista do jornal Duna Pess.
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