A Medicina na Idade Média estava errada?

A Medicina na Idade Média estava errada?

Em tempos de COVID-19, disseminam-se ao vento milhares de informações nas mídias sociais, sendo a maior parte das informações desprovida de embasamento técnico e científico, sendo um turbilhão de fake News e especulações, tanto dos paranoicos teóricos da conspiração, que levantam várias teses, algumas até que convincentes, sobre a origem e aplicação do Corona Vírus com uma arma biológica, e sua disseminação intencional, outros com a Teologia do Caos, ouvindo o soar das trombetas dos anjos e o romper dos selos do apocalipse.

É verdade que vivemos um fato inédito, pois a tempo muito que o mundo não se via abalado desta forma, e os dias de hoje serão contados nos livros de história daqui a alguns séculos. E quem sabe os escritores irão nos ridicularizar por nossos métodos assim como hoje nós zombamos dos homens medievais pelos seus métodos que hoje consideramos sem lógica.

Com este enfoque, é interessante analisar alguns dos tratamentos e procedimentos médicos utilizados na Idade Média, que na visão do homem moderno são vistos como bárbaros, retrógrados e ineficazes, bem como os métodos de diagnóstico e prevenção de doenças.

O primeiro ponto importante a ser observado é a falta de laicidade do poder e do conhecimento, onde pelo fato do conhecimento e autoridade estarem concentrados na igreja, não havia distinção entre o teológico e o científico, por este motivo, o principal diagnostico das doenças era de caráter espiritual, sendo constatado portanto que as pessoas estavam doentes por dois motivos, ou por uma punição divina, ou por uma obra satânica.

Neste prisma, com o diagnostico teológico das doenças físicas, consequentemente eram ministrados tratamentos de caráter espiritual, como orações e exorcismos, indo para procedimentos físicos com intuito de espiar os pecados, como jejum, mortificação (autoflagelo religioso) e peregrinações, e de igual modo as epidemias eram tidas como uma punição coletiva as transgressões da sociedade, sendo curadas somente por orações e penitencias, e desta forma, aqueles que buscavam de métodos terapêuticos para curar as doenças poderiam ser vistos como hereges, uma vez que estariam se contrapondo com a vontade divina.

Além dos tratamentos e diagnósticos exclusivamente teológicos, existiam também outros métodos de evitar e curar enfermidades, que eram muito mais esdrúxulos, como a teoria miasmática, onde compreendia-se que a transmissão de doenças era através dos odores (miasmas), por isso, para evitar a exposição ao ar contaminado, as pessoas evitavam tomar banho, devido a abertura dos poros capilares durante a higiene corporal, bem como não era recomendado a troca de roupas, permanecendo as pessoas com as mesmas vestes até apodrecerem.

É impossível imaginar o mau cheiro que impregnava-se nas pessoas, todavia, segundo a medicina medieval, o alguns odores serviam como repelente para doenças, sendo ministrado como tratamento prevenção de doenças a aplicação de fezes e urina de animais, como uma loção. Mas não para por ai, um dos tratamentos recomendados para teníase (solitária), era a o uso de urina de criança no couro cabeludo, assim como quem sofria de gota, buscava curar sua doença utilizando fezes de cabra como creme hidratante.

Outro fator relevante que dificultava a obtenção de um entendimento das doenças, era o desconhecimento da anatomia humana, uma vez devido aos dogmas religiosos que consideram o corpo humano sagrado, imagem e semelhança de Deus, e até o fim do século XVII era proibido fazerem-se dissecações em cadáveres, não sendo portanto possível utilizar-se dos princípios científicos da observação e experimentação, uma vez que não havia possibilidade de realizar autopsias nos doentes para entender melhor suas moléstias, e a alternativa para aqueles que buscavam compreender a anatomia humana, era realizar a dissecação de porcos, por compreenderem que seu organismo era semelhante ao dos humanos.

Todos os procedimentos médicos eram extremamente doloridos, considerando-se o fato de que não existia anestesia, e assim sendo, ao realizar-se uma cirurgia, geralmente o paciente tinha seus sentidos entorpecidos por meio de uma embriagues forçada. Que não deveria funcionar de forma tão eficiente para inibir a dor, salvo se o paciente entrassem em coma alcoólico, e era comum colocar um bastão na boca do paciente, para que este mordesse o bastão quando a dor fosse mais intensa, bem como algumas vezes vendava-se os olhos do paciente, para que este não enxergasse o que estava acontecendo, de igual modo as crianças de hoje em dia, que ao tomarem uma vacina, são instruídas pelos seus pais a desviar o olhar para o outro lado. E por não estar totalmente insensibilizado da dor, eram necessárias entre quatro a cinco assistentes de cirurgião para segurarem o paciente imóvel durante o procedimento.

Um dos procedimentos mais comuns nos campos de batalha, para tratar os soldados feridos e estancar seus sangramentos, era por meio da cauterização, onde aquecia-se uma haste de ferro até ela ficar em brasa e depois pressionava contra o ferimento, transformando um corte em queimadura. Assim com eram comuns amputações de membros do corpo, para evitar-se infecções, que seriam fatais. Sem contar que os instrumentos utilizados nas cirurgias, além de rústicos, não eram esterilizados, sendo somente removido o sangue e os resíduos humanos com água. Além de que os médicos só lavavam as mãos após as cirurgias, e nunca antes, bem como os seus aventais permaneciam sujos de sangue, pois era um sinal de sua eficiência e experiência no ramo.

Além de diagnósticos confusos, também não existia uma distribuição de profissionais por especificidade como hoje me dia, que existe um leque de áreas medicas, onde cada profissional cuida exclusivamente de sua área, por isso geralmente cabia aos barbeiros a função de médico, principalmente de dentista, onde o barbeiro-cirurgião por ser considerado um “especialista” em cabeças, e como descrito na canção composta em 1816 por Gioacchino Rossini, intitulada “O Barbeiro  de Sevilha”, popularmente conhecida como “Fígaro”, em meio a cortes de cabelo e perucas, o barbeiro também receita remédios e ministra sangrias em seus clientes.

Desta forma, observa-se que a falta de separação entre o conhecimento teológico do científico, fez com que a área médica na sociedade medieval fosse na maioria das vezes ineficaz em seus métodos, por apoiar-se majoritariamente em fatores espirituais para o diagnóstico de doenças, bem como a falta de conhecimento e estudo da anatomia humana, fazendo com que fossem aplicados métodos de tratamento que muitas vezes além de serem ineficazes, ocasionavam piora no quadro clínico do paciente, causando em alguns casos resultados desastrosos, como ocorreu com o rei Carlos II de Navarra, que em 1387, estando doente, e lhe foi recomendado um tratamento que consistia em deixar o corpo do rei envolto em tecidos encharcados de conhaque, e durante o processo de aplicar os panos no rei, por estar anoitecendo uma de suas cervas aproximou uma vela para poder enxergar melhor, e desta forma pela proximidade da chama da vela com o líquido inflamável, o rei morreu carbonizado, em um incidente tão trágico, como cômico.

Isto posto, analisando-se sob a ótica contemporânea ocorre um estranhamento, uma vez que para a mentalidade medieval todos os métodos eram vistos como precisos, eficazes e modernos. E assim como a mentalidade contemporânea considera sem lógica, atrasados e supersticiosos os métodos medievais, quem sabe daqui a alguns séculos nós também não seremos taxados assim, por estarmos fazendo uso de métodos que para eles serão vistos como ineficazes, e assim como hoje ridicularizamos as máscaras pontudas que afirmam terem sido utilizadas para evitar o contagio da Grande Peste, nós também seremos alvo de chacota por sairmos nas ruas com nossas máscaras para evitar o COVID-19.

Referência Bibliográfica:
– DIAMOND, Jared. Armas, germes e aço: Os destinos das sociedades humanas. Editora Record. 2017.
– FITZHARRIS, Lindsey. Medicina Dos Horrores: A História De Joseph Lister, O Homem Que Revolucionou O Apavorante Mundo Das Cirurgias Do Século XIX. Editora Intrínseca. 2019.
– MARTINHO, José. 1348 – A Peste Negra. Editora Amazon.
– MARTINHO, José Antônio – A Horripilante Medicina da Idade Média. Editora Amazon.
– NELL, Adam. Idade das Trevas: Um Guia Completo para o Período Entre a Queda do Império Romano e a Renascença. Editora Book Brothers. 2019.
– UJVARI, Stefan Cunha. A História da Humanidade Contada pelo Vírus. Editora Contexto. 2012.
Imagem:
Omne Bonum, de James Le Palmer, 1360.

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