Um Santo em uma Pandemia: Papa Gregório o Grande

Um Santo em uma Pandemia: Papa Gregório o Grande
Papa Gregório o Grande
Vida até o Papado

Século VI d.C.: um período terrível para nascer e viver em Roma. As guerras entre bárbaros que se revezavam no poder e o Império Romano do Oriente, a grande instabilidade política e somados além aos murmúrios de uma forte peste presentes nos lábios e corações dos cidadãos, vaziam com que a capital do Império Romano do Ocidente se tornasse um bom espelho do purgatório.

Neste ambiente nasce por volta de 540 d.C. Gregório Anicius, filho de uma rica família patrícia romana (aristocratas), seu pai, Gordiano chegou até mesmo a ocupar presença na política como senador e prefeito urbano. Durante a expedição de retomada do Ocidente Romano, em que o Imperador do Oriente, Justiniano I, travava guerra contra os Godos em Roma, provavelmente, a família de Gregório se refugiou em seus territórios na Sicília, livre de qualquer perigo.

A Italia de Gregório:
Em Laranja: Domínio Bizantino
Em Roxo: Domínio Lombardo

Gregório ascende cada vez mais na sociedade e aos 33 anos se torna, como o pai, prefeito urbano de Roma, o mais alto posto civil na cidade. Neste momento, a região da Itália estava dividida, parta era controlada pelo Império Romano do Oriente, outra pelos Lombardos (povos germânicos), de modo que um dos papeis de Gregório era o de reduzir os impactos causados pelas invasões bárbaras.

Após a morte de seu pai, Gregório passa a dedicar sua vida a contemplação, se tornando monge, chegou até mesmo a transformar as propriedades de sua família em mosteiros dedicado a Santo André. Tal decisão não era de se surpreender, a família e também Gregório sempre tiveram fortes ligações com a Igreja. A vida contemplativa tem dois conceitos ao qual podemos pensar de forma simples: O primeiro é o da contemplação do ambiente e reflexão sobre a vida que ali flui, este estado cotidianamente pode passar, mesmo que por segundos, a qualquer um.

Basicamente seria aquele momento em que seus olhos se prende a uma paisagem ou cena, e sua mente flutua de forma mais concisa, tendo total atenção e foco nesta ação. O segundo é a contemplação como busca solitária por Deus, onde a pessoa se isola fisicamente e deixa com que sua mente se guie naturalmente através de suas próprias misérias, para enfim alcançar a Verdade.

Em 579 d.C. Gregório é convidado pelo Papa Pelágio II para o cargo de “apocrisiário” (Embaixador papal na corte de Constantinopla), sua missão era de buscar a ajuda do Imperador da Roma Oriental, atual Maurício (582 a 602), contra os Lombardos. Seu empenho foi constante, chegou até mesmo a ficar conhecido na nobreza local como um guia espiritual a estas pessoas, mas nada surtia efeito, a atenção de Maurício era totalmente voltada a defesa do próprio território contra as investidas dos sassânidas (persas), ávaros (povos bárbaros próximos ao território turco) e os eslavos (povos dos Bálcãs). Não há registro de algum sucesso em sua missão.

Papa Gregório o Grande

A peste bubônica finalmente chega a cidade de Roma, isso por volta de 590 d.C. Em 585 d.C., Gregório deixa seu cargo como apocrisiário e passa a viver em seu mosteiro no Monte Célio, entretanto, em 590 d.C. o papa Pelágio II contrai a peste bubônica e acaba falecendo e uma forte comoção popular acaba fazendo com que Gregório viesse a sucede-lo logo após a aprovação do Imperador Bizantino (naquela época necessitava do aval do Imperador do Oriente para legitimar o cargo). Podemos dizer que Gregório combateu com forças máximas a peste em Roma desde seu início.

Castel Sain’t Angelo

Devido ao calamitoso estado atual de Roma, o Papa decide então combater de frente esta epidemia, e na falta de medicamentos frente a tamanho morticínio, o pontífice utilizou-se da fé como frente a peste. Reunindo então em uma grande procissão como jamais vista naqueles tempos, contando ao todo sete grandes cortejos clericais, somados a praticamente toda população de Roma, Gregório avança pelas ruas de romanas tendo em mãos a imagem de “Maria Salus Populi Romani” (Maria Protetora do povo Romano), uma imagem da virgem Maria que veio a se tornar marco protetor contra pestes, guerras e calamidades que afligiam o povo de Roma.

O historiador Gregório de Tours – que viveu naquele período – em seu “Historiae Franncorum (liber X, 1)” diz que durante a procissão, em apenas uma hora, morreram mais de 80 pessoas, mas que Papa Gregório seguia com fé em sua busca pela salvação de toda população. Em dado momento, todos ali cantavam em uníssono cânticos de fé, o ar, o ambiente e todo aquele cenário outrora doloroso, se tornou esperançoso e cheio de magia.

A teologia conta que, quando em frente ao Mausoléu do Imperador Adriano, Gregório e toda a população contemplaram ali um verdadeiro milagre. Pairando no topo do edifício, repousava a imagem do Arcanjo Miguel, e para ele todos ali cantavam e em uma única prece: a de que a pandemia fosse cessada. Em resposta, o Arcanjo simplesmente enxugou o sangue de sua espada, e quando limpo, embainhou-a em afirmação clara: A peste havia acabado. O local foi rebatizado como Castel Sant’Angelo em homenagem ao acontecimento.

Definitivamente, por mais que esta ação tenha sido perigosa a população, os documentos mostram uma diminuição da peste na cidade Roma, chegando a sua extinção pouco tempo depois. Gregório só estava iniciando como Papa, após estes acontecimentos colocou toda sua atenção a solução de vários outros assuntos que mexeram com os alicerces da Igreja. Corrigiu certos abusos, deu enorme atenção e ajuda aos cidadãos mais pobres recolocando em outras pessoas novamente o ato de dar esmola.

Alterou em alguns pontos a liturgia vigente, investiu na evangelização do povo Britânico, criou novos hinos Litúrgicos (Canto Gregoriano) dando um significado maior a canção, que não deveria ser apenas um enfeite, mas também parte das orações. Sua importância foi imensa até mesmo após a sua morte em março de 604 d.C. Seguindo sua morte, a mesma população que o aclamou para o papado, aclamou-o novamente, só que desta vez, para a santificação, se tornando: São Gregório.

Maria Salus Populi Romani

Recentemente, a imagem da virgem Maria ao qual Gregório segurou em sua procissão, foi visitada pelo Papa Francisco que pediu solenemente a proteção dela a todos nós frente as calamidades do Covid-19, a atual pandemia no mundo.

Referencias:
https://dunapress.org/2020/04/15/pandemias-na-historia-a-primeira-peste-bubonica/
http://apostoladosagradoscoracoes.angelfire.com/pontigno.html
https://www.comshalom.org/conheca-a-historia-do-icone-para-o-qual-o-papa-rezou-pedindo-o-fim-da-pandemia/
https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-03/arcanjo-miguel-peste-castel-santangelo.html
Print Friendly, PDF & Email