Pandemias na História: A Primeira Peste Bubônica

Pandemias na História: A Primeira Peste Bubônica
Praga de Justiniano      
Mosaic of Justinian I (Ravenna)

 Seguindo nosso caminho pela história, tendo como paisagem intencional as dores humanas providas por pandemias, vírus e entre outras doenças, nossa partida se inicia na Grécia, no ano de 430 a.C. com a forte epidemia que assolou o solo ateniense, debilitando ainda mais uma população que já vinha exaurida por uma guerra. Mas agora em nossa viagem, olharemos mais longe através do tempo para por nossa vista na primeira manifestação de uma doença muito conhecida ao qual certamente o leitor já ouviu falar: a peste bubónica.

Sua primeira grande manifestação ocorrera no século VI entre os anos de 541 a 544 d.C. e seu impacto foi bastante vasto, atingindo boa parcela da Europa, sendo a primeira grande calamidade da história. Estima-se que morrera entre 25 a 100 milhões de pessoas ao longo dos dois séculos seguintes como consequência desta pandemia.

O nome atribuído a ela é “Praga de Justiniano” por ter sua origem durante o reinado do imperador Justiniano I (r. 527-565 d.C.) e tendo grande incidência na região de Constantinopla e Roma. O termo “bubónica” vem do grego e significa “virilha” e foi atribuído a doença por conta de seu inchaço na localidade. Os sintomas iniciais são: gripe, febre, dores de cabeça e vômitos. O local por onde a bactéria se instaurou se encontrará inchado e doloroso na melhor das hipóteses, na pior poderá estourar-se e agravar a situação.

Acredita-se que sua criação se deu no norte da África, mais especificamente no Egito e por conta da rota marítima com o mediterrâneo ela logo se proliferou pelas regiões do oriente romano e posteriormente do ocidente. O hospedeiro da peste bubónica geralmente são as pulgas que tem forte presença nas embarcações comerciais juntos aos ratos, mas outros animais pequenos também podem portar tal praga.

As Guerras
Map Rome Empire

Neste interim, o fragilizado Império Romano se encontrava em constantes guerras. Em parte, o lado oriental tinha de lidar com investidas constantes dos povos sassanidas (último império Persa), e dos eslavos que por mais que fossem rechaçados, acabavam depreciando lentamente as forças locais. Do outro lado havia o ocidente que tinha de lidar com os “bárbaros”, mais especificamente nesta época, os Ostrogodos.

Graças a um pacto de não-agressão pactuado com o imperador sassânida Cosroes I, Justiniano pôs sua atenção a reconquista do ocidente, de início a acabar com os Vândalos (tribo germânica) no norte da África (533-534). Seu general, Belisário, com bastante habilidade recuperou localidades como: Cartago, Sicília e as Ilhas Baleares, após isto o imperador ordenou que ele voltasse sua atenção a península Itálica onde Teodorico, o Grande reinava em seu Reino Ostrogodo.

Conquistou-a em 539 d.C. com bastante dificuldade e por um tempo pareceu a população que a empreitada de Justiniano havia sido um sucesso, entretanto, a peste chega em 542 nas cidades mediterrâneas do oriente trazendo um morticínio feroz enquanto que Tólita, novo rei Ostrogodo, oferecia forte resistência a Belisário no restante do território italiano que acabou perdendo seu território conquistado.

Em 546, Tólita sitiou Roma até sua rendição por fome e então pilhou-a deixando inclusive a cidade abandonada por 40 dias, com isso, o general romano tem seu nome deixado de lado por Justiniano, que coloca em seu lugar o general Narses, este teve um sucesso maior em sua investida, repelindo as forças ostrogodas na região e eliminando Tólita em 552.

Como vê, a movimentação de contato humano, principalmente com a morte, é grande, a doença vive e se espalha por carcaças e este contato viria a propagar no ocidente em algum momento. Enquanto o território italiano vivia nesta alternância de governos e guerras, a peste se espalhava torrencialmente pelo oriente.

Justiniano abandona sua campanha ocidental por conta da volta das ofensivas persas no oriente e com isto novamente Roma é deixada de lado e a pandemia vai ganhando sua força silenciosamente enquanto os homens deliberam sobre expansionismos e protecionismos.

Vale recordar que a primeira peste bubônica perdurou por 2 séculos, tendo sua erradicação em 750 d.C., algo igual só voltou a acontecer na Idade Média com sua pandemia quase que irmã, a Peste Negra.

Referências:
Encyclopedia of Pestilence, Pandemics and Plagues, Greenwood Press; História dos Francos de Gregório de Tours
GIORDANI, Mário Curtis (1968). História do Império Bizantino. [S.l.]: Ed. Vozes
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