Literatura

O Peregrino: Uma jornada de esperança e fé

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém. Romanos 11:36

Meu pai era um tradicionalista, digo, um verdadeiro adepto da crença que datas importantes para uma nação, para uma religião e uma família deveriam ser preservadas, que toda a herança dos antigos sábios, homens de virtude, intelectuais ilustres e escritores notórios devia ser preservada, lida e compreendida. “O mal da juventude é acreditar que há algo nobre em repudiar a sabedoria do velho” era seu ditado mais certo e cotidiano e, de fato, estava certo. Ele veria com tristeza, como já evidenciava em palavras ainda em  vida, que o apego ao valor espiritual e filosófico da Páscoa havia se perdido. Para ele os valores morais sólidos contidos na Bíblia por si mesmos já dariam a uma mente ignorante e corrupta, certo valor e elegância, embora, dizia ele, “somente a redenção por cristo daria ao homem o poder de ser um diferencial por gerações”.

Sim amigos, devemos ter a clareza de ver que filosoficamente a Páscoa marca a vitória da mente sobre o medo da morte, historicamente relata a libertação de escravos contra a feroz opressão de seus algozes, hoje, nos parece temerário quando a mídia somente retrata negros como escravos no rumo da história, quando de fato, muitos outros povos foram escravizados e mesmo muitas tribos africanas viviam de escravizar e vender escravos. O povo hebreu saiu de sua condição de servo para reais escritores da sua história, essa é a Pascoa Judaica (Pessach), os homens foram recebidos como filhos de Deus tendo, nem a morte ou o inferno o poder sobre eles, essa é a Páscoa Cristã, os homens podem e devem crer na liberdade e em dias de paz e prosperidade caso sejam fortes e audazes, esse deveria ser o valor da  Páscoa para todos.

Decidimos ir contra a corrente do nosso tempo e pelas próximas semanas traremos livros onde o cristianismo foi trabalhado com uma singular genialidade. Começaremos com o livro The Pilgrim’s Progress (O Peregrino) escrito pelo pregador, pastor e escritor John Bunyan (Elstow, 30 de novembro de 1628 – Londres, 31 de agosto de 1688) dividido em duas partes, sendo a primeira publicada em 1678 e a segunda em 1684, figura como sendo das mais vívidas e cativantes alegorias escritas na literatura mundial ao lado de grandiosas obras como A Divina Comédia de Dante Alighieri. O escritor e articulista frequente do jornal The Guardian, Robert McCrum, afirma:

“Mais profundamente, como alegoria da repressão estatal, foi descrita pelo historiador EP Thompson como um dos textos fundamentais do movimento operário inglês. Parte de sua qualidade exclusivamente inglesa é um senso de humor robusto e envolvente que cimentou seu apelo a gerações de leitores. O Peregrino é o definitivo clássico inglês, um livro que tem sido continuamente impresso, desde a sua primeira publicação até os dias atuais, em um número extraordinário de edições. Não há nenhum livro em inglês, além da Bíblia, que se iguale à obra-prima de Bunyan tanto pelo alcance de seus leitores seja por sua influência em escritores tão diversos como William Thackeray, Charlotte Bronte, Mark Twain, C. S. Lewis, John Steinbeck e até mesmo Enid Blyton.”

A primeira parte do livro mostra como o escritor, mesmo não sendo um ilustre letrado, soube a importância de cativar o leitor desde a primeira linha. Herman Melville, nos cativa com “Meu Nome é Ismael”, e Bunyan com : (…)ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi um homem vestido de trapos(…). Dessa forma somos introduzidos a um mundo fantástico, fruto da imaginação rica do escritor que nos apresenta Cristão, um homem atormentado que carrega , literalmente, uma grande fardo nas costas e que depois de ler um livro , começa a chorar e tremer ao meditar na sua vida. Logo, ele conhece Evangelista que mostra que ele deve fugir da Cidade da Destruição onde vive para percorrer o caminho estreito e difícil que o levará para a Cidade Celestial.

A imaginação do escritor transborda para mente do leitor e tudo que é lido é tão didático que se iguala a tantas outras obras que por séculos foram parte da tradição oral de muitos povos e responsáveis por transmitir valores morais e sabedoria prática e utilitária. Bunyan sabia da importância e mérito que uma boa estória tinha para educar o povo, e não à toa, missionários por séculos usaram esta obra em suas viagens. George W. Latham afirmou que: “Outra característica extraordinária é que o leitor encontra muito pouca dificuldade na interpretação da alegoria, uma figura de linguagem muitas vezes bastante complexa. É verdade que certos lugares do livro não são de fácil leitura, mas geralmente são lugares onde a alegoria é descartada por completo.”

Os lugares e personagens que o livro apresenta – Hipocrisia, Boa-Vontade, Sr. Intérprete, gigante Desespero, A Cidade da Destruição, O Castelo das Dúvidas… – figuram com as mais fortes imagens da literatura alegórica onde o caminho do cristão é revelado e a forma como ele deve se portar diante de todos os obstáculos que surgem no seu caminho de fé.

Na próxima semana continuaremos a análise e o fechamento da crítica à essa obra fantástica.

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Carlos Alberto

Formado em Letras pela UFPE e fluente em inglês e espanhol com certificados internacionais em ambas as línguas. Escreve artigos sobre literatura , educação, cinema e política. Palestrante e debatedor dos temas já mencionados.
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