Crônicas

A dor de uma despedida: Uma análise sobre a série The Man in The High Castle

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Depois de ler o livro escrito pelo brilhante autor Philip K. Dick em 1962, decidi desfrutar um pouco mais do maravilhoso mundo distópico criado por ele através da adaptação realizada por Frank Spotnitz (roteirista, diretor e produto-executivo da célebre serie Arquivo X), produzida pela Amazon Studios, Scott Free Productions (fundada pelos cineastas e irmãos Ridley Scott e Tony Scott), Headline Pictures e Big Light Productions.

Ter um nome como o grandioso Ridley Scott como parte da produção-executiva é uma garantia de qualidade, especialmente na criação estética dos cenários. Embora as obras do autor já sejam bem vindas ao mundo da sétima arte, como Minority Report – A nova lei e o estrondoso Blade Runner, inclusive esta última tendo sido adaptada e dirigida pelo próprio Ridley Scott, este ficou ciente do desafio que teria ao levar O homem do Castelo Alto, para a TV, e o afirma em entrevista para a Entertainment Weekly: “Durante as filmagens de Blade Runner, chamei Philip para lhe mostrar o que pensei para a cena de abertura, e ele ficou muito impressionado. Ele disse: Você já leu O Homem do Castelo Alto? Isso tudo parece um derivado dele. Com isso, resolvi ler o livro.

Quando a Amazon me chamou, percebi que seria uma coisa bem desafiadora.  Existem 19 histórias nas primeiras 20 páginas do livro. Como você consegue adaptar isso? Como chegar ao epicentro do enredo? Philip funcionava assim. Ele era um homem complexo com um cérebro multifacetado sem qualquer linearidade. Felizmente tínhamos dez episódios de 50 minutos para preencher.”

Podemos observar o imenso cuidado para tornar o mundo distópico, onde as potências do eixo (Itália, Alemanha e Japão) derrotaram os Aliados (formada por Inglaterra , Estados Unidos, União Soviética, que entra depois de ser atacada por Hitler, e grupos expedicionários de vários países), semelhante ao nosso mundo na década de 60, mas cheio de nuances e distinções que o tornam o que deveria ser: algo único, singular, belo e assustador. De fato, o cuidado com o figurino, cenários e diversos outros detalhes, torna esta adaptação um passeio visual intenso, que desafia nossa mente e a mergulha dentro do enredo e na interpretação excepcional da maioria dos atores. A Amazon Prime ofereceu a união da forma e conteúdo com maestria e fez jus aos nomes que encabeçaram tal desafio.

O elenco foi bem selecionado, e é, com raras exceções, formidável, e conta com nomes como: Alexa Davalos Dunas (Banquete do Amor, O Nevoeiro , Defiance e a Batalha de Ridick) como Juliana Crain, Cary-Hiroyuki Tagawa (Star Trek: The Next Generation, Thunder in Paradise, Nash Bridges, Baywatch: Hawaiian Wedding, Heroes, Mortal Kombat e Hachiko: Sempre ao Seu Lado) como Nobusuke Tagomi e Rufus Frederik Sewell (Hamlet, Dangerous Beauty, Dark City (1998), A Knight’s Tale, The Illusionist, Tristan & Isolde e The Tourist. Os Pilares da Terra – série de TV) como John Smith.

Observar esses atores foi desde a primeira temporada um deleite. Atuações fortes, personagens bem delineados e com nuances que os deixam carismáticos. Fantástico observar que os Nazistas são tratados nem de forma caricata e tampouco cômica, e sim, como figuras soturnas, sombrias, como também virtuosas, corajosas e que fogem de simples rotulações e estereótipos. A produção não os inocenta ou justifica, contudo, decide torná-los aquilo que decidimos ignorar que são, e temos sim muitos motivos para tal, e aprendemos a rejeitar: Humanos, e como tal detentores de luzes e sombras, mesmo estando as luzes do lado errado da história.

A primeira temporada apresenta com a calma necessária esse universo alternativo para depois desenvolver os personagens, especialmente a partir da segunda temporada (são quatro no total, somando 40 episódios) o que permite que a perda de algum e o sofrimento e dilemas apresentados por outros gerem a empatia necessária no telespectador para propiciar uma verdadeira imersão.

As diferenças com a obra original são várias e bem perceptíveis, pois, não foi o intuito recriar fidedignamente o trabalho de Philip K. Dick, mas buscar nele inspiração para ir além do já estabelecido pelo livro, diferenciar-se dele e ter sua própria jornada a desenvolver sendo uma homenagem justa e digna de todo o legado do autor, tanto nos livros, como o realizado nas adaptações cinematográficas.  

No meio da terceira temporada eu decidi parar de ver e focar em minhas leituras e outras séries… Tive a tristeza de saber que em breve me despediria de algo que despertou em mim alegria, tristeza, raiva e um oceano de reflexões. Talvez nisto esteja o sucesso desta série: saber a hora de partir e o fazer com chave de ouro.

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Carlos Alberto

Formado em Letras pela UFPE e fluente em inglês e espanhol com certificados internacionais em ambas as línguas. Escreve artigos sobre literatura , educação, cinema e política. Palestrante e debatedor dos temas já mencionados.
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