Nunca cante vitória (e não cochile) antes da hora!

Nunca cante vitória (e não cochile) antes da hora!

Quem nunca dormiu um pouco mais do que deveria, e acabou perdendo a hora para o trabalho ou para a escola? Isso é um fato cotidiano no qual todos estão sujeitos, e que pode gerar algumas situações embaraçosas. Mas se isso acontecesse em uma guerra? Parece cena de um filme de comedia pastelão, ou dos gibis do Recruta Zero, todavia, tal fato ocorreu em 21 de abril de 1836, em um incidente que entrou para a história como A Batalha de San Jacinto.

Em 1835, iniciava-se a Revolução do Texas, um embate onde de um lado estava a República do Texas, um estado independente que perdurou entre 1836 e 1846, localizado no Golfo do México, tendo como líder Sam Houston, que após a dissolução da República do Texas veio a ocupar o cardo de Governador do Texas. Do outro lado estava os Estado Unidos do Mexicanos, liderado pelo general e presidente, Antônio Lopes de Santa Anna, popularmente conhecido como “O Napoleão do Oeste”. Tal revolta deflagrou-se em decorrência do descontentamento dos colonos da região do Texas, que na época pertencia ao México, e que descontentes com o governo centralizador de Santa Anna que havia dissolvido o congresso e revogado a constituição democrática de 1824, iniciaram insurreições, até a proclamação da República do Texas, tendo como grande marco inicial a Batalha de Gonzales.

A nova República do Texas recebeu massivo apoio de voluntários civis dos Estados Unidos, formando uma milícia militar respeitável de aproximadamente dois mil combatentes. Mas do lado oposto, o México contava com um contingente de aproximadamente seis mil e quinhentos soldados, e o Napoleão do Oeste não iria aceitar nenhuma oposição ao seu governo.

Em 6 de março de 1836, após 13 dias de cerco, esmagou as forças texanas no Álamo, bem como, poucos dias depois, sobrepujou os texanos no Condado de Goliad, executando cruelmente todos os sobreviventes no domingo de ramos de 27 de março de 1836, sendo o incidente conhecido como o Massacre de Goliad, onde dos 342 prisioneiros sofreram uma execução em massa.

Tomando conhecimento do massacre, o presidente do Texas, David Gouverneur Burnet, enviou Sam Houston, para liderar as tropas, que estavam revoltosas e com o moral em baixa, principalmente em decorrência da ordem dada por Houston de recuarem para leste, fazendo com que as tropas questionassem sua autoridade e estivessem na eminencia de um motim.

Os mexicanos avançavam cada vez mais, forçando a república texana a abandonar sua capital em Washington-on-the-Brazos, tendo que transferir a sede do governo para o Golfo do México. Nesta senda, após uma longa marcha na retaguarda de Sam Houston, o exército mexicano com aproximadamente 600 soldados, ergueu acampamento na cidade de San Jacinto, onde recebeu o acréscimo de mais 540 soldados, em contraponto dos seus oponentes texanos que tinham um contingente de aproximadamente 900 combatentes, que haviam derrubado uma ponte na região para dificultar o engrossamento das fileiras mexicanas, e Houston traçava planos de ataque para aquela tarde.

Do lado oposto, Santa Anna, convencido de sua vantagem sob os humilhados texanos, que até o momento não haviam realizado nenhuma ofensiva, resolve dar a ordem que faria toda a diferença na batalha e no curso da história: resolveu conceder a TODOS os seus homens uma dispensa para um siesta, que na tradição hispânica nada mais é que um cochilo após o almoço. Tal ordem se estendeu à toda a sua tropa, sem preocupar-se em deixar nenhum soldado em sentinela.

Foi neste momento que a tropa texana sem fazer idéia da vulnerabilidade dos mexicanos, realizou um ataque, onde causou aproximadamente seiscentas baixas para o lado mexicano, que não conseguiu reagir tempestivamente ao ataque, e após tantas vitorias e proporcionar um cruel massacre em Goliad, foram humilhantemente derrotados em San Jacinto, ao passo que os texanos sofreram somente 39 baixas.

Toda a batalha durou aproximadamente 18 minutos, em meio a confusão do ataque surpresa Santa Anna as pressas vestiu um uniforme de soldado raso, não se sabe se por descuido, ou para disfarçar-se, e ao ser capturado não foi reconhecido pelos texanos, que não conheciam sua fisionomia. Porém, seu anonimato durou pouco tempo, uma vez que os demais prisioneiros batiam continência para ele e o chamavam de El Presidente.

Desta forma, como em uma piada pejorativa de lusitano, o disfarce do Napoleão Mexicano não durou e o mesmo teve sua vida poupada em troca de firmar o Tratado de Velasco, onde se viu obrigado a retirar suas tropas das terras texanas, e reconhecer a República do Texas como uma soberania, em troca de um salvo conduto para realizar uma retirada de solo texano com sua incolumidade e de sua tropa garantida.

Todavia, tal retirada pacífica não ocorreu de fato, e Santa Anna permaneceu prisioneiro por mais seis meses, onde o prisioneiro de guerra foi apresentado ao presidente norte americano Andrew Jackson, para depois retornar para o México com seu poder em decadência total diante da humilhante derrota que solidificou de vez a cisão do Texas com o México, transformando-o em uma nação independente, até sua incorporação voluntária aos Estados Unidos em 29 de dezembro de 1845 e sua dissolução em 1846.

Neste sentido verifica-se em uma batalha onde a vantagem e a vitória estavam garantidas para os mexicanos, uma decisão irresponsável de ingerência pôs tudo a perder e alterou todo o resultado de uma guerra, tendo como principal lição, nunca se cantar vitória antes da hora, assim como não cochilar também.

Referência Bibliográfica:
– BORGA, Ricardo N. Revolução do Texas: O Álamo, A Última Fronteira. Editora Clube dos Autores. 2014.
– HAMNETT, Brian R. História Concisa do México. Editora Edipro. 2016.
– LACEY, Jim. MURRAY, Williamson. As Batalhas Mais Decisivas da História. Editora Cultrix. 2017.
– KILMEADE, Brian. Sam Houston and the Alamo Avengers: The Texas Victory That Changed American History. Editora Sentinel. 2020.
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